{"id":3356,"date":"2019-12-04T18:00:26","date_gmt":"2019-12-04T18:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/postarchive.org\/?page_id=3356"},"modified":"2024-04-17T08:34:26","modified_gmt":"2024-04-17T08:34:26","slug":"texts","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/postarchive.org\/en\/texts\/","title":{"rendered":"Texts"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"3356\" class=\"elementor elementor-3356 elementor-2588\" data-elementor-post-type=\"page\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-af66759 e-flex e-con-boxed sc_inner_width_none sc_layouts_column_icons_position_left e-con e-parent\" data-id=\"af66759\" data-element_type=\"container\" data-core-v316-plus=\"true\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-56663a3 sc_fly_static elementor-widget elementor-widget-accordion\" data-id=\"56663a3\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"accordion.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<style>\/*! elementor - v3.20.0 - 26-03-2024 *\/\n.elementor-accordion{text-align:left}.elementor-accordion .elementor-accordion-item{border:1px solid #d5d8dc}.elementor-accordion .elementor-accordion-item+.elementor-accordion-item{border-top:none}.elementor-accordion .elementor-tab-title{margin:0;padding:15px 20px;font-weight:700;line-height:1;cursor:pointer;outline:none}.elementor-accordion .elementor-tab-title .elementor-accordion-icon{display:inline-block;width:1.5em}.elementor-accordion .elementor-tab-title .elementor-accordion-icon svg{width:1em;height:1em}.elementor-accordion .elementor-tab-title .elementor-accordion-icon.elementor-accordion-icon-right{float:right;text-align:right}.elementor-accordion .elementor-tab-title .elementor-accordion-icon.elementor-accordion-icon-left{float:left;text-align:left}.elementor-accordion .elementor-tab-title .elementor-accordion-icon .elementor-accordion-icon-closed{display:block}.elementor-accordion .elementor-tab-title .elementor-accordion-icon .elementor-accordion-icon-opened,.elementor-accordion .elementor-tab-title.elementor-active .elementor-accordion-icon-closed{display:none}.elementor-accordion .elementor-tab-title.elementor-active .elementor-accordion-icon-opened{display:block}.elementor-accordion .elementor-tab-content{display:none;padding:15px 20px;border-top:1px solid #d5d8dc}@media (max-width:767px){.elementor-accordion .elementor-tab-title{padding:12px 15px}.elementor-accordion .elementor-tab-title .elementor-accordion-icon{width:1.2em}.elementor-accordion .elementor-tab-content{padding:7px 15px}}.e-con-inner>.elementor-widget-accordion,.e-con>.elementor-widget-accordion{width:var(--container-widget-width);--flex-grow:var(--container-widget-flex-grow)}<\/style>\t\t<div class=\"elementor-accordion\">\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-accordion-item\">\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-title-9051\" class=\"elementor-tab-title\" data-tab=\"1\" role=\"button\" aria-controls=\"elementor-tab-content-9051\" aria-expanded=\"false\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon elementor-accordion-icon-left\" aria-hidden=\"true\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-closed\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-plus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H272V64c0-17.67-14.33-32-32-32h-32c-17.67 0-32 14.33-32 32v144H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h144v144c0 17.67 14.33 32 32 32h32c17.67 0 32-14.33 32-32V304h144c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-opened\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-minus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h384c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a class=\"elementor-accordion-title\" tabindex=\"0\">Mam\u00e3 Morte \u2013 Djaimilia Pereira de Almeida<\/a>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-content-9051\" class=\"elementor-tab-content elementor-clearfix\" data-tab=\"1\" role=\"region\" aria-labelledby=\"elementor-tab-title-9051\"><p>Mam\u00e3 morte, estou aqui, cantou Cruzado em Kimbundu, passando a porta de casa. N\u00e3o se dirigia a Deus, ao seu pai nem \u00e0 sua m\u00e3e, mortos h\u00e1 muito. Chegara o seu momento, por absurdo que fosse, olhando em volta: o casebre ao fundo de uma alameda sem \u00e1rvores, o sobretudo ru\u00e7o, esfomeado, taciturno. Mas mesmo ali, onde nem eucaliptos medravam, a morte cantou e, sabendo-se cantado, ele assentiu.<br \/>O filho desconhecia o canto de morte, que antecedia os \u00faltimos dias. N\u00e3o sabia que ela queria o pai sozinho, que reclamaria a solid\u00e3o de Cruzado sem contemplar amor ou amizade, que na sua barca n\u00e3o cabiam mulher nem filhos. A morte queria os homens como a vida os tinha encontrado, despidos e leves, anteriores aos bolsos. Mam\u00e3 Morte, entoava Cruzado enquanto abria e fechava gavetas \u00e0 procura de f\u00f3sforos.<br \/>Ou o pai cantava no banho e o filho escutava-o do outro lado da porta, trancada por dentro.<br \/>A can\u00e7\u00e3o cantou nele, e logo Cruzado se fez fechado, a sua cara mudou aos poucos, o cabelo perdeu a cor, os olhos, as fei\u00e7\u00f5es se apagaram.<br \/>Despedia-se dos sonhos, temia tombar no meio da rua.<br \/>Mam\u00e3 morte, estou aqui, cantava, andando entre os vivos, vendo a cidade pela \u00faltima vez. Nem dor nem alarme. Nem tristeza nem alegria. N\u00e3o antecipava como seriam as suas ex\u00e9quias, n\u00e3o se sentia resolvido, justificado, amargurado. Tamb\u00e9m n\u00e3o tinha medo, nem sentia que precisasse de coragem. A morte cantara nele.<\/p><p>*<\/p><p>Chovia. Est\u00e1vamos presos no tr\u00e2nsito, \u00e0 sa\u00edda de Lisboa. \u201cDeve ter havido um acidente\u201d, coment\u00e1mos. Seriam sete da tarde. Na faixa da esquerda, um autocarro parara no meio da via. \u201cSer\u00e1 uma avaria?\u201d O primeiro homem cruzou a estrada pela direita, atirando-se para o meio dos carros em passo de corrida. Vinha das obras: bon\u00e9 na cabe\u00e7a, cal\u00e7as molhadas, botas sujas de tinta, saco a tiracolo. N\u00e3o demor\u00e1mos mais do que alguns segundos a entender que o autocarro parara no meio da estrada para o apanhar, embora n\u00e3o houvesse ali perto nenhuma paragem. N\u00e3o era tr\u00e2nsito. Apenas o caos causado nas coisas por um co\u00e1gulo.<br \/>O homem bateu \u00e0 porta do autocarro, sorriu, a porta abriu, o jovem motorista acenou-lhe, e ele desapareceu dentro do ve\u00edculo. O tr\u00e2nsito fluiu.<\/p><p>*<\/p><p>\u00c0 minha janela, nestes dias de Outono, um grupo de jardineiros trata de um jardim. O segundo homem, rapaz de pele negra quase azul, distingue-se do resto do grupo, seis ou sete homens e mulheres jovens, com poucos dentes e rosto sofrido. Ou\u00e7o-o cantar toda a tarde, enquanto corta relva, desenhando diagonais num relvado aqui perto. Canta um espiritual cont\u00ednuo numa l\u00edngua desconhecida, de pulm\u00f5es abertos, uma can\u00e7\u00e3o de trabalho. O ru\u00eddo do cortador de relva serve-lhe de ritmo. N\u00e3o sei de onde veio e nunca me d\u00e1 os bons-dias, quando nos cruzamos na rua. O seu canto \u00e9 ancestral, vem do est\u00f4mago. Pergunto-me onde o aprendeu, quem lho ter\u00e1 ensinado, decerto muito longe daqui, noutro continente. Hoje n\u00e3o \u00e9 um escravo e talvez nunca tenha sido. Ganha o seu sal\u00e1rio, almo\u00e7a \u00e0 sombra de um choupo, enrola tabaco antes de pegar ao servi\u00e7o. Canta como cantam as ceifeiras, os vindimeiros, os pescadores, os apanhadores de algod\u00e3o, de caf\u00e9, de am\u00eaijoa.<br \/>Manuel Gusm\u00e3o escreveu um verso que me lembra estes dois homens:<\/p><p>\u201cContra todas as evid\u00eancias em contr\u00e1rio, a alegria.\u201d<\/p><p>Ningu\u00e9m ensina \u2014 nem se imagina como \u00e9 \u00e1rduo deixarmo-nos ir pela m\u00e3o da alegria. Eu costumava pensar nela como um fantasma que se aborrece de assombrar algumas almas e as abandona. Agora penso que anda no nosso encal\u00e7o, enquanto a procuramos com uma lupa, atentos a carreiros de formigas. Penso nela, hoje, como uma sombra brincalhona, que gosta de nos ver atrapalhados.<\/p><p>*<\/p><p>Uma madrugada, Cruzado saiu. N\u00e3o levou carteira nem documentos, apenas trocos para o autocarro. N\u00e3o precisou de esfor\u00e7o. Encostou-se \u00e0s costas de um homem metido consigo. Quando o autocarro partiu, atrav\u00e9s dos vidros embaciados, j\u00e1 a cidade o engolira entre os vultos. Mam\u00e3 morte, estou aqui, cantou dentro da sua cabe\u00e7a.<br \/>A cidade assomava do nevoeiro: as fachadas engavetadas entre pr\u00e9-fabricados que eram agora restaurantes franceses, farm\u00e1cias que tinham sido tascas, supermercados que um dia foram sapateiros, tudo exibindo um pouco do seu passado, ainda que vestido com novas cores. E nunca mais ningu\u00e9m o viu.<\/p><\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-accordion-item\">\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-title-9052\" class=\"elementor-tab-title\" data-tab=\"2\" role=\"button\" aria-controls=\"elementor-tab-content-9052\" aria-expanded=\"false\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon elementor-accordion-icon-left\" aria-hidden=\"true\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-closed\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-plus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H272V64c0-17.67-14.33-32-32-32h-32c-17.67 0-32 14.33-32 32v144H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h144v144c0 17.67 14.33 32 32 32h32c17.67 0 32-14.33 32-32V304h144c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-opened\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-minus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h384c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a class=\"elementor-accordion-title\" tabindex=\"0\">A Cassette de Santa Luzia \u2013 Tvon<\/a>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-content-9052\" class=\"elementor-tab-content elementor-clearfix\" data-tab=\"2\" role=\"region\" aria-labelledby=\"elementor-tab-title-9052\"><p><strong>A Cassette de Santa Luzia<\/strong><\/p><p>H\u00e1 algum tempo atr\u00e1s na ilha conhecida como Santa Luzia a menina, a quem as cagarras e as tartarugas chamavam Luanda, encontrou uma cassete. Na verdade ela nunca tinha visto uma cassete. N\u00e3o fazia ideia do que aquilo realmente era. Percorreu incont\u00e1veis quil\u00f3metros at\u00e9 chegar a casa do mais antigo habitante da ilha, o querido Matemo, de forma a saber o que tinha em m\u00e3os. L\u00e1 chegada, assobiou.<br \/>\u2013 Mas queres o qu\u00ea Filha de S\u00e3o Tom\u00e9 e Filha de Uno? Luanda n\u00e3o respondeu. Estava rosa choque. Como o secular Matemo sabia que era ela apenas pelo assobio? Sabia que tinha ido ao s\u00edtio certo. Ele sabia mesmo o quase tudo.<br \/>Sentou-se, abriu o saco que trazia a tiracolo e ansiosamente disse: Paizinho Humano da nossa fauna e da nossa flora, podes dizer o que \u00e9 isto que encontrei esta manh\u00e3? Encontrei junto as pedras e n\u00e3o fa\u00e7o ideia do que isto seja. Nunca vi nada igual e fascina me. Impressiona me a forma, as cores, desejo que tenha algum poder. Matemo sorriu e disse encontraste. Encontraste a magia que pode amansar ou rebelar o cora\u00e7\u00e3o dos humanos fora e dentro desta ilha. Luanda se alegrou. Ent\u00e3o existem mais. Ent\u00e3o talvez n\u00e3o ser\u00e1 ela a \u00fanica menina, pensou.<br \/>Voltou para casa, a cantarolar o que tinha escutado no aparelho de Matemo. Precisava de um aparelho igual para ouvir dia ap\u00f3s dia o que a m\u00e1gica cassete transmitia. Entrou pela porta dos fundos pois n\u00e3o queria que os pais percebessem que tinha chegado no rebentar da madrugada a casa. A M\u00e3e Uno percebeu mas disse nada. Deixou-a deitar se e aconchegar se nos len\u00e7\u00f3is feitos pela Av\u00f3 Itaparica. E foram v\u00e1rias as noites ignoradas pela M\u00e3e Uno. Ela sabia que n\u00e3o podia impedir a menina filha de encontrar o que ela queria. Apenas orava para que as deusas dos mares a protegessem e que tudo de bom lhe acontecesse no sempre daquele agora. A M\u00e3e Uno sabia que Luanda almejava conhecer mais ilhas. N\u00e3o havia um dia em que n\u00e3o suspirasse essa mudan\u00e7a. Estava visto naquilo que Luanda n\u00e3o via.<br \/>Depois das aulas, Luanda sentava-se a beira mar na esperan\u00e7a que o mar lhe oferecesse mais cassetes. Dia ap\u00f3s noite apenas chegava pl\u00e1stico e mais pl\u00e1stico, daquele pl\u00e1stico que asfixiava os seus amiguinhos, a fun\u00e7\u00e3o dela passou a ser protege los dessa invas\u00e3o. Vinham em todas as formas e tamanhos. Ela sentia-se cansada, irritada. Porque \u00e9 que aquelas coisas vinham de longe magoar o que ela conhecia? Adormeceu. Sonhou.<br \/>No sonho de Luanda, surgia uma outra menina igual a ela, quase que podia ser sua g\u00e9mea, pele escura, cabelo crespo, dedos enormes, olhar permanentemente inquisitivo. Olharam-se. N\u00e3o falaram. Deixaram de se olhar. Falaram. A voz dela era igual a voz que ecoava da cassete. Ent\u00e3o, ela falou:<br \/>\u2013 O nome \u00e9 Benguela. O meu. J\u00e1 tive tudo e hoje tenho quase tudo. Tenho os meus junto de mim, n\u00e3o tenho tecto. Vejo que tens mar como tecto e areia como ch\u00e3o. Segura bem o teu tecto, agarra-te bem ao teu ch\u00e3o. Olha ao meu redor e n\u00e3o h\u00e1 mais quarto dos meus pais, n\u00e3o mais. N\u00e3o mais quartos dos primos nem da tia. Volto a olhar e h\u00e1 coisas partidas, tantas coisas partidas que parecem becos sem sa\u00eddas. Maior medo que sinto hoje chama-se demoli\u00e7\u00e3o.<br \/>Onde anda a minha cama? Gostaria de voltar a minha cama, a minha boneca, a minha fofa boneca com os seus enormes olhos azuis e sem saia, apenas de top e cuecas, como gostaria da nossa normalidade chata. Olho e vejo um pouco de tudo. Vejo o saco verde e branco que a minha m\u00e3e Eguba usava para ir ao gin\u00e1sio. Vejo no escuro da minha mente a bobine onde o meu pai Pr\u00edncipe via e revia imensas vezes o casamento deles. Era um rom\u00e2ntico. Vejo a escova de fatos que a tia Maraj\u00f3 n\u00e3o abandonava por nada. Tinha de ir impec\u00e1vel para a igreja. Olho tamb\u00e9m para a quantidade de cart\u00f5es que ela guardava na carteira. Pode uma pessoa guardar assim bwe cart\u00f5es? O que me rio agora eu ao olhar para os desenhos rupestres que o meu primo Ibo fazia nas aulas de ingl\u00eas.E Ele gostava mesmo de estudar. Penso nele e s\u00f3 vejo ditados, exerc\u00edcios de matem\u00e1tica, at\u00e9 um incentivo para fazer o curso de engenharia. Como me enternece novamente recordar que a minha prima Boavista andava para frente e para tr\u00e1s com a disquete onde guardava as fotos para o seu book. Ela queria bwe ser modelo.Os sonhos demolidos.Vivo saudades, saudades do meu bairro, saudades da minha gente, saudades do meu pequeno imenso mundo. Luanda n\u00e3o acordes, Luanda tu n\u00e3o venhas.<br \/>Luanda acordou. Luanda pensou, reuniu os mais velhos, sim continuava a ser uma indiscut\u00edvel verdade: \u2013 todos eram seus mais velhos, e falou lhes da import\u00e2ncia de terem uma ilha limpa, sem pl\u00e1stico, o que se fazer para impedir que os destrua. Pelas cagarras, pelas tartarugas,por eles, por mim.<br \/>H\u00e1 n\u00e3o tanto tempo atr\u00e1s assim Luanda se eternizou menina irm\u00e3 das ilhas, gra\u00e7as ao trabalho conjunto de todos habitantes da sua ilha para eliminar o tal pl\u00e1stico homicida e igualmente gra\u00e7as ao som da cassete. A magia da cassete que afinal era o flow e as rimas constru\u00eddas por Benguela. Sonho?Sempre realidade.<\/p><\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-accordion-item\">\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-title-9053\" class=\"elementor-tab-title\" data-tab=\"3\" role=\"button\" aria-controls=\"elementor-tab-content-9053\" aria-expanded=\"false\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon elementor-accordion-icon-left\" aria-hidden=\"true\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-closed\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-plus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H272V64c0-17.67-14.33-32-32-32h-32c-17.67 0-32 14.33-32 32v144H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h144v144c0 17.67 14.33 32 32 32h32c17.67 0 32-14.33 32-32V304h144c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-opened\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-minus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h384c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a class=\"elementor-accordion-title\" tabindex=\"0\">Feliz Anivers\u00e1rio \u2013 Yara Monteiro<\/a>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-content-9053\" class=\"elementor-tab-content elementor-clearfix\" data-tab=\"3\" role=\"region\" aria-labelledby=\"elementor-tab-title-9053\"><p>CONTOS DE LISBOA<br \/>Feliz Anivers\u00e1rio \u2013 Yara Monteiro<\/p><p>Mira Loures, s\u00e1bado, 1 de setembro de 1990<\/p><p>Amiga M\u00e1rcia!<\/p><p>Feliz anivers\u00e1rio!<br \/>Como est\u00e1s?<br \/>Adoraria estar contigo. Irmos a uma farra, dan\u00e7ar at\u00e9 de manh\u00e3.<br \/>No Rio de Janeiro, tens onde kizombar ou ficas-te pelo \u00abp\u00e9 de samba\u00bb? N\u00e3o fa\u00e7as como eu: trabalho, casa; casa, trabalho.<br \/>Saudades da nossa juventude.<br \/>A tua \u00faltima carta encheu-me de alegria e orgulho. Se bem que terminares a licenciatura com distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para mim uma surpresa. Sempre foste inteligente e dedicada. Mereceste e bem a bolsa de estudo. Quando terminares os estudos, pensas regressar a Lisboa?<br \/>Quem sabe um dia, eu recomece a faculdade. Por agora, os meus estudos deixaram de ser prioridade. N\u00e3o sou prioridade.<br \/>A cada m\u00eas, guardo uma ninharia de tost\u00f5es para um amanh\u00e3 dif\u00edcil que se avizinha. Falar-te-ei dele, do amanh\u00e3, daqui a nada; primeiro, contar-te-ei o bel\u00edssimo dia de praia que, hoje, tivemos em fam\u00edlia.<br \/>Fomos \u00e0 praia porque a crian\u00e7a n\u00e3o pode crescer burra. Tem oito anos e ainda n\u00e3o tinha visto o seu mar lusitano.<br \/>Depois do nascimento do Zequinha, sumiu-se-me a coragem e esfarelou-se-me a for\u00e7a para, no meu dia de folga, encarar mais transportes p\u00fablicos, mais filas, mais sacos com comida, mais ladeira, mais do mesmo que tenho durante toda a semana.<br \/>O Zequinha n\u00e3o se acanhou com a \u00e1gua gelada, jogou-se a ela sem hesita\u00e7\u00e3o. O Cal\u00f3 juntou-se a ele, n\u00e3o por vontade pr\u00f3pria, mas porque n\u00e3o podia, em frente ao filho, acobardar-se. Todo ele tremia.<br \/>Tapada com a linda canga de praia que me enviaste, deixe-me estar no areal, a v\u00ea-los brincar. As cores tropicais d\u00e3o-me alento. Obrigada, querida amiga.<br \/>Nisso tens sorte: apesar de estares longe de todos, o frio n\u00e3o te regela os ossos e trava o pensamento.<br \/>Pergunto-me se alguma vez me irei habituar ao frio do mar, do inverno e das pessoas. O vento. Tanto vento. At\u00e9 mesmo na praia. Desespera-me.<br \/>Se nos visses hoje, dirias que o Cal\u00f3 e eu continuamos apaixonados. Entre n\u00f3s, houve at\u00e9 um gentil tocar de l\u00e1bios, um beijo quente que, em mim, aflorou um t\u00e9nue desejo.<br \/>Sa\u00edmos da rotina, est\u00e1vamos despreocupados. Pod\u00edamos fingir estarmos de f\u00e9rias, numa praia paradis\u00edaca, distante da vida severa que nos verga as costas, do cansa\u00e7o di\u00e1rio que nos trouxe a dist\u00e2ncia e levou a paix\u00e3o.<br \/>H\u00e1 quase dois anos que n\u00e3o nos procuramos. A cama tem servido, apenas, para descansar o corpo. Pouco nos vemos e pouco nos falamos. Vamo-nos mantendo pelo Zequinha, o que \u00e9 uma boa raz\u00e3o, uma raz\u00e3o nobre, diria.<br \/>Metade da semana, o Cal\u00f3 n\u00e3o vem dormir a casa. Diz que fica na obra para n\u00e3o ter de acordar t\u00e3o cedo. \u00c9 menos cansativo. Finjo desconhecer quem s\u00e3o os vizinhos que com ele trabalham na obra mas todas as noites regressam ao bairro. V\u00eam a casa marcar o ponto e dormir com as mulheres. Fecho os olhos e tapo o nariz para n\u00e3o sentir o perfume de mulher nas suas t-shirts interiores. O Cal\u00f3 devia lavar a roupa onde suja a minha honra.<br \/>Enfim. Tolero.<br \/>Por enquanto, c\u00e1 em casa, ainda n\u00e3o faltou com dinheiro. Assim que recebe vai de imediato pagar a conta da mercearia. Minha amiga, homem n\u00e3o \u00e9 de se fiar, e o \u00abamanh\u00e3 dif\u00edcil que se avizinha\u00bb pode bem chegar como uma forte rajada de vento. Por isso o pouco dinheiro que sobra n\u00e3o pode ir para propinas de estudante.<br \/>Tu como andas de namoros? Ainda com o taxista ou j\u00e1 o despachaste?<br \/>Espero que gostes do vestido que te envio, fui eu que o fiz. \u00abDesigned by Aurora\u00bb, quem sabe um dia! Por ora, \u00e9 mais um sonho que fica na gaveta. Junto aos outros. Todos carcomidos pelas tra\u00e7as deste meu quotidiano.<br \/>\u00abComo nuvens pelo c\u00e9u\/Passam os sonhos por mim\u00bb, escreveu o poeta.<br \/>A minha vida ir\u00e1 melhorar. Tenho a certeza. Foi s\u00f3 um desabafo.<br \/>N\u00e3o sei se j\u00e1 sabes, mas a Viviane regressou a Luanda. Aguentou aqui um ano. Diz-me que, para acordar \u00e0s quatro da manh\u00e3, passar frio, limpar a porcaria dos outros e ser mal paga, prefere voltar para a poeira. Parece que tem uma ideia genial para um neg\u00f3cio.<br \/>D\u00e1 not\u00edcias.<\/p><p>Um forte abra\u00e7o desta tua amiga que muito te estima,<br \/>Aurora Oliveira<\/p><p>P. S.: Esperava escrever-te esta carta com maior anteced\u00eancia. Desculpa-me. Sei que sim, que estou por ti desculpada. N\u00e3o tive vagar para o fazer antes.<\/p><p>Mira Loures, domingo, 22 de Agosto de 1993<\/p><p>Querida mana,<\/p><p>Daqui a quinze dias, celebrar\u00e1s o teu anivers\u00e1rio.<br \/>Junto a esta carta, segue um outro envelope. Abre-o, apenas, depois de apagares as tuas cinquenta e cinco velas.<br \/>Decantei a saudade para que n\u00e3o chore a escrever-te estas palavras. O teu colo de irm\u00e3 mais velha faz-me muita falta. Quando os nossos pais se foram, tomaste o seu lugar. Eras t\u00e3o nova. Tanto do que abdicaste por mim e pelo L\u00e9u. Que nunca te tragamos tristezas.<br \/>Como tens passado? A perna est\u00e1 melhor?<br \/>Esta carta, os medicamentos e os cremes que pediste seguem com a Paula hospedeira, amiga da minha vizinha do lado, a dona Bia. A Paula \u00e9 porreira. Disponibilizou-se logo para, sempre que necess\u00e1rio, passar a levantar a medica\u00e7\u00e3o. Em conversa, descobrimos que \u00e9 prima do alfaiate Pereira, o que trabalhava na Casa York. O mundo \u00e9 mesmo pequeno.<br \/>Sei-te apoquentada com a minha separa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 porque estares assim. O Cal\u00f3 e eu and\u00e1vamo-nos a arrastar. Karlene, minha irm\u00e3, chegou a um ponto que j\u00e1 n\u00e3o dava mais.<br \/>Tolerava as desculpas para dormir fora de casa. Verdade seja dita, que a mim tanto me dava. Os problemas reais come\u00e7aram quando os \u00absupostos\u00bb atrasos de pagamento do sal\u00e1rio semanal passaram a ser recorrentes. Escrevi \u00absupostos\u00bb porque vim a descobrir que era dinheiro que gastava na farra e a comprar material para remodelar a casa da s\u00e3o-tomense que amantizou.<br \/>Isso n\u00e3o lhe podia admitir: tirar do conforto do nosso filho. Viv\u00edamos aqui \u201c\u00f3 tio, \u00f3 tio\u201d, porque n\u00e3o havia dinheiro para remendar o telhado e a canaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>J\u00e1 era piada no bairro. Ao passar, calavam-se, para depois, atr\u00e1s de mim, recome\u00e7arem a cochichar.<br \/>Quem me abriu os olhos foi a dona Bia. \u00c9 gente s\u00e9ria, devota a Deus. Alertou-me.<br \/>Fui, literalmente, apanhar o Cal\u00f3 com a m\u00e3o na massa (de cimento) na casa da outra.<br \/>J\u00e1 n\u00e3o o deixei regressar. Foi o melhor que fiz: p\u00f4-lo na rua.<br \/>Se ele, agora, se queixa aos seus parentes na banda, minha irm\u00e3 responde s\u00f3: \u00abTivesse ju\u00edzo.\u00bb<br \/>Dando cr\u00e9dito a quem a ele tem direito: at\u00e9 agora, o Cal\u00f3 continua a ser um bom pai. Aos domingos, leva o Zequinha a passear e ajuda nas despesas. Ainda no outro dia, comprou um par de t\u00e9nis pretos para o filho. N\u00e3o \u00e9 como tantos outros pais que desaparecem.<br \/>O mi\u00fado sente a sua falta. \u00c9 normal. Ser\u00e1 assim at\u00e9 que se habitue \u00e0 aus\u00eancia do pai. Habituamo-nos a tudo.<br \/>Agora dorme comigo e, \u00e0 noite, n\u00e3o larga o macaco rosa que o pai lhe ofereceu. Eu tento compensar no que posso: dando mais amor e passando todo o tempo livre que consigo com ele. O teu sobrinho \u00e9 um \u00f3timo menino. Na escola, continua a tirar boas notas e prefere os livros \u00e0s ruas do bairro.<br \/>A semana passada, o Cal\u00f3 disse-me estar a considerar ir trabalhar para a Holanda. Muitos trabalhadores das obras t\u00eam para l\u00e1 emigrado. Parece que a vida, por l\u00e1, corre melhor do que aqui. Ganham bem mais, t\u00eam contrato de trabalho e conseguem ter os pap\u00e9is em dia.<br \/>Para dizer a verdade, senti que me pedia opini\u00e3o ou mesmo autoriza\u00e7\u00e3o, pois deixou-se estar em sil\u00eancio, com o olhar preso ao ch\u00e3o. Pedi-lhe que n\u00e3o se esquecesse do filho. N\u00e3o me competia opinar mais sobre a sua vida. Em seguida, p\u00f4s-se a falar sem parar.<br \/>Querida irm\u00e3, comigo e com o Zequinha, n\u00e3o tens com o que te preocupar. \u00c9 como sempre disseste: \u00abEm casa de mulher pobre n\u00e3o se passa fome, nem se vive na merda.\u00bb Bons h\u00e1bitos, os que nos transmitistes. Dou sempre um jeito.<br \/>A dona Bia tem sido de grande ajuda. Sempre que preciso trabalhar horas extras, fica com o Zequinha.<br \/>Os vizinhos do bairro s\u00e3o a fam\u00edlia que tenho aqui. Desde que estou sozinha, muito me t\u00eam apoiado. A minha patroa, tamb\u00e9m. N\u00e3o h\u00e1 sexta-feira que n\u00e3o me avie com \u00abmimos para o seu menino\u00bb e rezas aos c\u00e9us. Coloca tanta coisa dentro da minha carteira que, j\u00e1 por duas vezes, as al\u00e7as rebentaram. \u00c9 uma carteira grande, d\u00e1-me muito jeito. J\u00e1 n\u00e3o aguentava andar com sacos e saquinhos. Por pouco n\u00e3o a estraguei completamente. Cometi o erro de a limpar com lix\u00edvia, e o couro, que era branco, amarelou.<br \/>Devagar, devagarinho, planeio come\u00e7ar a melhorar a nossa casa. Fui aumentada. A custo, que a filha da dona Isabel \u00e9 sovina, n\u00e3o sendo ela quem me paga o ordenado.<br \/>N\u00e3o te preocupes connosco. Estamos bem. Podemos sonhar. N\u00e3o temos muita coisa, mas n\u00e3o nos falta sa\u00fade, e \u00e9 nossa a melhor vista sobre Loures. Um horizonte sem fim, com colinas verdejantes. Aqui e ali, terrenos cheios de \u00e1rvores de frutos e urbaniza\u00e7\u00f5es a salpicarem a terra.<br \/>Em breve, terei duas terras\u2026<br \/>O advogado acha que, no m\u00e1ximo at\u00e9 ao final do ano, terei a nacionalidade portuguesa. Depois, com a mesma certid\u00e3o de nascimento do bisav\u00f4 Oliveira, podemos come\u00e7ar a tratar da tua nacionalidade e da do L\u00e9u. O Zequinha, apesar de aqui ter nascido, n\u00e3o \u00e9 portugu\u00eas. O Dr. On\u00e9simo explicou-me ser o sangue mais forte que o solo, e que o melhor mesmo \u00e9 quando ambos se misturam na na\u00e7\u00e3o. Disse-lhe que, dentro de Portugal, existe uma \u00c1frica, existem negros portugueses.<br \/>Senti-me embara\u00e7ada, achei que n\u00e3o devia ter feito aquela afirma\u00e7\u00e3o.<br \/>Sem ar de censura, perguntou-me se estaria dispon\u00edvel para trabalhar como rececionista ou secret\u00e1ria. Havia reparado na qualidade das minhas cartas a ele dirigidas. Perguntou-me o que tinha estudado. Surpreendeu-se por eu ter um semestre completo de Direito.<br \/>Aguardo, mas sem ilus\u00f5es.<br \/>O mano L\u00e9u escreveu-me. Pergunta-me se o Fidel pode vir e ficar comigo. \u00c9 \u00f3bvio que a porta da minha casa est\u00e1 aberta ao meu sobrinho. Estando ele em Angola, mais dia, menos dia, ser\u00e1 recrutado para as For\u00e7as Armadas. \u00c9 melhor que venha o quanto antes. Sen\u00e3o depois n\u00e3o consegue sair do pa\u00eds. O que achas? Se concordares, avancem j\u00e1 com os preparativos, mas avisa o L\u00e9u que deve enviar um dinheiro. Aqui, eu darei um jeito com tudo o resto.<br \/>Falando ainda da nossa terra\u2026<br \/>Cont\u00e1vamos todos com a paz. Por quantos anos mais os chefes ir\u00e3o continuar \u00e0s turras? Estive com a irm\u00e3 da dona Alberta da Vila Alice. Contou-me que perdeu a pouca fam\u00edlia que tinha no Huambo. Os que haviam sobrevivido \u00e0 Guerra dos 55 dias n\u00e3o resistiram \u00e0 caminhada at\u00e9 Benguela. Um horror.<br \/>Por isso, n\u00e3o te preocupes, minha irm\u00e3. Aqui estamos melhor.<br \/>O p\u00e9 de abacate pegou muito bem. Plantei-o perto da figueira e protegido do vento.<br \/>Vais adorar a surpresa que o Zequinha e eu te enviamos.<br \/>Lembra-te de que te amo muito e est\u00e1s sempre comigo no meu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>Aguardo not\u00edcias.<\/p><p>Um abra\u00e7o apertado, que te rodeie com o nosso amor.<br \/>Aurora<\/p><p>Lisboa, sexta-feira, 26 de setembro de 1997<\/p><p>Camba Viviane!<\/p><p>Feliz anivers\u00e1rio.<br \/>Os parab\u00e9ns seguem atrasados, mas tenho a certeza de que ser\u00e3o recebidos com alegria.<br \/>Como est\u00e1s? As filhotas? Os neg\u00f3cios? S\u00e3o muitas perguntas, eu sei. A culpa \u00e9 tua, que nunca mais deste not\u00edcias. Agora \u00e9s V.I.P.<br \/>A vida floresce. Com alguns espinhos, mas poucos.<br \/>Vamos \u00e0s novidades:<br \/>Comecei a trabalhar num escrit\u00f3rio de advogados, como rececionista. N\u00e3o que tenha abandonado a dona Isabel. Foi sempre t\u00e3o boa para mim. Um drama quando lhe disse que ia parar de fazer limpezas.<br \/>L\u00e1 me convenceu a fazer umas horas tr\u00eas vezes por semana. O dinheiro extra tamb\u00e9m ajuda.<br \/>A tua ex-patroa continua insuport\u00e1vel. Ainda hoje, n\u00e3o entendo como o ventre da dona Isabel gerou aquele diabinho.<br \/>Depois destes anos todos, finge n\u00e3o saber o meu nome. Se n\u00e3o fosse pelo dinheiro e pela velha, j\u00e1 tinha deixado aquela casa. Continua a referir-se a mim como \u00aba coisa\u00bb. Oi\u00e7o-a enquanto fala com a dona Isabel, que lhe responde \u00e0 altura: \u00abA coisa tem nome. Chama-se Aurora. Repita: Aurora. Grande coisa \u00e9 que voc\u00ea me saiu.\u00bb<br \/>A pedante ainda atreve-se a responder alto para que eu a oi\u00e7a: \u00ab\u00d3 m\u00e3e! Elas parecem-me todas iguais.\u00bb<br \/>Recuso-me a mostrar-lhe os dentes. Apetece-me responder-lhe, mas calo o bico. Quem precisa cala.<br \/>No outro dia, foi muito engra\u00e7ado. A filha l\u00e1 a conseguiu convencer a desfazer-se das rendas, das revistas e outras tralhas que est\u00e3o no quartinho. Estive quase um s\u00e1bado inteiro para cima e para baixo a carregar sacos para o lixo, e a dona Isabel sempre pendurada \u00e0 janela. Perguntei-lhe a raz\u00e3o, ao que me respondeu: \u00abEst\u00e1s a esvaziar-me a casa. N\u00e3o quero que a vizinhan\u00e7a pense que eu morri.\u00bb<\/p><p>Estou com namorado. O Caetano \u00e9 mais novo. N\u00e3o me perguntes a diferen\u00e7a de idades, porque n\u00e3o digo. Aconteceu sem que previsse. Ele \u00e9 daqui do bairro e, quando andava \u00e0 procura de algu\u00e9m para remodelar a casa ele foi-me recomendado pela dona Bia.<br \/>\u00c9 bastante habilidoso com as m\u00e3os. Quando vir\u00e1s a Portugal?<br \/>N\u00e3o reconhecer\u00e1s a minha casa. O Caetano, substituiu o oleado castanho que tapava o ch\u00e3o, por tijoleira branca. A cozinha agora est\u00e1 forrada com elegantes azulejos brancos e azuis. A canaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 nova e o telhado est\u00e1 arranjado. Fez tudo com as sobras de material de uma obra em que trabalhava em Sintra. Um luxo.<br \/>Da primeira vez que o Caetano foi l\u00e1 a casa tirar as medidas, demorou-se desnecessariamente. Ia tirando as medidas, tamb\u00e9m a mim, confessou mais tarde. Ele \u00e9 muito divertido. Leva-me v\u00e1rias vezes a dan\u00e7ar a Lisboa, prepara o melhor mufete que j\u00e1 comi e conhece muitas can\u00e7\u00f5es bonitas.<br \/>O Zequinha desconhece a nossa rela\u00e7\u00e3o sentimental. Acha que \u00e9 apenas um amigo da m\u00e3e. \u00c9 melhor continuar assim at\u00e9 ter algumas certezas mais e, qui\u00e7\u00e1 se o caso se tornar s\u00e9rio, envolvo o Zequinha. Por agora \u00e9 namorico.<\/p><p>Olhando para tr\u00e1s, sou obrigada a reconhecer o quanto falhei no casamento com o Cal\u00f3. Toda a situa\u00e7\u00e3o retirou-me vigor. Andava exausta, ao espelho n\u00e3o reconhecia aquela mulher de len\u00e7o na cabe\u00e7a, olhar vazio e l\u00e1bios secos. N\u00e3o era eu mesma.<br \/>Tudo me incomodava. At\u00e9 o vento. O vento parecia n\u00e3o parar de assobiar. Seguia-me de dia e de noite, mesmo quando dormia sonhava com ele.<br \/>Fiz tantos sacrif\u00edcios. Vivia num teatro de sombras. Sa\u00eda de casa para ir trabalhar com as luzes dos candeeiros das ruas ainda acesas. As portas das casas, uma a uma a abrirem-se e a fecharem-se, e n\u00f3s a arrastarmos os p\u00e9s e o pouco de vida, ladeira a baixo, at\u00e9 \u00e0 paragem do autocarro, com os sacos nas m\u00e3os e os olhos semicerrados. Sem deles precisarmos, porque as pernas j\u00e1 conheciam o nosso caminho e os gatos tamb\u00e9m. Eramos tantas e t\u00e3o sozinhas. Ali, a aguardar o autocarro vazio, que se encheria paragem a paragem de gente como n\u00f3s.<br \/>Aka!<br \/>Gra\u00e7as a Deus que j\u00e1 passou.<br \/>At\u00e9 um carrito j\u00e1 consegui comprar.<br \/>A minha preocupa\u00e7\u00e3o agora \u00e9 o Fidel. Meu sobrinho, filho do meu irm\u00e3o L\u00e9u.<br \/>Est\u00e1 c\u00e1 h\u00e1 dois anos, ilegal, e tudo o que consegue s\u00e3o trabalhos prec\u00e1rios.<br \/>Passa o tempo todo nas ruas do bairro. Dia e noite. Ele e os outros mi\u00fados est\u00e3o num ciclo vicioso de onde n\u00e3o conseguem sair. N\u00e3o trabalham porque n\u00e3o t\u00eam pap\u00e9is e n\u00e3o t\u00eam pap\u00e9is porque n\u00e3o lhes d\u00e3o um contrato de trabalho. Depois, como sempre, disse a dona Isabel: \u00abA vossa cor n\u00e3o ajuda.\u00bb Fazer mais o qu\u00ea, ent\u00e3o?<br \/>A nossa rela\u00e7\u00e3o a cada dia que passa deteriora-se. N\u00e3o sou sua m\u00e3e, mas sou tia e ele vive na minha casa.<br \/>O Fidel n\u00e3o respeita regras b\u00e1sicas. Como n\u00e3o lhe custa a ganhar n\u00e3o lhe custa a gastar. No Ver\u00e3o dorme com a ventoinha ligada e tem por h\u00e1bito deixar as luzes acesas, mesmo n\u00e3o estando em casa. N\u00e3o adianta eu at\u00e9 j\u00e1 ter colocado um papel colado ao interruptor para que ele apague a luz antes de sair de casa. O que mais me irrita \u00e9 entrar em casa com os chinelos com que anda na rua. Enfim, habituado a caxicos.<\/p><p>Um beijo muito grande desta tua amiga,<br \/>Aurora.<\/p><p>P. S.: A Ti Olga do Rossio, aquela onde \u00edamos comprar cola e gengibre, envia-te cumprimentos. Est\u00e1 cada vez mais gorda.<\/p><p>De: Aurora Oliveira &lt;auroraoli@sapo.pt&gt;<br \/>Assunto: RE: Fidel<br \/>Para: L\u00e9u &lt;leonardooliveira@gmail.com&gt;<br \/>Data: 23 setembro 2001 10:45:29 GMT<\/p><p>Querido irm\u00e3o,<\/p><p>Espero que tenhas tido um feliz anivers\u00e1rio.<br \/>Volto-te a reencaminhar o meu email (v\u00ea abaixo) porque, n\u00e3o tendo recebido resposta tua, nada me garante que o tenhas visto.<br \/>Por aqui, vamos andado. Como se consegue, Deus quer e a vida permite.<br \/>Irei escrev\u00ea-lo sem rodeios, porque uma resolu\u00e7\u00e3o urgente se exige: o teu filho ou ir\u00e1 preso ou aparecer\u00e1 morto.<br \/>N\u00e3o quero essa responsabilidade.<br \/>Ontem, a pol\u00edcia veio bater-me \u00e0 porta. Andavam \u00e0 procura do Fidel. Acompanhei-o \u00e0 esquadra.<br \/>N\u00e3o me parece que ande metido em esquemas il\u00edcitos, mas \u00e9 certo que sabe o suficiente para arranjar problemas.<br \/>O bairro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que era. Veio para c\u00e1 muita gente nova. Ultimamente, at\u00e9 sai tiroteio e a pol\u00edcia anda sempre por c\u00e1. Para teres uma ideia, ando com tanto medo que, para nossa seguran\u00e7a, tenho sempre os estores fechados.<br \/>H\u00e1 boatos de que o novo presidente da c\u00e2mara ir\u00e1 come\u00e7ar a demoli\u00e7\u00e3o do bairro e entregar-nos casa. N\u00e3o vou esperar. Sei que estas coisas demoram tempo. J\u00e1 estou efetiva e vou entrar com um pedido de empr\u00e9stimo habita\u00e7\u00e3o. A casa do bairro posso sempre alugar.<br \/>Tudo demora o seu tempo. At\u00e9 l\u00e1, sugiro que encontres uma solu\u00e7\u00e3o para o teu filho. O Fidel n\u00e3o pode continuar aqui no bairro.<br \/>Pede ao Cal\u00f3 que receba o afilhado em Roterd\u00e3o. Ser\u00e1 por um per\u00edodo limitado.<br \/>\u00c9 o melhor para todos.<br \/>Aguardo not\u00edcias.<\/p><p>Um beijo grande da mana,<br \/>Aurora<\/p><p>De: Aurora Oliveira &lt;auroraoli@sapo.pt&gt;<br \/>Assunto: Feliz anivers\u00e1rio<br \/>Para: M\u00e1rcia &lt;marcia01tavares@gmail.com&gt;<br \/>Date: 1 setembro 2002<\/p><p>Ol\u00e1, Doutora!<\/p><p>Feliz anivers\u00e1rio.<br \/>Votos de muita sa\u00fade, paz e alegria.<br \/>Li a tua tese de doutoramento e est\u00e1s de parab\u00e9ns.<br \/>Tenho uma not\u00edcia que te ir\u00e1 deixar feliz: este m\u00eas, recome\u00e7o o meu curso de Direito.<br \/>Na quinta-feira, estive na secretaria da faculdade, a finalizar a papelada. Quando sa\u00ed, come\u00e7ou a chover torrencialmente. Com o vento, o chap\u00e9u-de-chuva revirou-se e fiquei toda molhada.<br \/>Pensei, imediatamente, ser aquele um mau press\u00e1gio. Parei, por um segundo, nas escadas. Deixei-me a sentir o frio, o vento e a chuva. A todos eles me tinha habituado e tamb\u00e9m \u00e0 felicidade.<\/p><p>Beijinhos,<br \/>Aurora<\/p><\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-accordion-item\">\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-title-9054\" class=\"elementor-tab-title\" data-tab=\"4\" role=\"button\" aria-controls=\"elementor-tab-content-9054\" aria-expanded=\"false\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon elementor-accordion-icon-left\" aria-hidden=\"true\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-closed\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-plus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H272V64c0-17.67-14.33-32-32-32h-32c-17.67 0-32 14.33-32 32v144H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h144v144c0 17.67 14.33 32 32 32h32c17.67 0 32-14.33 32-32V304h144c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-opened\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-minus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h384c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a class=\"elementor-accordion-title\" tabindex=\"0\">Zugzwang<\/a>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-content-9054\" class=\"elementor-tab-content elementor-clearfix\" data-tab=\"4\" role=\"region\" aria-labelledby=\"elementor-tab-title-9054\"><p>Como de costume, Ndunduma marcou o nosso encontro no cal\u00e7ad\u00e3o da Costa da Caparica, entre a praia do C-D-S e a praia do Marcelino tamb\u00e9m conhecida como a praia da Bola de N\u00edvea, junto ao concorrido Caf\u00e9 do Mar, ponto de encontro para surfistas e outros ca\u00e7adores de ondas de toda esp\u00e9cie vindos dos quatro cantos da regi\u00e3o da grande Lisboa. Eu, pontual como sempre e vindo da margem norte, cheguei mais cedo. Pousei a mala entre as minhas pernas e de costas voltadas para o mar esperei que ele aparecesse.<\/p><p>N\u00e3o demorou! Roupas largas, Nike Air Force 1 imaculadamente brancos nos p\u00e9s, dreadlocks atados e ca\u00eddos at\u00e9 meio das costas, qual rapper orgulhoso por se identificar e o reconhecerem como tal. Vi-o ao longe, a atravessar\u00a0 sem pressa o parque de estacionamento em frente daquele que j\u00e1 foi o Bairro da Mata, um ajuntamento de casas de constru\u00e7\u00e3o improvisada e algumas dezenas de barracas que mal resistiam \u00e0s rajadas de vento que assolavam a Costa quando o Inverno se apresentava mais rigoroso.<\/p><p>De onde venho, condi\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas como um leito de cheias que durante o tempo que vivi em Mira Loures nunca amea\u00e7ou alagar ao ponto de temermos nascer ali um estu\u00e1rio,\u00a0 atra\u00edram os mesmos bulldozers que a press\u00e3o tur\u00edstica chamar\u00e1 anos antes para arrasar o que existia do bairro da Mata em que Ndunduma se mudar\u00e1 quando chegamos os dois a Portugal. Muitos dos moradores, ao contr\u00e1rio dos meus antigos vizinhos, principalmente os que se fixaram ali a mais de quatro d\u00e9cadas, deixar o topo daquele morro que de bonito s\u00f3 tinha mesmo o horizonte, a ampla vista sobre Loures, a vertical e vasta selva de pedra que \u00e9 a cidade de Santo Ant\u00f3nio dos Cavaleiros e toda a v\u00e1rzea agr\u00edcola cortada por auto estradas, era o que poder\u00edamos chamar duma trag\u00e9dia.<\/p><p>J\u00e1 os antigos caparinquenses, apesar de terem sido despejados e realojados em paralepipedos de bet\u00e3o nos arredores do Feij\u00f3, reconheciam encolhendo os ombros, que a Costa est\u00e1 melhor comparativamente \u00e0 \u00e9poca em que aqui viviam. \u201cEst\u00e1 um bonito gr\u00e3o de Miami\u201d \u2013 confessaram-me, quando se cruzavam comigo a caminho do mar da Costa ou nas avenidas do Centro Comercial do Colombo. Curiosamente, ainda identifico-lhes no passo demorado todo um gingado sincopado, inclinado ligeiramente para estibordo, de quem j\u00e1 viveu junto ao mar. Pergunto-me se tamb\u00e9m reconhecem em mim o mesmo gingado, j\u00e1 que tive a Praia Morena como uma extens\u00e3o do p\u00e1tio da escola e passei praticamente toda a inf\u00e2ncia com os tornozelos enfiados\u00a0 no mar de Ombaka.<\/p><p>E foi com essa ginga que ele subiu ao cal\u00e7ad\u00e3o, dirigindo-se em minha dire\u00e7\u00e3o e trazendo um tabuleiro de xadrez debaixo do bra\u00e7o, como era rotina aos Domingos desde que chegamos de Benguela e manteve, mesmo vivendo agora fora da Costa. Se n\u00e3o o conhecesse diria que aquele volume que trazia continha cartas mar\u00edtimas, porque olhava para o atl\u00e2ntico com a serenidade de um navegador, com o respeito de um advers\u00e1rio e a cumplicidade de um amante; diria at\u00e9 que tinha o olhar dos velhos pescadores da Ba\u00eda Farta, quando se quedavam junto \u00e0 \u00e1gua e \u00e0s nuvens antes de zarparem para dentro do azul cobalto do golfo de Benguela. E n\u00e3o obstante, nunca o vi mergulhar no mar da Caparica. Diria at\u00e9 que nunca chegou a aprender a nadar.<\/p><p>Sentou-se no mesmo banco de sempre, abriu o nosso tabuleiro de xadrez que viajou conosco desde Benguela, arrumou as pe\u00e7as apressadamente e, n\u00e3o fora o facto de eu estar ali, deixar-se-ia ficar a observar as pessoas na praia, entregues \u00e0s atividades costumeiras de quem tem a areia e o sol e todo o mar. Come\u00e7ou pelas pe\u00e7as brancas, e antes de passar para as pretas, disse-lhe. \u201cEsta noite regresso para Angola\u201d Ele olhou para mim e para a mala que tinha entre as pernas. Deve ter se perguntado porque que n\u00e3o o avisei e quando come\u00e7ou a enfileirar os pe\u00f5es pretos quebrou o sil\u00eancio com a quest\u00e3o que sabia que lhe era mais importante. \u201cOnde arranjaste o dinheiro?\u201d. Respondi-lhe que me havia sido emprestado quando na verdade, roubei-o, aproveitei um momento de distra\u00e7\u00e3o quando a evacua\u00e7\u00e3o coletiva se iniciara em Mira Loures e por ser fim do m\u00eas, sabia que o tio Sikas, meu vizinho, estaria cachudo.<\/p><p>Sikas era gajo fixe, n\u00e3o era parente de ningu\u00e9m que eu conhecesse mais todos o chamavam de tio porque quando pegava empreitadas grande, nos dava o toque para fazer uns biscates de pintura, sempre que essas fezadas surgissem, chama o Ndunduma para fazer um kumbu sujo, at\u00e9 que as rimas passagem a dar lucro. Desde que come\u00e7ou a levar a coisa mais a s\u00e9rio j\u00e1 l\u00e1 vai uma d\u00e9cada, nunca grandes quantias a circularem nos bolsos fundos das suas baggy jeans. E n\u00e3o por falta de talento, m\u00fasica n\u00e3o d\u00e1 dinheiro e ele pr\u00f3prio sabe, tanto que para segurar as pontas, ele n\u00e3o se importava de me ajudar a paiar na Costa em troca de uma percentagem, uns sabonetes de chamon que comprava em Santo Ant\u00f3nio dos Cavaleiros.<\/p><p>As pessoas que passam intrigadas com aquele quadro (um rapper, preto, sentado junto a um tabuleiro de xadrez aberto, numa praia), perguntavam se sabia jogar, ao que ele respondia sempre afirmativamente, com um sorriso. Esse gesto faz com que o transeunte se sinta convidado e se sente, desafiando-o para uma partida. Passei longas tardes naquele cal\u00e7ad\u00e3o, a v\u00ea-lo jogar como se lhe tivesse baixado o esp\u00edrito do mestre cubano Jos\u00e9 Ra\u00fal Capablanca, com algumas dezenas de turistas que passaram pela vila durante aquele m\u00eas de Agosto. Ningu\u00e9m o conseguia bater; tal como eu, todas as pessoas que o desafiaram perderam repetidamente e de forma um tanto ou quanto humilhante. Ndunduma n\u00e3o gostava de praia, mas estar de frente ao mar, era o mais pr\u00f3ximo que poder\u00edamos estar de Benguela e o lucro que faz\u00edamos com chamon, basicamente servia para refei\u00e7\u00f5es, transporte e vestir. Nenhum de n\u00f3s tinha a disciplina para movimentar droga suficiente para pagar o nosso regresso para angola.<\/p><p>A \u00faltima vez que vi Ndunduma na \u00e1gua, foi no tanque reservat\u00f3rio que t\u00ednhamos no quintal para cobrir as falhas de abastecimento quando havia as sabotagens na barragem do Bi\u00f3pio no tempo da guerra civil. Ndunduma e eu, encontramo-nos todos os dias no muro do quintal de minha casa, na esquina entre a Rua\u00a0 Pedro Nolasco Pereira de Andrade e a Avenida Aires de Almeida Santos, o kota que escreveu o Meu Amor da Rua Onze, o primeiro poema que memorizei na ponta da l\u00edngua. Cham\u00e1vamos a\u00a0\u00a0aquele cruzamento, a nossa esquina e a raz\u00e3o pela qual a declaramos nossa rep\u00fablica, prendia-se com o facto de, durante todo o dia, cair ali a sombra de uma ac\u00e1cia majestosa, transformando aquele lugar no mais fresco da nossa rua e o \u00fanico onde, sem muito esfor\u00e7o, se podia cheirar ou sonhar-cheirar as ondas da Praia Morena.<\/p><p>O epis\u00f3dio do tanque est\u00e1 ainda presente, porque no cacimbo anterior a aquela data, n\u00e3o arredamos p\u00e9 da nossa esquina, disputando ali mesmo naquela cal\u00e7ada, intensos campeonatos de futebol de caricas, impulsionados pela vit\u00f3ria da Argentina de Maradona no Mundial-M\u00e9xico-86. E um ano depois, estaria a passar as tardes a rondar o port\u00e3o da Kalila, a dona do meu primeiro beijo que me inspirou a memorizar o Meu amor da Rua Onze e outros versos da antologia Poemas Angolanos que juntamente com os vinis que trouxe de Angola, me salvaram de morrer de saudade nas noites frias e agonizantes no alto do morro sobre o Talude Militar a que denominavam de Bairro Mira Loures.<\/p><p>N\u00e3o sei de quem ter\u00e1 sido a ideia, mas a falta de interesse para o jogo de caricas e bolas de gude naquele ano, fez com que rum\u00e1ssemos \u00e0s instala\u00e7\u00f5es desportivas do 1.\u00ba de Maio, com a inten\u00e7\u00e3o de nos inscrevermos no voleibol, no futebol de sal\u00e3o, no karat\u00e9 ou, na \u00faltima das hip\u00f3teses, na gin\u00e1stica que tinha o acr\u00e9scimo de ser frequentado pelas melhores mboas da cidade foi l\u00e1 que vi a Kalila pela primeira vez. Corpo \u00e1gil, olhos amendoados e um sorriso que revelava dentes e gengivas numa combina\u00e7\u00e3o tron\u00e7ante que nos deixa desarmados. Ela tinha os seios maiores que as mi\u00fadas da idade dela, que chamavam a aten\u00e7\u00e3o dos rapazes do \u00faltimo ano, que j\u00e1 fumavam e iam para as aulas s\u00f3 com um caderno e uma esferogr\u00e1fica ao contr\u00e1rio de n\u00f3s que carregavam mochilas que pesavam o mesmo que 5 quilos de fuba. Quando ela passava, Ndunduma nunca assoviou e eu t\u00e3o pouco mas sempre que passava pela nossa esquina curvava o pesco\u00e7o do mesmo jeito para lhe tirar as medidas. N\u00e3o foram poucas as vezes que ela me visitou nos sonhos, fazendo-me acordar com pau duro. At\u00e9 hoje, quando preciso de varrer um pungo r\u00e1pido, basta-me fechar os olhos e imaginar aqueles seios.<\/p><p>Ndunduma e eu, passamos aquela\u00a0tarde no 1\u00ba de Maio\u00a0a assistir a uma aula de cada modalidade, mas nenhuma nos convenceu; eram demasiado organizadas para o nosso gosto. Divert\u00edamo-nos mais com as nossas peladas de bola de saco na rua ou a fazer corridas de de pneu em volta do quarteir\u00e3o, ou\u00a0 a jogar basquetebol em tabelas improvisadas quando um dos vizinhos com parentes em Portugal, aparecia com uma spalding novinha, at\u00e9 esta ser roubada e voltarmos as nossas bolas de saco. Decepcionados por n\u00e3o encontrarmos nenhuma actividade desportiva excitante, decidimos voltar para a nossa esquina, a fim de n\u00e3o perdermos as quitandeiras, que, no final da tarde vinda da esta\u00e7\u00e3o de comboios, passariam por n\u00f3s carregadas de cana de a\u00e7\u00facar, a caminho do Mercado da Caponte. Por\u00e9m, j\u00e1 na sa\u00edda do 1.\u00ba de Maio, avistamos uma sala que, quase vazia e a meia luz, exibia nas suas mesas enfileiradas dezenas de tabuleiros. Nunca t\u00ednhamos visto tantos tabuleiros juntos e a solenidade do conjunto agu\u00e7ou a nossa curiosidade; que jogo era aquele, cujo tabuleiro lembrava o que era usada no joga de damas mas cuja forma e ordem das pe\u00e7as eram diferentes? O instrutor convidou-nos a entrar e a aprender as regras do jogo. Ao fim de algumas horas e com a promessa de que regressariamos, foi-nos autorizado levar um tabuleiro conosco.<\/p><p>N\u00e3o demorou para que a nossa esquina se travassem torneios com a intensidade de um Karpov vs Kasparov com direito a claque a apostas,\u00a0 contagiando quase todos os que por n\u00f3s passavam. Foi assim que Kalila, num daqueles dias, atra\u00edda pela multid\u00e3o que se juntar\u00e1 a volta do nosso tabuleiro decidiu ficar e ver-me jogar. N\u00e3o queria que me visse perder mas n\u00e3o queria deixar passar a oportunidade de lhe dirigir palavra. E quando Ndunduma que na altura estava longe de ser a vers\u00e3o angolana do Capablanca disse \u201cXeque mate\u201d suspirei de al\u00edvio. Perdi aquele jogo mas ganhei um encontro para o dia seguinte no port\u00e3o da casa dela, na hora da novela, quando toda popula\u00e7\u00e3o adulta da cidade teria os olhos postos no ecr\u00e3 para assistirem mais um epis\u00f3dio do Cambalacho.<\/p><p>Enquanto Ndunduma, na qualidade de guardi\u00e3o do nosso taboleiro, dormia com rainhas e cavalos negros, para ele as pe\u00e7as favoritas do jogo ao ponto de um dos cavalos ter desaparecido sem deixar rasto. Em substitui\u00e7\u00e3o colocamos um soldado de chumbo. Meu interesse no jogo, passou para segundo plano, estava mais focado em\u00a0aperfei\u00e7oar o meu dikelengo na tentativa de dominar a arte do chacho para as minhas\u00a0 investidas noturnas ao port\u00e3o da Kalila. Ela ouvi-me sempre muito atentamente, sorrindo quando uma frase, demasiado adulta para a minha idade soava como se n\u00e3o pertencesse a minha boca. As minhas m\u00e3os ficam suadas s\u00f3 de pensar na quantidade de linhas foleiras que lhe disse. Mas na altura aqueles sorrisos n\u00e3o me pareciam pedidos para parar, muito pelo contr\u00e1rio, me davam mais corda e coragem para primeiro buscar os l\u00e1bios dela e ao fim de algumas semanas, quando, Nan\u00e1 o personagem interpretada por Fernanda Montenegro corria para p\u00f4r a m\u00e3o no ursinho de pel\u00facia que escondia a corrente de ouro que lhe traria riqueza, as minhas m\u00e3os j\u00e1 se perdiam debaixo da blusa de Kalila, buscando os bot\u00f5es que formavam os seus mamilos.<\/p><p>No dia em que tentei tocar-lhes com a l\u00edngua, ela puxou o meu rosto, mordeu o l\u00f3bulo da orelha e colocou a l\u00edngua dentro do meu ouvido. Pela primeira vez, desconsegui esconder a minha ere\u00e7\u00e3o. Ela olhou nos meus olhos e com aquelas gengivas e dentes cintilantes, me ofereceu o seu sorriso de tro\u00e7a e anunciou que ter\u00edamos que parar com os nossos encontros. A novela havia terminado e at\u00e9 os ser\u00f5es da fam\u00edlia voltarem a ser ocupados com outro programa, ter\u00edamos apenas o dia o que significava o fim do nosso romance, pois at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o nos t\u00ednhamos assumido como damos com direito a andar de m\u00e3o dada a vista de todos. Ainda tentei pausar\u00a0no 1\u00ba de Maio\u00a0para lhe mostrar que tinha as qualidade necess\u00e1rias para ser promovido a garino oficial mas ela friamente, apontou que a minha presen\u00e7a come\u00e7ava a dar bandeira diante das amigas da gin\u00e1stica.<\/p><p>Na noite anterior a partida para Lisboa, n\u00e3o consegui pregar o olho. Tinha que me despedir da Kalila, e num ato impulsivo, foi rondar o port\u00e3o da casa dela. Fiz o sinal que hav\u00edamos combinado para anunciar a minha a minha presen\u00e7a. Ela apareceu poucos minutos depois, pegou na minha m\u00e3o e puxou-me, convidando para caminhar ao lado dela. Sem destino, demos uma volta ao quarteir\u00e3o. Kalila, riu das minhas hist\u00f3rias, fez-me perguntas sobre o que contava encontrar em Lisboa e do que sentiria mais falta em Benguela, senti a vontade de apontar para ela mas o medo de arruinar aquele momento, segurou-me. Aquela era a primeira vez que revelavamos as nossas expectativas e ansiedades. Ela n\u00e3o gostava especialmente de gin\u00e1stica, mas ia porque as amigas frequentavam. Nos prometemos escrever e enviar fotografias, coisa que cheguei a fazer n\u00e3o por ter me faltado vontade. N\u00e3o saberia como enviar enviar-lhe poemas e outras foleirices que\u00a0 denunciassem que passado esses anos todos cont\u00ednuo panco por ela.<\/p><p>Quando nos aproximamos novamente do port\u00e3o, perguntava-me qual seria a melhor forma de nos despedir-me. Um longo abra\u00e7o, um linguado, os dois? Optei por estender-lhe o livro de Poemas Angolanos mas ela recusou, apontado que tinha um exemplar igual em casa. Fiquei fraco. Ela deve ter reparado que eu procurava no ch\u00e3o um buraco para me enfiar quando ela pegou na minha m\u00e3o e disse. \u201cVem comigo mas n\u00e3o fa\u00e7as barulho\u201d, Por instantes, fiquei sem saber o que significava aquele convite, mas ela abriu o port\u00e3o e puxou-me para dentro, segui obediente e mudo at\u00e9 o fundo do quintal da sua casa, entre as pitangueiras e uma parede de samambaias, fora do alcance da luz que irradiava desde a marquise. Ela surpreendeu-me com um beijou o primeiro que n\u00e3o nasceu de iniciativa minha. Senti o seu corpo colar-se ao meu e de repente, tinha a m\u00e3o dela dentro dos meus cal\u00e7\u00f5es. N\u00e3o ofereci-lhe resist\u00eancia.<\/p><p>Vai acontecer, pensei para mim. N\u00e3o era daquela maneira que tinha imaginado que seria a minha primeira vez, todos os cen\u00e1rios que construir\u00e1 at\u00e9 ent\u00e3o tinham-na como co-protagonista, mas sempre entre quatro paredes e com uma cama presente, num dia em que em que ningu\u00e9m estaria em sua casa, j\u00e1 que na minha seria imposs\u00edvel pois h\u00e1 sempre gente \u00e0 volta e a minha imagina\u00e7\u00e3o e carteira n\u00e3o permitia ir al\u00e9m dessas possibilidades. Aquele fundo de quintal foi uma surpresa aterradora, e se algu\u00e9m nos apanhasse ali? Meus joelhos tremiam de excita\u00e7\u00e3o e medo. Kalila parecia segura, n\u00e3o a vi em momento nenhum desviar o olhar em dire\u00e7\u00e3o a porta da marquise, ao contr\u00e1rio de mim que os tinha os olhos esbugalhados, ela tinha os seus semicerrados e soltar\u00e1 uma vogal continua numa leve, quase inaud\u00edvel melodia de prazer.<\/p><p>E quando abriu os olhos, sem proferir nenhuma palavra, somente com os gestos, indicou-me o lugar onde dever\u00edamos nos deitar, um pequeno luando feito de folha de palmeira, certamente utilizado para dormir sob a sombra das pitangueiras.<\/p><p>Ela voltou a atacar o meu ouvido, mordeu-o com mais for\u00e7a e fez deslizar a l\u00edngua pelo meu pesco\u00e7o, pelas duas pevides de goiaba que tenho a marcar o lugar dos meus mamilos. E quanto ela iniciou a descida final atrav\u00e9s do meu estomago, temia que a minha respira\u00e7\u00e3o ofegante como uma animal ferido, nos denunciasse. Ela colou os dedos nos meus l\u00e1bios impedindo-me que inalasse todo o oxigenio do mundo. Quando fecho os olhos ainda sinto o cheiro do \u00f3leo mupeke nos seus cabelos. Aquele cheiro\u00a0 extra\u00eddo dos frutos da \u00e1rvore Ximenia Americana que cresce na regi\u00e3o do Namibe, vendido pelas mulheres mumuilas, que silenciosas e altivas, nuas das cintura para cima, com um pano trazido amarrado \u00e0 cintura nunca cobrindo mais do que metade das coxas percorriam as ruas de Benguela ir\u00e1 acompanhar-me at\u00e9 o fim dos meus dias. At\u00e9 porque antes de Kalila entrar na minha vida, os del\u00edrios sexuais volta e meia inclu\u00edam as mo\u00e7as solteiras, com os seus peitos a mostra adornados apenas com colares de missangas e pulseiras equilibrando na cabe\u00e7a os litros de \u201comulela woyo mpeke\u201d, nome dado, na l\u00edngua do povo Kuvale e que a minha primeira amante assim como todas as mulheres a minha volta usavam para cuidar o cabelo crespo.<\/p><p>Kalila desceu a roupa que cobria a p\u00e9lvis e at\u00e9 meio dos meus joelhos. Ela manteve a sua roupa no corpo. Levou a m\u00e3o at\u00e9 a boca, umedeceu os dedos com saliva e com pulso firme desenhando um movimento suave, sem tirar os olhos dos meus, deliciou-se vendo o meu corpo contorcer-se de prazer e quando senti o calor da sua boca derreter a ponta da minha pila at\u00e9 esta desaparecer, o \u00fanico gesto que me foi poss\u00edvel para n\u00e3o gritar e causar um sobressalto ao membros da fam\u00edlia na sala de estar, foi esticar os bra\u00e7os e enterrar os dedos na terra e apertando-a na m\u00e3o para que n\u00e3o me fugisse o ch\u00e3o. Quando finalmente ela me devolveu os sentidos e os meus m\u00fasculos voltaram a relaxar senti na minha m\u00e3o um pequeno objecto duro e familiar. O cavalo negro que fora substitu\u00eddo pelo soldado de chumbo.<\/p><\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-accordion-item\">\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-title-9055\" class=\"elementor-tab-title\" data-tab=\"5\" role=\"button\" aria-controls=\"elementor-tab-content-9055\" aria-expanded=\"false\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon elementor-accordion-icon-left\" aria-hidden=\"true\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-closed\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-plus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H272V64c0-17.67-14.33-32-32-32h-32c-17.67 0-32 14.33-32 32v144H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h144v144c0 17.67 14.33 32 32 32h32c17.67 0 32-14.33 32-32V304h144c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-opened\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-minus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h384c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a class=\"elementor-accordion-title\" tabindex=\"0\">o que acontece em certas demoli\u00e7\u00f5es<\/a>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-content-9055\" class=\"elementor-tab-content elementor-clearfix\" data-tab=\"5\" role=\"region\" aria-labelledby=\"elementor-tab-title-9055\"><p>o que acontece em certas demoli\u00e7\u00f5es\u201d<\/p><p>1. (\u201ctenho vindo a fazer a volta\u201d)<br \/>ultimamente investigo passos de dan\u00e7a que nunca mais tinha dan\u00e7ado.<br \/>a terapeuta disse-me que pode ser bom (para voltar a fotografar) redescobrir coisas \u00edntimas que nada t\u00eam a ver com o acto de fotografar. \u201cnada\u201d seria uma exagero. mas creio que entendi. n\u00e3o devem ser manifesta\u00e7\u00f5es directas que me levem a fotografar, de imediato; e n\u00e3o devem ser coisas que alimentem esta limita\u00e7\u00e3o dolorosa que me assiste.<br \/>quero fotografar. \u00e9 isto precisamente que n\u00e3o consigo explicar. querer, no sentido de haver desejo, sim.<br \/>mas \u00e9 como se para fotografar, eu tivesse que cortar o cabelo. \u00e9 s\u00f3 um exemplo. ainda bem que a terapeuta n\u00e3o me julga pelas maluquices que digo. ali\u00e1s, tenta convencer-me que n\u00e3o s\u00e3o maluquices.<br \/>contudo, algumas das fotos que mostrei levaram-na a um sil\u00eancio radical.<br \/>o que me perturbou. mas isso n\u00e3o verbalizei.<\/p><p>2.(\u201ca estrutura da ternura\u201d)<br \/>hoje vi no meio de tantos patos, um cisne.<br \/>isso comentei com a terapeuta antes de tentar ir \u00e0 dan\u00e7a.<br \/>a terapeuta perguntou como tinha sido o reencontro com a dan\u00e7a. e se j\u00e1 tinha sido.<br \/>creio que por vezes, sobretudo quase sempre, tenho muita dificuldade em falar do que n\u00e3o sei. ou que n\u00e3o sei explicar. n\u00e3o \u00e9 a dan\u00e7a, quis dizer; apeteceu-me dizer. mas n\u00e3o soube dizer. \u00e9 o modo de l\u00e1 chegar.<br \/>\u201csim, concordo\u201d, disse a terapeuta.<br \/>a terapeuta \u00e9 muito bonita. n\u00e3o \u00e9 uma fase da terapia. \u00e9 mesmo bonita. vejo (ou quero ver\u2026) tanta do\u00e7ura nos seus olhos, mas sobretudo nos seus p\u00e9s. n\u00e3o posso evitar e penso: \u201cdeve ser uma excelente dan\u00e7arina\u201d.<br \/>ao contr\u00e1rio de mim.<br \/>mas isso n\u00e3o digo.<\/p><p>3. (\u201ca necessidade do trabalho\u201d)<br \/>repito algumas vezes que me faz falta fotografar. a terapeuta faz perguntas, d\u00e1 a entender que seria importante eu falar mais sobre isso.<br \/>a import\u00e2ncia de fotografar. n\u00e3o sei se \u2018tenho que\u2019 falar sobre isso abertamente. n\u00e3o quando j\u00e1 tive que exteriorizar essa falta. \u00e9 diferente de saber explicar o porqu\u00ea. ou at\u00e9 de explicar por que tenho a necessidade de fotografar.<br \/>\u201ctrabalho ou prazer\u2026?\u201d<br \/>\u201cdeixe-me dar um exemplo. fotografia, vida, dan\u00e7a: \u00e9 a surpresa\u2026\u201d<br \/>\u201cn\u00e3o sei se entendi\u201d<br \/>\u201c\u00e9 a surpresa que me fala, que me move. descobrir e fotografar. pressentir e revelar.\u201d<br \/>\u201ce o exemplo?\u201d<br \/>\u201cera um sapato\u201d<br \/>\u201cseu?\u201d<br \/>\u201cn\u00e3o. um sapato que fotografei. melhor dizendo, n\u00e3o sei se fui eu que fotografei. lembro-me de ter revelado essa foto\u2026\u201d<br \/>\u201cfoi uma surpresa?\u201d<br \/>\u201csim\u201d<br \/>\u201co sapato em si?\u201d<br \/>\u201cn\u00e3o. o que o sapato dizia\u2026\u201d<\/p><p>4.(\u201cturismo militar\u201d)<br \/>houve em determinadas guerras, por algum tempo, e quando era poss\u00edvel, e onde houvesse gente nisso interessada, o costume de se fazer turismo dentro da pr\u00f3pria guerra.<br \/>n\u00e3o sei se chamaram a isso turismo militar. pode ser que sim. o nome, neste caso, n\u00e3o interessa.<br \/>\u201cisso faz parte do seu trabalho?\u201d<br \/>ao que eu sorri.<br \/>\u201co mundo faz parte do meu trabalho.\u201d<br \/>\u201cclaro\u201d, disse a terapeuta. \u201ctem toda a raz\u00e3o.\u201d<\/p><p>5. (\u201co que acontece ao perder-me nos voos\u201d)<br \/>n\u00e3o perco voos. perco-me nos voos.<br \/>isso \u00e9 tamb\u00e9m muito dif\u00edcil de explicar. \u00e9 no voo, onde nada acontece, nesse c\u00e9u, que me ocorrem as fotos que n\u00e3o posso tirar.<br \/>\u201cde lugares que n\u00e3o existem?\u201d<br \/>\u201cde lugares onde, nesse instante, eu n\u00e3o estou.\u201d<br \/>voar, digamos, n\u00e3o \u00e9 humano. n\u00f3s andamos, a cada voo, a imitar coisas n\u00e3o humanas.<br \/>\u201cum dia pode dar mau resultado\u2026\u201d<br \/>\u201cum acidente?\u201d<br \/>\u201cou pior: uma revela\u00e7\u00e3o inesperada\u201d<br \/>\u201cquer dar um exemplo?\u201d<br \/>\u201csabe o que estava escrito no sapato azul que fotografei?\u201d<br \/>\u201cs\u00f3 saberei se me disser\u201d, disse a terapeuta com um ar neutro que me incomoda.<br \/>\u201cyou and me\u201d<br \/>\u201cera isso que estava escrito?\u201d<br \/>\u201csim\u201d<br \/>\u201cpara onde a levou essa frase?\u201d<br \/>\u201cpara uma exposi\u00e7\u00e3o. algumas ideias. a pr\u00f3pria dan\u00e7a. tudo isso tem que ver com o medo. os medos\u2026\u201d<br \/>\u201co que vai fazer com isso?\u201d<br \/>\u201cvou preparar vinte e um temas para uma exposi\u00e7\u00e3o. nomes isolados, frases que me acompanham. ser\u00e1 uma pequena grande celebra\u00e7\u00e3o. sobretudo h\u00e1 de fazer-me bem.\u201d<br \/>\u201cpor qu\u00ea?\u201d<br \/>\u201cporque decidi que o farei sem julgamentos.\u201d<br \/>a terapeuta pareceu sorrir, mas tentou n\u00e3o faz\u00ea-lo.<\/p><p>6. (\u201co c\u00f3digo postal da estrada vazia\u201d)<br \/>o endere\u00e7o onde haveria a dan\u00e7a parece uma estrada vazia.<br \/>confesso que estou cansada de dizer \u201cparece que\u201d. \u00e9 nitidamente um medo de assumir e de dizer as coisas. vou recome\u00e7ar:<br \/>o endere\u00e7o do lugar onde eu iria dan\u00e7ar \u00e9 uma estrada vazia. n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 uma casa, um galp\u00e3o, algo que abrigue um grupo de dan\u00e7a.<br \/>mas, logo no in\u00edcio, h\u00e1 uma placa com um c\u00f3digo postal. mesmo a estrada vazia tem um c\u00f3digo postal. fico assim com menos d\u00favidas sobre a exist\u00eancia da rua. continuo com d\u00favidas quanto \u00e0 exist\u00eancia do lugar de dan\u00e7ar.<br \/>mas \u00e9 \u00f3bvio: h\u00e1 sempre muitos lugares de dan\u00e7ar. muitas ruas, galp\u00f5es, casas de dan\u00e7ar. h\u00e1 tamb\u00e9m o lugar de dentro. onde tamb\u00e9m se dan\u00e7a.<br \/>isto n\u00e3o consegui dizer \u00e0 terapeuta: \u00e9 por dentro que n\u00e3o tenho conseguido dan\u00e7ar.<br \/>se dan\u00e7ar por dentro fotografo melhor por fora?<br \/>se fotografar por dentro\u2026 saberei dan\u00e7ar por fora?<\/p><p>7. (\u201cnovo ataque no centro do meu peito\u201d)<br \/>sobre isto gostaria de poder falar \u00e0 terapeuta.<br \/>de algum modo associo os ataques ao meu peito ao n\u00e3o conseguir fotografar.<br \/>encontrei uma boneca de trapos que me pediu para ser fotografada. pedir tamb\u00e9m \u00e9 uma coisa de dentro. dentro dela. dentro de mim.<br \/>\u201cno fundo devo eu ter pedido \u00e0 boneca de trapo para fotograf\u00e1-la\u2026\u201d<br \/>\u201cno entanto nem a boneca falou consigo, nem voc\u00ea falou com a boneca\u2026 h\u00e1 algo nesse processo que seria importante que visse. e assumisse.\u201d<br \/>\u201ceu quis fotografar\u2026\u201d<br \/>\u201csim. voc\u00ea quis fotografar.\u201d<br \/>consegui falar da boneca de trapo, mas n\u00e3o pude dizer o modo como n\u00e3o a fotografei. o in\u00edcio j\u00e1 se dera. a vontade, a m\u00e3o, o momento, at\u00e9 a luz. mas um forte ataque ao centro do meu peito n\u00e3o me deixa nem sequer ficar em p\u00e9. ou caminhar. ou pensar. ou agir. nem agir instintivamente.<br \/>\u201cse tivesse que fotografar esse ataque\u2026. como seria a fotografia?\u201d, imaginei que a terapeuta me fazia essa pergunta.<br \/>e devagar, entre hesita\u00e7\u00f5es por dentro, entre choro e inquieta\u00e7\u00e3o, nas poucas pausas que a respira\u00e7\u00e3o me cedeu, imaginei que eu poria a quest\u00e3o de outro modo:<br \/>\u201cse eu pudesse fotografar esse ataque, destrui-lo-ia\u2026 queim\u00e1-lo-ia em vez de o fotografar.\u201d<br \/>\u201cmuito bem. hoje ficamos por aqui.\u201d<\/p><p>8. (\u201cdemoli\u00e7\u00f5es de bairros e de pessoas\u201d)<br \/>nem sempre fotografei mas sempre me interessei por demoli\u00e7\u00f5es. portos. cidades. bairros.<br \/>mas o que me atrai s\u00e3o as demoli\u00e7\u00f5es de pessoas. intriga-me como se fala de demoli\u00e7\u00f5es sem referir, tantas vezes, as pessoas. muitas vezes at\u00e9 lembram-se de referir os animais, as \u00e1rvores. isso est\u00e1 muito bem.<br \/>mas e as pessoas demolidas?<br \/>uma pessoa demolida ou em demoli\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 que se sente mais atra\u00edda pela fotografia, pela dan\u00e7a, pela demoli\u00e7\u00e3o, do que as pessoas que n\u00e3o est\u00e3o em demoli\u00e7\u00e3o?<br \/>\u201cqual \u00e9 a sua opini\u00e3o?\u201d, perguntou a terapeuta.<br \/>voltei a ver os seus p\u00e9s. as sand\u00e1lias delicadas. um anel no dedo. certamente ela n\u00e3o cr\u00ea que ningu\u00e9m nota o anel no dedo do p\u00e9.<br \/>\u201ceu penso que posso planificar uma exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica. tamb\u00e9m posso planificar a demoli\u00e7\u00e3o do meu peito. cessaria assim a possibilidade de ataques.\u201d<br \/>\u201cbem como o pr\u00f3prio peito\u2026\u201d, disse a terapeuta, e descruzou a perna que tinha o p\u00e9 com o anel no dedo.<\/p><p>9. (\u201cdoei um bolo pequeno demais\u201d)<br \/>tenho vindo a fazer as anota\u00e7\u00f5es que a terapeuta sugeriu.<br \/>uso as que posso nas sess\u00f5es, uso outras para o meu dia a dia. uso outras para a exposi\u00e7\u00e3o que um dia farei.<br \/>quando voltar a fotografar.<br \/>quando puder dan\u00e7ar dentro ou fora de mim.<br \/>gosto da ideia de serem pequenos cap\u00edtulos que chegam da vida ou dos sonhos ou de mim ou dos outros ou das dores ou de fotos que ainda n\u00e3o fiz ou de m\u00fasicas que se apresentam como reflexo de algo ou como lembran\u00e7as que distor\u00e7o ou como t\u00edtulos para poemas que nunca escrevi ou como fragmentos de coisas min\u00fasculas mas important\u00edssimas que fazem parte daquilo que tamb\u00e9m sou.<br \/>de certo modo, desconfio, mas ainda n\u00e3o me consigo dizer: acho que \u00e9 uma esp\u00e9cie de dan\u00e7a comigo.<br \/>anotei o t\u00edtulo \u2018doei um bolo pequeno demais\u2019 por causa de um sonho: era eu a ir a um lugar onde se doavam coisas e havia uma crian\u00e7a com o peito em demoli\u00e7\u00e3o ent\u00e3o no lugar de um brinquedo eu levei um bolo feito por mim que n\u00e3o sei fazer bolos. a senhora que me recebeu comentou de imediato que o bolo era pequeno demais e quase desatei a chorar mas vi que a crian\u00e7a olhou o bolo e achou que era o presente ideal para aquele momento.<br \/>mesmo no sonho, mesmo que tenha sido apenas um sonho: o meu bolo pequeno demais travava o processo de demoli\u00e7\u00e3o dentro daquela crian\u00e7a.<\/p><p>10. (\u201cacabei por doar imagens\u201d)<br \/>num outro sonho, eu voltava a esse lugar de doa\u00e7\u00f5es. estranho nome, estranha palavra, estranhas ac\u00e7\u00f5es. mas l\u00e1 voltei.<br \/>l\u00e1 voltei a encontrar os que d\u00e3o as coisas que j\u00e1 n\u00e3o precisam e que por vezes v\u00e3o cheias de pouco-amor por j\u00e1 n\u00e3o servirem.<br \/>fui l\u00e1 doar imagens que eram importantes para mim. e at\u00e9 valiosas do ponto de vista comercial. creio que a minha agente n\u00e3o gostar\u00e1 nada de saber disso.<br \/>\u201ce sentiu-se bem?\u201d, perguntou a terapeuta; mas n\u00e3o tinha, nesse dia, o anel no dedo do p\u00e9.<br \/>\u201csenti que essa doa\u00e7\u00e3o travava um mil\u00edmetro o processo de demoli\u00e7\u00e3o do meu peito.\u201d<\/p><p>11. (\u201co processo de n\u00e3o tatuagem\u201d)<br \/>nunca quis fazer uma tatuagem, mas n\u00e3o era por causa das transfus\u00f5es de sangue.<br \/>era pelo arrependimento.<br \/>\u201cque arrependimento?\u201d<br \/>o de ter essa fotografia impressa na pele e n\u00e3o poder mudar as fotografias expostas no meu corpo.<\/p><p>12. (\u201cdiretrizes para o planeamento de uma demoli\u00e7\u00e3o\u201d)<br \/>depois de visitar aquela institui\u00e7\u00e3o, mais \u00e0 noitinha, permiti-me chorar.<br \/>\u201cfez-lhe bem?\u201d<br \/>creio que sim. gosto desse choro que pode vir a ser \u00fatil. que me fa\u00e7a sentir melhor. que me limpe de algo. que me deixe num outro lugar.<br \/>\u201co choro \u00e9 uma travessia\u2026\u201d, disse eu \u00e0 terapeuta.<br \/>depois da travessia, quase sempre, o que nos acontece \u00e9 estar num outro lugar.<br \/>cheguei a casa e permiti-me chorar porque n\u00e3o tinha como inventar, para mim, uma explica\u00e7\u00e3o que me atenuasse a dor.<br \/>\u201cqual dor?\u201d<br \/>a que me d\u00f3i quando vejo crian\u00e7as com o peito em demoli\u00e7\u00e3o. chorei tamb\u00e9m por mim: eu j\u00e1 n\u00e3o sou crian\u00e7a e ainda tenho o peito em demoli\u00e7\u00e3o.<br \/>\u201cexistem outros caminhos?\u201d<br \/>a demoli\u00e7\u00e3o sem planeamento. a demoli\u00e7\u00e3o com planeamento. o que se constr\u00f3i depois da demoli\u00e7\u00e3o. se nada se constr\u00f3i depois da demoli\u00e7\u00e3o.<br \/>\u201cagora refere-se \u00e0 demoli\u00e7\u00e3o dos bairros?\u201d, perguntou a terapeuta.<br \/>\u201cn\u00e3o. refiro-me ainda \u00e0 demoli\u00e7\u00e3o de pessoas.\u201d<br \/>\u201cno geral\u2026?\u201d<br \/>\u201c\u00e0s vezes o geral \u00e9 um modo de falar de mim. confesso que muitas vezes planejo a demoli\u00e7\u00e3o do meu peito e em simult\u00e2neo sinto que gostaria de n\u00e3o ter que o demolir.\u201d<\/p><p>13. (\u201chavia pele na fotografia extinta\u201d)<br \/>poucos assin\u00e1mos o documento. muitos assinaram o outro documento.<br \/>\u201cdesculpe, a que documentos se refere?\u201d<br \/>o documento que tinha poucas assinaturas autorizava.<br \/>o documento que tinha muitas assinaturas n\u00e3o autorizava.<br \/>\u201cera a autoriza\u00e7\u00e3o formal para uma demoli\u00e7\u00e3o?\u201d a terapeuta tentou que eu explicitasse.<br \/>mas eu n\u00e3o queria ser t\u00e3o expl\u00edcita.<br \/>\u201cera justamente a autoriza\u00e7\u00e3o informal para a destrui\u00e7\u00e3o de um arquivo fotogr\u00e1fico.\u201d<\/p><p>14. (\u201cfot\u00f3grafo luta para que o autorizem a destruir fotos do seu passado\u201d)<br \/>segundo o fot\u00f3grafo, que queria muito n\u00e3o ter a obriga\u00e7\u00e3o de explicar tanta coisa sobre um determinado processo de demoli\u00e7\u00e3o dentro de si, pretendia que lhe permitissem, judicialmente, destruir um arquivo que foi criado, mantido, inventado, fotografado por si.<br \/>entendia que a destrui\u00e7\u00e3o dependia de uma decis\u00e3o judicial.<br \/>mas alegava tamb\u00e9m que a destrui\u00e7\u00e3o deveria, isso sim, depender de uma decis\u00e3o pessoal e humana. sua.<br \/>eu assinei o documento com poucas assinaturas, o que autorizava a destrui\u00e7\u00e3o do arquivo deste fot\u00f3grafo porque, segundo ele, era esta a sua vontade humana actual; e o arquivo, ainda que fotogr\u00e1fico, continha uma camada de pele com recorda\u00e7\u00f5es que ele j\u00e1 n\u00e3o pretendia deixar inscritas no mundo.<\/p><p>15. (\u201csete exposi\u00e7\u00f5es sobre o fim do mundo j\u00e1 em fins de fevereiro\u201d)<br \/>foi bonita a dan\u00e7a.<br \/>\u201cdan\u00e7ou?\u201d, perguntou a terapeuta.<br \/>\u201cn\u00e3o. apenas fui ver dan\u00e7ar.\u201d<br \/>era uma provoca\u00e7\u00e3o e resultou. algu\u00e9m marcou para o dia trinta de fevereiro uma s\u00e9rie de exposi\u00e7\u00f5es, em dan\u00e7a, sobre o fim do mundo. e usaram fotos minhas.<br \/>\u201csentiu-se bem com o uso das suas fotos?\u201d<br \/>\u201csim, senti-me bem. justamente por ter acontecido a exposi\u00e7\u00e3o no dia trinta de fevereiro. achei apropriado.\u201d<br \/>\u201ce que dan\u00e7as viu?\u201d<br \/>\u201cdan\u00e7as penduradas em pessoas. foi na rua. no dia vinte e oito.\u201d<\/p><p>16. (\u201cetnografia dos bairros invis\u00edveis\u201d)<br \/>os passos que n\u00e3o tinha dan\u00e7ado \u00e9 um modo de dizer e de tentar fotografar as fotografias ou instantes ou pessoas ou bairros ou demoli\u00e7\u00f5es ou peitos que ainda n\u00e3o fotografei.<br \/>o modo de tentar come\u00e7ar a dan\u00e7ar, dentro ou fora de mim, \u00e9 o modo de regressar \u00e0 fotografia.<br \/>seria tamb\u00e9m o modo de entender a raz\u00e3o de n\u00e3o conseguir fotografar.<br \/>\u201cconsegui fotografar um cisne no meio de tantos patos\u2026\u201d<br \/>\u201cj\u00e1 revelou essa fotografia?\u201d, perguntou a terapeuta.<br \/>\u201cn\u00e3o. n\u00e3o foi com a m\u00e1quina de fotografar. fotografei apenas com o peito.\u201d<br \/>n\u00e3o creio, anotei no ponto dezasseis do meu bloco de apontamentos, que os bairros invis\u00edveis sejam invis\u00edveis.<\/p><p>17. (\u201conde ficar\u201d)<br \/>uma das fotografias que n\u00e3o chegou a ser vista na exposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aconteceu no dia trinta de fevereiro tinha um t\u00edtulo que poderia ser uma frase minha ou parte de um pensamento que me faria escrever sobre outras coisas:<br \/>\u2018onde ficar nos melhores bairros demolidos sem ter de l\u00e1 ficar\u2019.<\/p><p>18. (\u201cpor baixo das demoli\u00e7\u00f5es\u201d)<br \/>h\u00e1 uma coisa que me tem despertado a curiosidade para voltar a fotografar.<br \/>\u201cest\u00e1 relacionado com a dan\u00e7a?\u201d, perguntou a terapeuta.<br \/>\u201ctalvez tudo esteja relacionado com a dan\u00e7a\u2026\u201d, deu-me vontade de sorrir com o que eu pr\u00f3pria diria depois: \u201cat\u00e9 a Terra dan\u00e7a. tudo \u00e9 movimento. ou pausa. ou grito. ou sil\u00eancio.\u201d<br \/>\u201cquando \u00e9 que grita?\u201d, a terapeuta conseguiu surpreender-me.<br \/>a quest\u00e3o n\u00e3o era o quando. era o como.<br \/>tenho estado a gritar em sil\u00eancio. por vezes gritava ao fotografar. por vezes, numa discuss\u00e3o, tamb\u00e9m chegava a gritar. ao espelho, gritei algumas vezes mas fechava os olhos com medo de ouvir todo o grito.<br \/>ultimamente, grito para dentro.<br \/>\u201cacha que isso pode ser um dos modos de demolir o seu peito?\u201d<\/p><p>19. (\u201crecolhi objetos das pessoas que viveram aqui\u201d)<br \/>descobri um modo de come\u00e7ar a tentar dan\u00e7ar.<br \/>\u201c\u00e9 um lugar de dan\u00e7a?\u201d, perguntou a terapeuta.<br \/>\u00e9 apenas um modo. os objectos que me atraem, que recolho, que me chamam, que me falam, aos quais eu posso falar com do\u00e7ura ou fotografia, esses objectos mais cedo ou mais tarde creio que me podem fazer dan\u00e7ar.<br \/>\u201ce a m\u00fasica?\u201d<br \/>com ou sem m\u00fasica.<br \/>a m\u00fasica por vezes s\u00e3o as est\u00f3rias ou as vidas ou as anota\u00e7\u00f5es ou as coisas escondidas no peito das pessoas que viveram aqui.<br \/>\u201caqui\u2026 onde?\u201d<br \/>\u201cdentro ou fora de mim.\u201d<\/p><p>20. (\u201cum quest\u00e3o de dentro\u201d)<br \/>no ponto vinte anotei algo que tinha que ver com a terapeuta.<br \/>no dia seguinte consegui falar sobre isso.<br \/>\u201cse eu fizesse uma exposi\u00e7\u00e3o\u2026 poderia contar com a sua presen\u00e7a\u2026?\u201d, olhei para baixo, embora a terapeuta tenha esperado que eu voltasse a olhar para ela para me dizer o que disse:<br \/>\u201cseria a trinta de fevereiro?\u201d<br \/>sorrimos.<br \/>\u201cn\u00e3o. uma exposi\u00e7\u00e3o com fotos reveladas e, digamos, com um acesso concreto a ela. eu poderia contar com a sua presen\u00e7a?\u201d<br \/>a terapeuta esperou que olhasse para ela.<br \/>\u201co importante, de verdade, \u00e9 que voc\u00ea esteja l\u00e1.\u201d<\/p><p>21. (\u201cestes objetos levo para o meu peito\u201d)<br \/>ultimamente investigo os primeiros passos de dan\u00e7a que me apareceram depois das visitas aos bairros, \u00e0s pessoas, aos lugares de dentro e de fora. tamb\u00e9m visitei objectos e sensa\u00e7\u00f5es.<br \/>inaugurei a exposi\u00e7\u00e3o num dia qualquer a meio do m\u00eas, n\u00e3o me lembro do n\u00famero ou do nome desse dia.<br \/>dan\u00e7o devagarinho. pressinto uma n\u00e3o demoli\u00e7\u00e3o.<br \/>com restos de coisas que reconheci como \u2018coisas delicadas\u2019, inaugurei a exposi\u00e7\u00e3o dentro do meu peito.<\/p><\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-accordion-item\">\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-title-9056\" class=\"elementor-tab-title\" data-tab=\"6\" role=\"button\" aria-controls=\"elementor-tab-content-9056\" aria-expanded=\"false\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon elementor-accordion-icon-left\" aria-hidden=\"true\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-closed\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-plus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H272V64c0-17.67-14.33-32-32-32h-32c-17.67 0-32 14.33-32 32v144H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h144v144c0 17.67 14.33 32 32 32h32c17.67 0 32-14.33 32-32V304h144c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-opened\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-minus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h384c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a class=\"elementor-accordion-title\" tabindex=\"0\">Desmanchando os prazeres \u2013 Manuela Ribeiro Sanches<\/a>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-content-9056\" class=\"elementor-tab-content elementor-clearfix\" data-tab=\"6\" role=\"region\" aria-labelledby=\"elementor-tab-title-9056\"><p><span lang=\"pt-PT\">Manuela Ribeiro Sanches<\/span><\/p><p>\u201c<span lang=\"pt-PT\">\u00c9 assim que, de certo modo, o autor surge, finalmente, como um solit\u00e1rio. Um insatisfeito, n\u00e3o um l\u00edder. N\u00e3o um fundador, mas um desmancha-prazeres. E, se quisermos imagin\u00e1-lo em si mesmo na solid\u00e3o do seu of\u00edcio e das suas inten\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o vemos um trapeiro, cedo na madrugada, recolhendo com o seu bast\u00e3o trapos de fala e farrapos de l\u00edngua para os lan\u00e7ar, resmung\u00e3o e obstinado, um pouco inebriado, no seu carreto, n\u00e3o deixando, de vez em quando, de fazer esvoa\u00e7ar, trocista, na brisa matinal, um ou outro peda\u00e7o dessa chita desbotada de \u2018humanidade,\u2019 \u2018contempla\u00e7\u00e3o,\u2019 \u2018imers\u00e3o.\u2019 Um trapeiro, cedo, na madrugada do dia da revolu\u00e7\u00e3o.\u201d Walter Benjamin.<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote1sym\" name=\"sdendnote1anc\">i<\/a><\/span><\/sup><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Dez anos. Dez anos que vieram depositar-se sobre um texto escrito em torno de alguns trabalhos de M\u00f3nica de Miranda,<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote2sym\" name=\"sdendnote2anc\">ii<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0onde se abordava o modo como, na Europa, mais precisamente em Portugal, na \u00e1rea metropolitana de Lisboa, se reproduziam as mesmas fronteiras, e delineavam os mesmos limites que a Uni\u00e3o Europeia vinha, ent\u00e3o, impondo e continua, inexoravelmente, a impor. Fronteiras que o trabalho\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>Underconstruction\u00a0<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">interrogava e reelaborava, introduzindo novas dimens\u00f5es inesperadas nas abordagens habituais aos chamados \u2018bairros problem\u00e1ticos.\u2019<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Abordagens que replicam fronteiras resultantes de pol\u00edticas e de mentalidades herdadas de velhos e novos colonialismos que, em v\u00e1rios contextos, mais ou menos restritos, dos sociais aos acad\u00e9micos, insistimos em condenar desde o s\u00e9culo passado, para os vermos ressurgir, agora mais amea\u00e7adores do que antes, num mundo cada vez mais desordenado por grandes interesses e pequenos tiranos, t\u00e3o irrespons\u00e1veis quanto ignorantes, alimentando formas de xenofobia e de racismo pr\u00f3prios de nacionalismos crescentemente definidos como puros, \u00e9tnicos, absolutamente iguais a si mesmos.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">As mensagens da hibridez que a teoria p\u00f3s-colonial n\u00e3o se cansou de proclamar \u2013 apropriadas, por vezes, de forma excessivamente ing\u00e9nua ou otimista, quando n\u00e3o seguindo negligentemente mais uma voga, a ponto de se terem tornado quase desinteressantemente hegem\u00f3nicas em alguns discursos acad\u00e9micos e art\u00edsticos \u2013 tamb\u00e9m em Portugal \u2013 revelaram-se pouco eficazes, porque indiferentes, a maior parte das vezes, \u00e0s desigualdades econ\u00f3micas que a crise econ\u00f3mico-financeira deste s\u00e9culo viria a refor\u00e7ar. Desigualdades agravadas pela diferen\u00e7a da cor da pele ou da origem, sendo os diferentes imigrados, e seus descendentes, ainda considerados ou como cidad\u00e3os de segunda ou como intrusos que, cada vez mais, h\u00e1 menos que tolerar do que evitar, quando n\u00e3o rejeitar.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Com efeito, o s\u00e9culo XXI parece comprovar que a ideia de uma educa\u00e7\u00e3o do g\u00e9nero humano que o projeto iluminista antecipara era apenas isso, uma ideia, um sonho, que a realidade crescentemente racista e nacionalista vem desmentir a cada dia que passa, nomeadamente em Portugal. Com efeito, se as reivindica\u00e7\u00f5es de afrodescendentes ou de ciganos portugueses se tornam crescentemente aud\u00edveis na esfera p\u00fablica, elas desencadeiam uma viol\u00eancia que p\u00f5e a nu os limites do consenso de um pa\u00eds de brandos costumes e de benignidade lusotropical herdado do velho Estado novo, consenso que nem a Revolu\u00e7\u00e3o descolonizadora de Abril viria a abalar, as fronteiras f\u00edsicas e mentais, sempre presentes, \u2013 embora silenciosas. S\u00e3o estas fronteiras que se tornam, agora, amea\u00e7adoramente cada vez mais aud\u00edveis, n\u00e3o s\u00f3 nas redes sociais, mas tamb\u00e9m no emergir de uma extrema-direita abertamente racista no parlamento portugu\u00eas, secundada por fazedores de opini\u00e3o prim\u00e1ria nos media, cuja popularidade crescente s\u00f3 poder\u00e1 ser explicada pelo assentimento de quem os consome e aplaude. Surge quase inofensivo o clamor e as\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>fake news<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">\u00a0que rebentaram, em 2005, em torno do c\u00e9lebre Arrast\u00e3o na praia de Carcavelos,<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote3sym\" name=\"sdendnote3anc\">iii<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0quando comparados com a viol\u00eancia medi\u00e1tica com que foi abordada a \u2018invas\u00e3o\u2019 do centro da Lisboa dita multicultural e cosmopolita, quando jovens portugueses negros desceram at\u00e9 a\u00ed para se manifestar contra a viol\u00eancia injustificada da pol\u00edcia no bairro da Jamaica no Seixal, que redundou em novas agress\u00f5es,<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote4sym\" name=\"sdendnote4anc\">iv<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0mais uma vez injustificadas, viol\u00eancia que, agora recrudesce em novos incidentes que d\u00e3o origem a novos protestos,<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote5sym\" name=\"sdendnote5anc\">v<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0bem como a novas manifesta\u00e7\u00f5es de racismo,<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote6sym\" name=\"sdendnote6anc\">vi<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0ou ainda a declara\u00e7\u00f5es preocupantes<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote7sym\" name=\"sdendnote7anc\">vii<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0por parte de quem deveria zelar pela tranquilidade p\u00fablica.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Simb\u00f3lico \u00e9 o facto de existirem espa\u00e7os, desde os de lazer aos de conv\u00edvio cosmopolita, que parecem continuar vedados a esses \u2018cidad\u00e3os de segunda,\u2019 que clamam cada vez mais pelos seus direitos e a sua perten\u00e7a, na sua diferen\u00e7a, a um Portugal que se quer cada vez menos diverso.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">A gentrifica\u00e7\u00e3o acelerada da capital, transformando a cidade num\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>resort<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">\u00a0para europeus de um Norte da Europa mais abastado do que o seu Sul, varrido este por uma austeridade destruidora, vai tamb\u00e9m afastando, quando n\u00e3o expulsando, os seus \u2018ind\u00edgenas,\u2019 porque demasiado velhos ou demasiado pobres, para os novos bairros que surgiram na senda da destrui\u00e7\u00e3o que M\u00f3nica de Miranda registou nas suas fotografias e imagens dez anos atr\u00e1s. O que n\u00e3o impede que os enclaves menos nobres da encosta oriental da antiga Lisboa, n\u00e3o vejam a continua\u00e7\u00e3o da fixa\u00e7\u00e3o de imigrantes, agora maioritariamente do Bangla Desh e do Nepal, hesitando esses lugares entre um enobrecimento para turista ver, que as autoridades gostariam de apressar, e a insist\u00eancia desses rec\u00e9m-chegados em se apropriar de espa\u00e7os abandonados pelos menos afortunados, colorindo, de forma inesperada, a cidade, sem que os problemas da exclus\u00e3o e do silenciamento \u2013 desde os econ\u00f3micos aos psicol\u00f3gicos \u2013 se deixem de fazer sentir, ignorados, tamb\u00e9m sempre, pelos poucos que t\u00eam acesso garantido a espa\u00e7os p\u00fablicos e medi\u00e1ticos.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Mas fora destas quest\u00f5es mais gerais, a que h\u00e1 muito os cientistas sociais se t\u00eam vindo, de modo mais ou menos etnogr\u00e1fico, a dedicar, que resta, finalmente, das pequenas est\u00f3rias a que esses contextos socioecon\u00f3micos \u2013 tamb\u00e9m eles resultado de pol\u00edticas que as determinam \u2013 tamb\u00e9m d\u00e3o lugar?<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Ora, \u00e9 precisamente no ponto em que essas duas realidades, a pessoal, das est\u00f3rias, e a p\u00fablica, das pol\u00edticas, se cruzam, ponto em que o quotidiano dos indiv\u00edduos que habitam as cidades e as grandes decis\u00f5es governamentais sobre urbanismo se intersectam, que o trabalho de M\u00f3nica de Miranda se vem instalar \u2013 mais uma vez \u2013, decorrida uma d\u00e9cada, a fim de tornar mais aud\u00edveis e vis\u00edveis as vidas daqueles que s\u00e3o constante, reiteradamente, subalternizados.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Regressando sempre \u00e0 ideia de migra\u00e7\u00e3o como fen\u00f3meno social e categoria pol\u00edtica e te\u00f3rica, M\u00f3nica de Miranda revisita temas e trabalhos anteriores em torno desses processos de exclus\u00e3o, marcados por fronteiras que a antiga estrada militar fortificou, desde finais do s\u00e9culo XIX, em tempo de inven\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es nacionais<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote8sym\" name=\"sdendnote8anc\">viii<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">, com os seus hinos, monumentos e homogeneiza\u00e7\u00e3o de um passado, que sempre se caraterizou pela diversidade, para se deter no outro lado do progresso, que esse s\u00e9culo de otimismo voluntarista quis materializar, mas que j\u00e1 o s\u00e9culo XX desmentira.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Ru\u00ednas a recordar cidades destru\u00eddas por guerras persistem \u2013 antes, seria a B\u00f3snia, numa antiga Jugosl\u00e1via dividida por lutas tribais, antecipando os purismos \u00e9tnicos que agora alastram por toda a Europa e mundo; agora poderia ser Alepo ou outras localidades esventradas por conflitos assentes, tamb\u00e9m, em ideologias religiosas, que interesses geoestrat\u00e9gicos da nova desordem mundial aproveitam, manipulam, em proveito pr\u00f3prio.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Lugares devastados pelo progresso desigual que deixa um rasto de ru\u00ednas que a c\u00e2mara fixa sem comentar.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Mas h\u00e1 tamb\u00e9m objetos quotidianos, desde cassetes de v\u00eddeo a brinquedos, passando por certid\u00f5es de nascimento, procura\u00e7\u00f5es ou reda\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas sobre o vestido azul com que sonhou \u2013 e encontrou \u2013, entre muitos outros artefactos, como sapatos, pe\u00e7as v\u00e1rias de vestu\u00e1rio, artigos de limpeza, manuais de economia pol\u00edtica, fragmentos de azulejos, discos vinil, CDs, bobines e cassetes, que, nas fotografias de M\u00f3nica de Miranda, surgem destacados, isolados, do seu contexto, finalmente arquivados, para narrarem, de forma t\u00e3o eloquente quanto enigm\u00e1tica, est\u00f3rias de vida an\u00f3nimas, mas plenas de particularidades.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Vest\u00edgios, que, com as suas est\u00f3rias silenciosas, M\u00f3nica de Miranda se recusa tanto a narrar como a ignorar, a esquecer, criando a possibilidade de imaginarmos a complexidade desses passados, que a artista, com a sua objetiva, escava, tal arque\u00f3loga desses n\u00e3o-lugares abandonados pelo chamado progresso, buscando nesses detritos biografias de indiv\u00edduos interrompidas pela moderniza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Tal trapeiro que sai de madrugada (Benjamin)<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote9sym\" name=\"sdendnote9anc\">ix<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">, atento aos vest\u00edgios, aos pequenos nadas, que preencheram o quotidiano daqueles que, desalojados, os tiveram de deixar para tr\u00e1s, na pressa da partida ou apanhados de surpresa por essa onda de progresso, a c\u00e2mara colige, sem ordem nem hierarquia, esses objetos, essa desola\u00e7\u00e3o que, em tempos, foi o lugar de encontro poss\u00edvel com os s\u00edtios de onde se veio e aqueles a que n\u00e3o querem que se perten\u00e7a, mas a que ligam novos afetos, experi\u00eancias, numa pluralidade de hist\u00f3rias, de origens e de ra\u00edzes espalhadas atrav\u00e9s de m\u00faltiplas rotas entre lugares.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">M\u00f3nica de Miranda n\u00e3o tenta decifrar ou impor um sentido, em suma narrar esses contos de Lisboa, quando regista testemunhos de tr\u00e2nsitos entre, e a perten\u00e7a a, m\u00faltiplos lugares, colecionando sons e imagens,<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote10sym\" name=\"sdendnote10anc\">x<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0que arquiva, aleatoriamente, sem que, por um momento, incorra na tenta\u00e7\u00e3o de lhes sobrepor uma qualquer voz autoral, atenta \u00e0s narrativas que evocam sonhos e expetativas, a maior parte das vezes frustrados, dessas vidas em tr\u00e2nsito f\u00edsico e emocional entre Lisboa e a Praia ou Luanda, Portugal e Cabo Verde ou Angola, a Europa e a \u00c1frica.<\/span><\/p><p align=\"center\"><span lang=\"pt-PT\">***<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Walter Benjamin escreveu, a partir de Marcel Proust, que a recorda\u00e7\u00e3o reifica o passado, enquanto que a mem\u00f3ria, a involunt\u00e1ria, na sua arbitrariedade, \u00e9 capaz de guardar a experi\u00eancia.<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote11sym\" name=\"sdendnote11anc\">xi<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0Pois \u201c[a mem\u00f3ria] \u00e9 um meio de aproxima\u00e7\u00e3o ao vivido, como a terra \u00e9 o meio sob o qual as antigas cidades se encontram soterradas.\u201d Por isso, \u201caquele que pretende aproximar-se do seu passado soterrado tem de comportar-se com um homem que escava. Sobretudo, n\u00e3o deve recear regressar constantemente ao mesmo conte\u00fado \u2013 espalh\u00e1-lo como se espalha terra, revolv\u00ea-lo como se revolve o solo.\u201d<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote12sym\" name=\"sdendnote12anc\">xii<\/a><\/span><\/sup><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">Ora, o arquivo que M\u00f3nica de Miranda vem construindo obsessivamente, revolvendo o solo do passado e os seus vest\u00edgios presentes, nada possui de autorit\u00e1rio, antes se aproxima do gesto do colecionador benjaminiano, arbitr\u00e1rio e compulsivo,<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote13sym\" name=\"sdendnote13anc\">xiii<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0que, por isso mesmo, se escusa e escapa a qualquer impulso sistematizador, permitindo que a perplexidade e a interroga\u00e7\u00e3o venham depositar-se sobre essas imagens, com tudo aquilo que podemos \u2013 e, sobretudo, n\u00e3o podemos vir a \u2013 saber sobre esses lisboetas de corpo e a tempo inteiros \u2013 invis\u00edveis e madrugadores, como o trapeiro<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote14sym\" name=\"sdendnote14anc\">xiv<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0\u2013, sem os quais o resort tur\u00edstico em que Lisboa se transformou n\u00e3o conseguiria sequer funcionar. Arquivo, pois, menos para recordar, do que para conservar \u2013 na sua incompletude, tanto mais eloquente, porque concreta \u2013 fragmentos de passados e presentes que insistimos em n\u00e3o (querer) ver ou ouvir.<\/span><\/p><p><span lang=\"pt-PT\">O que estes contos de Lisboa oferecem \u00e9, assim, menos uma hist\u00f3ria coerente do que um convite a que se aprenda a disponibilidade para decifrar estes vest\u00edgios, fragmentos de experi\u00eancias \u00fanicas, mem\u00f3rias de vidas e tamb\u00e9m de uma cidade. Imagens, objetos encontrados ao acaso, pois \u201cao colecionador acontecem as coisas, ele n\u00e3o as escolhe,\u201d<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote15sym\" name=\"sdendnote15anc\">xv<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0objetos que, no seu despojo, v\u00eam interromper a hist\u00f3ria hegem\u00f3nica, que s\u00f3 conhece a consagra\u00e7\u00e3o un\u00edvoca, banalizadora, de atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas, que nem todos podem partilhar. S\u00e3o esses outros passados que, despojados da sua aura,<\/span><sup><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote16sym\" name=\"sdendnote16anc\">xvi<\/a><\/span><\/sup><span lang=\"pt-PT\">\u00a0s\u00e3o, contudo, resgatados pelo olhar e pela aten\u00e7\u00e3o da c\u00e2mara da artista. Sem que este olhar se transforme em programa de den\u00fancia pol\u00edtica ou panfleto social, desmanchando t\u00e3o s\u00f3, mas n\u00e3o menos convincentemente, os prazeres e as malhas tecidas pelas narrativas duma sociedade que gosta de se ver como tolerante e cosmopolita, ignorando muitos dos que, h\u00e1 muito, a constroem. Diariamente.<\/span><\/p><div id=\"sdendnote1\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote1anc\" name=\"sdendnote1sym\">i<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"de-DE\">Walter Benjamin, \u201eEin Au\u00dfenseiter macht sich bemerkbar,\u201c in\u00a0<\/span><span lang=\"de-DE\"><i>Gesammelte Schriften<\/i><\/span><span lang=\"de-DE\">. Band III: Kritiken und Rezensionen, Hrsg. von Hella Tiedemann-Bartels, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1991, pp. 219-225, aquii<\/span><span lang=\"de-DE\"><i>.\u00a0<\/i><\/span><span lang=\"de-DE\">p. 225.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote2\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote2anc\" name=\"sdendnote2sym\">ii<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"pt-PT\">Manuela Ribeiro Sanches<\/span><span lang=\"pt-PT\"><b>,\u00a0<\/b><\/span><span lang=\"pt-PT\">\u201c<\/span>Lisboa p\u00f3s-colonial e outras fortalezas na modernidade<span lang=\"pt-PT\">,\u201d in M\u00f3nica de Miranda e Paul Goodwin, Lisboa: Direc\u00e7\u00e3o-Geral das Artes, 2009, pp. 26-28.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote3\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote3anc\" name=\"sdendnote3sym\">iii<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"pt-PT\">Diana Andringa,\u00a0<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>Era uma vez um arrast\u00e3o.<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">\u00a02005. In:\u00a0<\/span><u><a href=\"https:\/\/www.dailymotion.com\/video\/xe4px\">https:\/\/www.dailymotion.com\/video\/xe4px<\/a><\/u><span lang=\"pt-PT\">. Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote4\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote4anc\" name=\"sdendnote4sym\">iv<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<u><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2019\/01\/21\/sociedade\/noticia\/tensao-baixa-lisboa-apos-protesto-moradores-bairro-jamaica-1858814\">https:\/\/www.publico.pt\/2019\/01\/21\/sociedade\/noticia\/tensao-baixa-lisboa-apos-protesto-moradores-bairro-jamaica-1858814<\/a><\/u><span lang=\"pt-PT\">. Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote5\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote5anc\" name=\"sdendnote5sym\">v<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<u><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/pais\/psp-e-movimentos-antirracistas-voltam-a-medir-forcas-na-avenida-11772803.html\">https:\/\/www.dn.pt\/pais\/psp-e-movimentos-antirracistas-voltam-a-medir-forcas-na-avenida-11772803.html<\/a><\/u><span lang=\"pt-PT\">. Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote6\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote6anc\" name=\"sdendnote6sym\">vi<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<u><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/02\/03\/sociedade\/noticia\/claudia-simoes-entrou-urgencias-face-deformada-hematomas-extensos-relatorio-1902741\">https:\/\/www.publico.pt\/2020\/02\/03\/sociedade\/noticia\/claudia-simoes-entrou-urgencias-face-deformada-hematomas-extensos-relatorio-1902741<\/a><\/u><span lang=\"pt-PT\">. Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote7\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote7anc\" name=\"sdendnote7sym\">vii<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<u><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/02\/03\/sociedade\/noticia\/novo-diretor-psp-nao-viu-qualquer-infraccao-video-detencao-claudia-simoes-1902758\">https:\/\/www.publico.pt\/2020\/02\/03\/sociedade\/noticia\/novo-diretor-psp-nao-viu-qualquer-infraccao-video-detencao-claudia-simoes-1902758<\/a><\/u><span lang=\"pt-PT\">.\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\">Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote8\"><p><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote8anc\" name=\"sdendnote8sym\">viii<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"en-US\">Eric Hobsbawn, Terence O: Ranger,\u00a0<\/span><span lang=\"en-US\"><i>The Invention of Tradition<\/i><\/span><span lang=\"en-US\">,\u00a0<\/span>Cambridge [Cambridgeshire]; New York: Cambridge University Press, 1983.<\/p><\/div><div id=\"sdendnote9\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote9anc\" name=\"sdendnote9sym\">ix<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"de-DE\">Walter Benjamin, \u201eEin Au\u00dfenseiter macht sich bemerkbar,\u201c in\u00a0<\/span><span lang=\"de-DE\"><i>op. cit.<\/i><\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote10\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote10anc\" name=\"sdendnote10sym\">x<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/arquivo\/<\/p><\/div><div id=\"sdendnote11\"><p><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote11anc\" name=\"sdendnote11sym\">xi<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"de-DE\">Idem, \u201eCharles Baudelaire, Ein Lyriker im Zeitalter des Hochkapitalismus,\u201c in\u00a0<\/span><span lang=\"de-DE\"><i>Gesammelte Schriften<\/i><\/span><span lang=\"de-DE\">. Bd. I, 2. Abhandlungen. Hrsg. von Rolf Tiedemann und Hermann\u00a0<\/span>Schweppenh\u00e4user<span lang=\"de-DE\">, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1991, pp. 509-90, aqui, pp. 610-11.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote12\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote12anc\" name=\"sdendnote12sym\">xii<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"de-DE\">Idem, \u201eDenkbilder\u201c, in\u00a0<\/span><span lang=\"de-DE\"><i>Gesammelte Schriften<\/i><\/span><span lang=\"de-DE\">. Band IV.1, Kleine Prosa. Baudelaire \u00dcbertragungen. Hrsg. Tilmann Rexroth, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1991, pp. 305-438, aqui, p. 401.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote13\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote13anc\" name=\"sdendnote13sym\">xiii<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"de-DE\">Idem, \u201cDer Sammler\u201c, in\u00a0<\/span><span lang=\"de-DE\"><i>Gesammelte Schriften<\/i><\/span><span lang=\"de-DE\">. Band V.I, Das Passagenwerk. Hrsg. Rolf Tiedemann, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1991, pp. 269-280.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote14\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote14anc\" name=\"sdendnote14sym\">xiv<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"de-DE\">Walter Benjamin, \u201eEin Au\u00dfenseiter macht sich bemerkbar,\u201c in\u00a0<\/span><span lang=\"de-DE\"><i>op. cit.\u00a0<\/i><\/span><span lang=\"de-DE\">p. 225.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote15\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote15anc\" name=\"sdendnote15sym\">xv<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"de-DE\">Idem, \u201eDer Sammler\u201c, in\u00a0<\/span><span lang=\"de-DE\"><i>op.cit<\/i><\/span><span lang=\"de-DE\">, p. 272.<\/span><\/p><\/div><div id=\"sdendnote16\"><p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/textos\/#sdendnote16anc\" name=\"sdendnote16sym\">xvi<\/a><sup>\u0002<\/sup>\u00a0<span lang=\"de-DE\">Idem, \u201cCharles Baudelaire, Ein Lyriker im Zeitalter des Hochkapitalismus,\u201c in\u00a0<\/span><span lang=\"de-DE\"><i>op. cit.<\/i><\/span><span lang=\"de-DE\">, p. 646.<\/span><\/p><\/div><\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-accordion-item\">\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-title-9057\" class=\"elementor-tab-title\" data-tab=\"7\" role=\"button\" aria-controls=\"elementor-tab-content-9057\" aria-expanded=\"false\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon elementor-accordion-icon-left\" aria-hidden=\"true\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-closed\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-plus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H272V64c0-17.67-14.33-32-32-32h-32c-17.67 0-32 14.33-32 32v144H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h144v144c0 17.67 14.33 32 32 32h32c17.67 0 32-14.33 32-32V304h144c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-accordion-icon-opened\"><svg class=\"e-font-icon-svg e-fas-minus\" viewBox=\"0 0 448 512\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><path d=\"M416 208H32c-17.67 0-32 14.33-32 32v32c0 17.67 14.33 32 32 32h384c17.67 0 32-14.33 32-32v-32c0-17.67-14.33-32-32-32z\"><\/path><\/svg><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a class=\"elementor-accordion-title\" tabindex=\"0\">No museu do meu passado<\/a>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<div id=\"elementor-tab-content-9057\" class=\"elementor-tab-content elementor-clearfix\" data-tab=\"7\" role=\"region\" aria-labelledby=\"elementor-tab-title-9057\"><p><strong>No museu do meu passado<\/strong><\/p><p>raquellima, 04\/05\/2020<\/p><p>\u00a0<\/p><p>J\u00e1 n\u00e3o me recordo ao certo da minha miss\u00e3o naquele bairro, mas a minha exist\u00eancia ali respondia a algum prop\u00f3sito, talvez at\u00e9 profissional. Ao mesmo tempo, a familiaridade do lugar era imensa e sentia-me em casa. A certa altura, estavam crian\u00e7as a jogar \u00e0 bola. Crian\u00e7as negras, descal\u00e7as e felizes. Produziam, enquanto jogavam, aquele ru\u00eddo impercet\u00edvel entre conversas, gritos e gargalhadas. Tentei ladear o campo enquanto atravessava para n\u00e3o distrair a anima\u00e7\u00e3o do jogo, e quando vi uma proje\u00e7\u00e3o direta de luz solar na fachada de um pr\u00e9dio pensei \u201c\u00e9 a\u00ed que me vou sentar\u201d.<\/p><p>N\u00e3o era apenas a fachada de um pr\u00e9dio, era uma esp\u00e9cie de canto. Um lado do pr\u00e9dio com uma pequena profundidade para me permitir sentar no ch\u00e3o e ficar cercada por tr\u00eas paredes, apenas com a vista frontal recortada por duas linhas verticais. Eu continuava a observar as crian\u00e7as enquanto desfrutava do sol na cara, atrav\u00e9s de um recorte dos seus movimentos quando cruzavam o meu horizonte.<\/p><p>Mais tarde compreendi que outras crian\u00e7as brincavam \u00e0s escondidas e isso despertou em mim a sensa\u00e7\u00e3o de fazer parte do jogo j\u00e1 que, desde aquele canto, tamb\u00e9m estava escondida. E foi essa sensa\u00e7\u00e3o v\u00edvida e confort\u00e1vel de ser crian\u00e7a que desencadeou a viagem at\u00e9 ao museu do meu passado.<\/p><p>Fiquei pequena de novo. Virei crian\u00e7a. E gradualmente aquele lugar tornou-se cada vez mais reconhec\u00edvel: era a nossa antiga casa na Quinta da Serra, mas emparedada e transformada em museu. N\u00f3s er\u00e1mos duas crian\u00e7as \u2013 talvez irm\u00e3s, n\u00e3o estou certa \u2013 e est\u00e1vamos a ser guiadas por algu\u00e9m nessa visita. Talvez fosse a nossa m\u00e3e, mas tamb\u00e9m n\u00e3o tenho a certeza, apenas a sensa\u00e7\u00e3o de uma presen\u00e7a maternal, adulta, familiar e protetora que nos levava a esse passado, a reconhecer o local onde t\u00ednhamos vivido parte da nossa inf\u00e2ncia, quando ao mesmo tempo j\u00e1 n\u00e3o habit\u00e1vamos aquela casa h\u00e1 muito tempo. Coisas de sonhos\u2026<\/p><p>\u00cdamos relatando, freneticamente, \u00e0 nossa \u201cm\u00e3e\u201d o qu\u00e3o bem conhec\u00edamos os cantos daquele lugar. Lembro-me de subir tr\u00eas degraus que davam para uma porta interditada e dizer \u201cSim! N\u00f3s sub\u00edamos e entr\u00e1vamos por aqui!\u201d. Estava a ser surpreendente revisitar esse nosso lugar, desengavetar est\u00edmulos, gestos e mem\u00f3rias.<\/p><p>At\u00e9 que repar\u00e1mos que n\u00e3o \u00e9ramos as \u00fanicas pessoas no espa\u00e7o. Aquele momento j\u00e1 n\u00e3o era uma explora\u00e7\u00e3o \u00edntima de um s\u00edtio que nos pertenceu ou ao qual pertencemos, mas sim um museu com vitrines, mesas de exposi\u00e7\u00e3o e pessoas a circular pela divis\u00e3o onde est\u00e1vamos. No centro daquele p\u00e1tio museol\u00f3gico, escancarado a c\u00e9u aberto, estava uma mesa enorme com um tampo de vidro que descrevia a hist\u00f3ria do lugar. Por perto, circulava um guia que ia explicando a alguns visitantes, de forma indistinta, a biografia das pe\u00e7as. Foi muito assustador compreender que a nossa vida privada e infantil se tinha transformado num museu, ainda mais sabendo o que tinha acontecido naquela casa, com aquela vassoura cor de rosa\u2026<\/p><p>Aproximei-me, timidamente, da mesa. A \u201cm\u00e3e\u201d que nos guiava tentava acompanhar-nos com o seu corpo presente. Tentava mediar o que v\u00edamos. E qual foi o meu espanto quando vi que existiam mais vidas do que a nossa vida naquele museu. At\u00e9 uma maquete em madeira de um barco enorme dentro do expositor, porque aparentemente tinham descoberto o original enterrado naquela localiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o compreendi exatamente essa parte da narrativa, mas era a que mais merecia destaque no que se queria contar com aquela exposi\u00e7\u00e3o. Era algo maior que tornava o espa\u00e7o digno de ser apresentado a um p\u00fablico.<\/p><p>Ainda assim, eu continuava curiosa e ansiosa para saber se a nossa vassoura cor de rosa tinha sido considerada na exposi\u00e7\u00e3o, numa mistura de vontade de reconhecimento da sua import\u00e2ncia e receio da explana\u00e7\u00e3o do seu significado. E foi ent\u00e3o que a \u201cm\u00e3e\u201d apontou para a fotografia, reservada a um canto da mesa, sem moldura, triste\u2026 catalogada seriamente com legendas e explica\u00e7\u00f5es, mas como uma mera curiosidade, um detalhe, at\u00e9 certo ponto insignificante, perante a grandeza do evento. Eu fiz quest\u00e3o de transgredir as regras do museu e agarrar na foto, observ\u00e1-la bem de perto, em todo o seu esplendor.<\/p><p>\u00a0<\/p><p>Acordei desse sonho a chorar compulsivamente. Dos choros mais honestos que j\u00e1 solucei. Mas curto, como sempre. Rapidamente recalcado e oprimido quando come\u00e7a a fluir autonomamente. Ao contr\u00e1rio de todas as outras vezes em que interrompi o meu choro, desta vez deu para sentir a densidade que ele carrega no meu peito. Deu para visualizar a bola imensa que sobe lentamente enchendo o meu t\u00f3rax, a caminho da garganta. Como o p\u00e1ssaro azul de Bukowski ou como a minha vassoura cor de rosa\u2026 seja como for eu engoli, rapidamente, essa subida. Mas desta vez com a certeza de que algo existe e ter\u00e1 de sair mais tarde ou mais cedo e que, enquanto estiver l\u00e1\/c\u00e1 dentro vai sempre pesar, e far\u00e1 sempre estragos. E talvez o maior estrago seja essa hesita\u00e7\u00e3o entre escrever l\u00e1 ou c\u00e1, a minha constante compulsividade em exteriorizar-me, viver fora do meu corpo, ou fora das minhas emo\u00e7\u00f5es mais profundas.<\/p><p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que chamei a este caderno \u201clivro dos sonhos ou da auto psican\u00e1lise\u201d, porque existem sonhos que s\u00f3 podem ser arquitetados para nos ajudar a compreender quem somos e onde estamos.<\/p><p>E talvez o museu represente a hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia, sem tempo e espa\u00e7o lineares, apenas um museu amorfo onde todos os instantes se encontram. Gosto de acreditar que sim, que seja essa a met\u00e1fora por detr\u00e1s do meu sonho, enquanto volto a chorar, desta vez desmesuradamente. Choro porque as recorda\u00e7\u00f5es em torno da vassoura cor de rosa dizem-me que n\u00e3o tive uma inf\u00e2ncia simples e sinto-me culpada at\u00e9 hoje pelas trag\u00e9dias que n\u00e3o cometi. Choro porque essa crian\u00e7a nunca se curou, nunca se sentiu amada e nunca soube reconhecer o amor. Sempre acreditou que o amor se encontrava nos outros e na forma como observam e visitam a sua casa, o seu museu. Mas nunca soube se amar. Nunca deixou de ser uma bola densa que sobe pelo peito at\u00e9 \u00e0 garganta do mundo. Uma vassoura cor de rosa que tenta limpar a poeira e a sujidade pelo caminho.<\/p><p>N\u00e3o sei porqu\u00ea que este sonho s\u00f3 chega agora. Talvez finalmente esteja a aprender a amar-me.<\/p><p>Finalmente.<\/p><p>Cheguei.<\/p><\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-56e09343 sc_layouts_hide_on_wide sc_layouts_hide_on_desktop sc_layouts_hide_on_notebook sc_layouts_hide_on_tablet sc_layouts_hide_on_mobile e-flex e-con-boxed sc_inner_width_none sc_layouts_column_icons_position_left e-con e-parent\" data-id=\"56e09343\" data-element_type=\"container\" data-core-v316-plus=\"true\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2db6199e sc_fly_static elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"2db6199e\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t<style>\/*! elementor - v3.20.0 - 26-03-2024 *\/\n.elementor-widget-text-editor.elementor-drop-cap-view-stacked .elementor-drop-cap{background-color:#69727d;color:#fff}.elementor-widget-text-editor.elementor-drop-cap-view-framed .elementor-drop-cap{color:#69727d;border:3px solid;background-color:transparent}.elementor-widget-text-editor:not(.elementor-drop-cap-view-default) .elementor-drop-cap{margin-top:8px}.elementor-widget-text-editor:not(.elementor-drop-cap-view-default) .elementor-drop-cap-letter{width:1em;height:1em}.elementor-widget-text-editor .elementor-drop-cap{float:left;text-align:center;line-height:1;font-size:50px}.elementor-widget-text-editor .elementor-drop-cap-letter{display:inline-block}<\/style>\t\t\t\t[vc_row][vc_column][vc_tta_tour][vc_tta_section title=&#8221;Mam\u00e3 Morte &#8211; Djaimilia Pereira de Almeida&#8221; tab_id=&#8221;1577371754026-08e96aa5-e9db&#8221;][vc_column_text]Mam\u00e3 Morte\r\nDjaimilia Pereira de Almeida\r\n\r\n&nbsp;\r\n\r\nMam\u00e3 morte, estou aqui, cantou Cruzado em Kimbundu, passando a porta de casa. N\u00e3o se dirigia a Deus, ao seu pai nem \u00e0 sua m\u00e3e, mortos h\u00e1 muito. Chegara o seu momento, por absurdo que fosse, olhando em volta: o casebre ao fundo de uma alameda sem \u00e1rvores, o sobretudo ru\u00e7o, esfomeado, taciturno. Mas mesmo ali, onde nem eucaliptos medravam, a morte cantou e, sabendo-se cantado, ele assentiu.\r\nO filho desconhecia o canto de morte, que antecedia os \u00faltimos dias. N\u00e3o sabia que ela queria o pai sozinho, que reclamaria a solid\u00e3o de Cruzado sem contemplar amor ou amizade, que na sua barca n\u00e3o cabiam mulher nem filhos. A morte queria os homens como a vida os tinha encontrado, despidos e leves, anteriores aos bolsos. Mam\u00e3 Morte, entoava Cruzado enquanto abria e fechava gavetas \u00e0 procura de f\u00f3sforos.\r\nOu o pai cantava no banho e o filho escutava-o do outro lado da porta, trancada por dentro.\r\nA can\u00e7\u00e3o cantou nele, e logo Cruzado se fez fechado, a sua cara mudou aos poucos, o cabelo perdeu a cor, os olhos, as fei\u00e7\u00f5es se apagaram.\r\nDespedia-se dos sonhos, temia tombar no meio da rua.\r\nMam\u00e3 morte, estou aqui, cantava, andando entre os vivos, vendo a cidade pela \u00faltima vez. Nem dor nem alarme. Nem tristeza nem alegria. N\u00e3o antecipava como seriam as suas ex\u00e9quias, n\u00e3o se sentia resolvido, justificado, amargurado. Tamb\u00e9m n\u00e3o tinha medo, nem sentia que precisasse de coragem. A morte cantara nele.\r\n\r\n*\r\n\r\nChovia. Est\u00e1vamos presos no tr\u00e2nsito, \u00e0 sa\u00edda de Lisboa. \u201cDeve ter havido um acidente\u201d, coment\u00e1mos. Seriam sete da tarde. Na faixa da esquerda, um autocarro parara no meio da via. \u201cSer\u00e1 uma avaria?\u201d O primeiro homem cruzou a estrada pela direita, atirando-se para o meio dos carros em passo de corrida. Vinha das obras: bon\u00e9 na cabe\u00e7a, cal\u00e7as molhadas, botas sujas de tinta, saco a tiracolo. N\u00e3o demor\u00e1mos mais do que alguns segundos a entender que o autocarro parara no meio da estrada para o apanhar, embora n\u00e3o houvesse ali perto nenhuma paragem. N\u00e3o era tr\u00e2nsito. Apenas o caos causado nas coisas por um co\u00e1gulo.\r\nO homem bateu \u00e0 porta do autocarro, sorriu, a porta abriu, o jovem motorista acenou-lhe, e ele desapareceu dentro do ve\u00edculo. O tr\u00e2nsito fluiu.\r\n\r\n*\r\n\r\n\u00c0 minha janela, nestes dias de Outono, um grupo de jardineiros trata de um jardim. O segundo homem, rapaz de pele negra quase azul, distingue-se do resto do grupo, seis ou sete homens e mulheres jovens, com poucos dentes e rosto sofrido. Ou\u00e7o-o cantar toda a tarde, enquanto corta relva, desenhando diagonais num relvado aqui perto. Canta um espiritual cont\u00ednuo numa l\u00edngua desconhecida, de pulm\u00f5es abertos, uma can\u00e7\u00e3o de trabalho. O ru\u00eddo do cortador de relva serve-lhe de ritmo. N\u00e3o sei de onde veio e nunca me d\u00e1 os bons-dias, quando nos cruzamos na rua. O seu canto \u00e9 ancestral, vem do est\u00f4mago. Pergunto-me onde o aprendeu, quem lho ter\u00e1 ensinado, decerto muito longe daqui, noutro continente. Hoje n\u00e3o \u00e9 um escravo e talvez nunca tenha sido. Ganha o seu sal\u00e1rio, almo\u00e7a \u00e0 sombra de um choupo, enrola tabaco antes de pegar ao servi\u00e7o. Canta como cantam as ceifeiras, os vindimeiros, os pescadores, os apanhadores de algod\u00e3o, de caf\u00e9, de am\u00eaijoa.\r\nManuel Gusm\u00e3o escreveu um verso que me lembra estes dois homens:\r\n\r\n\u201cContra todas as evid\u00eancias em contr\u00e1rio, a alegria.\u201d\r\n\r\nNingu\u00e9m ensina \u2014 nem se imagina como \u00e9 \u00e1rduo deixarmo-nos ir pela m\u00e3o da alegria. Eu costumava pensar nela como um fantasma que se aborrece de assombrar algumas almas e as abandona. Agora penso que anda no nosso encal\u00e7o, enquanto a procuramos com uma lupa, atentos a carreiros de formigas. Penso nela, hoje, como uma sombra brincalhona, que gosta de nos ver atrapalhados.\r\n\r\n*\r\n\r\nUma madrugada, Cruzado saiu. N\u00e3o levou carteira nem documentos, apenas trocos para o autocarro. N\u00e3o precisou de esfor\u00e7o. Encostou-se \u00e0s costas de um homem metido consigo. Quando o autocarro partiu, atrav\u00e9s dos vidros embaciados, j\u00e1 a cidade o engolira entre os vultos. Mam\u00e3 morte, estou aqui, cantou dentro da sua cabe\u00e7a.\r\nA cidade assomava do nevoeiro: as fachadas engavetadas entre pr\u00e9-fabricados que eram agora restaurantes franceses, farm\u00e1cias que tinham sido tascas, supermercados que um dia foram sapateiros, tudo exibindo um pouco do seu passado, ainda que vestido com novas cores. E nunca mais ningu\u00e9m o viu.[\/vc_column_text][\/vc_tta_section][vc_tta_section title=&#8221;A Cassette de Santa Luzia &#8211; Tvon&#8221; tab_id=&#8221;1577371754057-3b29af63-bef1&#8243;][vc_column_text]<strong>A Cassette de Santa Luzia<\/strong>\r\n\r\nH\u00e1 algum tempo atr\u00e1s na ilha conhecida como Santa Luzia a menina, a quem as cagarras e as tartarugas chamavam Luanda, encontrou uma cassete. Na verdade ela nunca tinha visto uma cassete. N\u00e3o fazia ideia do que aquilo realmente era. Percorreu incont\u00e1veis quil\u00f3metros at\u00e9 chegar a casa do mais antigo habitante da ilha, o querido Matemo, de forma a saber o que tinha em m\u00e3os. L\u00e1 chegada, assobiou.\r\n&#8211; Mas queres o qu\u00ea Filha de S\u00e3o Tom\u00e9 e Filha de Uno? Luanda n\u00e3o respondeu. Estava rosa choque. Como o secular Matemo sabia que era ela apenas pelo assobio? Sabia que tinha ido ao s\u00edtio certo. Ele sabia mesmo o quase tudo.\r\nSentou-se, abriu o saco que trazia a tiracolo e ansiosamente disse: Paizinho Humano da nossa fauna e da nossa flora, podes dizer o que \u00e9 isto que encontrei esta manh\u00e3? Encontrei junto as pedras e n\u00e3o fa\u00e7o ideia do que isto seja. Nunca vi nada igual e fascina me. Impressiona me a forma, as cores, desejo que tenha algum poder. Matemo sorriu e disse encontraste. Encontraste a magia que pode amansar ou rebelar o cora\u00e7\u00e3o dos humanos fora e dentro desta ilha. Luanda se alegrou. Ent\u00e3o existem mais. Ent\u00e3o talvez n\u00e3o ser\u00e1 ela a \u00fanica menina, pensou.\r\nVoltou para casa, a cantarolar o que tinha escutado no aparelho de Matemo. Precisava de um aparelho igual para ouvir dia ap\u00f3s dia o que a m\u00e1gica cassete transmitia. Entrou pela porta dos fundos pois n\u00e3o queria que os pais percebessem que tinha chegado no rebentar da madrugada a casa. A M\u00e3e Uno percebeu mas disse nada. Deixou-a deitar se e aconchegar se nos len\u00e7\u00f3is feitos pela Av\u00f3 Itaparica. E foram v\u00e1rias as noites ignoradas pela M\u00e3e Uno. Ela sabia que n\u00e3o podia impedir a menina filha de encontrar o que ela queria. Apenas orava para que as deusas dos mares a protegessem e que tudo de bom lhe acontecesse no sempre daquele agora. A M\u00e3e Uno sabia que Luanda almejava conhecer mais ilhas. N\u00e3o havia um dia em que n\u00e3o suspirasse essa mudan\u00e7a. Estava visto naquilo que Luanda n\u00e3o via.\r\nDepois das aulas, Luanda sentava-se a beira mar na esperan\u00e7a que o mar lhe oferecesse mais cassetes. Dia ap\u00f3s noite apenas chegava pl\u00e1stico e mais pl\u00e1stico, daquele pl\u00e1stico que asfixiava os seus amiguinhos, a fun\u00e7\u00e3o dela passou a ser protege los dessa invas\u00e3o. Vinham em todas as formas e tamanhos. Ela sentia-se cansada, irritada. Porque \u00e9 que aquelas coisas vinham de longe magoar o que ela conhecia? Adormeceu. Sonhou.\r\nNo sonho de Luanda, surgia uma outra menina igual a ela, quase que podia ser sua g\u00e9mea, pele escura, cabelo crespo, dedos enormes, olhar permanentemente inquisitivo. Olharam-se. N\u00e3o falaram. Deixaram de se olhar. Falaram. A voz dela era igual a voz que ecoava da cassete. Ent\u00e3o, ela falou:\r\n&#8211; O nome \u00e9 Benguela. O meu. J\u00e1 tive tudo e hoje tenho quase tudo. Tenho os meus junto de mim, n\u00e3o tenho tecto. Vejo que tens mar como tecto e areia como ch\u00e3o. Segura bem o teu tecto, agarra-te bem ao teu ch\u00e3o. Olha ao meu redor e n\u00e3o h\u00e1 mais quarto dos meus pais, n\u00e3o mais. N\u00e3o mais quartos dos primos nem da tia. Volto a olhar e h\u00e1 coisas partidas, tantas coisas partidas que parecem becos sem sa\u00eddas. Maior medo que sinto hoje chama-se demoli\u00e7\u00e3o.\r\nOnde anda a minha cama? Gostaria de voltar a minha cama, a minha boneca, a minha fofa boneca com os seus enormes olhos azuis e sem saia, apenas de top e cuecas, como gostaria da nossa normalidade chata. Olho e vejo um pouco de tudo. Vejo o saco verde e branco que a minha m\u00e3e Eguba usava para ir ao gin\u00e1sio. Vejo no escuro da minha mente a bobine onde o meu pai Pr\u00edncipe via e revia imensas vezes o casamento deles. Era um rom\u00e2ntico. Vejo a escova de fatos que a tia Maraj\u00f3 n\u00e3o abandonava por nada. Tinha de ir impec\u00e1vel para a igreja. Olho tamb\u00e9m para a quantidade de cart\u00f5es que ela guardava na carteira. Pode uma pessoa guardar assim bwe cart\u00f5es? O que me rio agora eu ao olhar para os desenhos rupestres que o meu primo Ibo fazia nas aulas de ingl\u00eas.E Ele gostava mesmo de estudar. Penso nele e s\u00f3 vejo ditados, exerc\u00edcios de matem\u00e1tica, at\u00e9 um incentivo para fazer o curso de engenharia. Como me enternece novamente recordar que a minha prima Boavista andava para frente e para tr\u00e1s com a disquete onde guardava as fotos para o seu book. Ela queria bwe ser modelo.Os sonhos demolidos.Vivo saudades, saudades do meu bairro, saudades da minha gente, saudades do meu pequeno imenso mundo. Luanda n\u00e3o acordes, Luanda tu n\u00e3o venhas.\r\nLuanda acordou. Luanda pensou, reuniu os mais velhos, sim continuava a ser uma indiscut\u00edvel verdade: &#8211; todos eram seus mais velhos, e falou lhes da import\u00e2ncia de terem uma ilha limpa, sem pl\u00e1stico, o que se fazer para impedir que os destrua. Pelas cagarras, pelas tartarugas,por eles, por mim.\r\nH\u00e1 n\u00e3o tanto tempo atr\u00e1s assim Luanda se eternizou menina irm\u00e3 das ilhas, gra\u00e7as ao trabalho conjunto de todos habitantes da sua ilha para eliminar o tal pl\u00e1stico homicida e igualmente gra\u00e7as ao som da cassete. A magia da cassete que afinal era o flow e as rimas constru\u00eddas por Benguela. Sonho?Sempre realidade.[\/vc_column_text][\/vc_tta_section][vc_tta_section title=&#8221;Feliz Anivers\u00e1rio \u2013 Yara Monteiro&#8221; tab_id=&#8221;1577373296759-1fbb5b17-71f1&#8243;][vc_column_text]CONTOS DE LISBOA\r\nFeliz Anivers\u00e1rio \u2013 Yara Monteiro\r\n\r\nMira Loures, s\u00e1bado, 1 de setembro de 1990\r\n\r\nAmiga M\u00e1rcia!\r\n\r\nFeliz anivers\u00e1rio!\r\nComo est\u00e1s?\r\nAdoraria estar contigo. Irmos a uma farra, dan\u00e7ar at\u00e9 de manh\u00e3.\r\nNo Rio de Janeiro, tens onde kizombar ou ficas-te pelo \u00abp\u00e9 de samba\u00bb? N\u00e3o fa\u00e7as como eu: trabalho, casa; casa, trabalho.\r\nSaudades da nossa juventude.\r\nA tua \u00faltima carta encheu-me de alegria e orgulho. Se bem que terminares a licenciatura com distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para mim uma surpresa. Sempre foste inteligente e dedicada. Mereceste e bem a bolsa de estudo. Quando terminares os estudos, pensas regressar a Lisboa?\r\nQuem sabe um dia, eu recomece a faculdade. Por agora, os meus estudos deixaram de ser prioridade. N\u00e3o sou prioridade.\r\nA cada m\u00eas, guardo uma ninharia de tost\u00f5es para um amanh\u00e3 dif\u00edcil que se avizinha. Falar-te-ei dele, do amanh\u00e3, daqui a nada; primeiro, contar-te-ei o bel\u00edssimo dia de praia que, hoje, tivemos em fam\u00edlia.\r\nFomos \u00e0 praia porque a crian\u00e7a n\u00e3o pode crescer burra. Tem oito anos e ainda n\u00e3o tinha visto o seu mar lusitano.\r\nDepois do nascimento do Zequinha, sumiu-se-me a coragem e esfarelou-se-me a for\u00e7a para, no meu dia de folga, encarar mais transportes p\u00fablicos, mais filas, mais sacos com comida, mais ladeira, mais do mesmo que tenho durante toda a semana.\r\nO Zequinha n\u00e3o se acanhou com a \u00e1gua gelada, jogou-se a ela sem hesita\u00e7\u00e3o. O Cal\u00f3 juntou-se a ele, n\u00e3o por vontade pr\u00f3pria, mas porque n\u00e3o podia, em frente ao filho, acobardar-se. Todo ele tremia.\r\nTapada com a linda canga de praia que me enviaste, deixe-me estar no areal, a v\u00ea-los brincar. As cores tropicais d\u00e3o-me alento. Obrigada, querida amiga.\r\nNisso tens sorte: apesar de estares longe de todos, o frio n\u00e3o te regela os ossos e trava o pensamento.\r\nPergunto-me se alguma vez me irei habituar ao frio do mar, do inverno e das pessoas. O vento. Tanto vento. At\u00e9 mesmo na praia. Desespera-me.\r\nSe nos visses hoje, dirias que o Cal\u00f3 e eu continuamos apaixonados. Entre n\u00f3s, houve at\u00e9 um gentil tocar de l\u00e1bios, um beijo quente que, em mim, aflorou um t\u00e9nue desejo.\r\nSa\u00edmos da rotina, est\u00e1vamos despreocupados. Pod\u00edamos fingir estarmos de f\u00e9rias, numa praia paradis\u00edaca, distante da vida severa que nos verga as costas, do cansa\u00e7o di\u00e1rio que nos trouxe a dist\u00e2ncia e levou a paix\u00e3o.\r\nH\u00e1 quase dois anos que n\u00e3o nos procuramos. A cama tem servido, apenas, para descansar o corpo. Pouco nos vemos e pouco nos falamos. Vamo-nos mantendo pelo Zequinha, o que \u00e9 uma boa raz\u00e3o, uma raz\u00e3o nobre, diria.\r\nMetade da semana, o Cal\u00f3 n\u00e3o vem dormir a casa. Diz que fica na obra para n\u00e3o ter de acordar t\u00e3o cedo. \u00c9 menos cansativo. Finjo desconhecer quem s\u00e3o os vizinhos que com ele trabalham na obra mas todas as noites regressam ao bairro. V\u00eam a casa marcar o ponto e dormir com as mulheres. Fecho os olhos e tapo o nariz para n\u00e3o sentir o perfume de mulher nas suas t-shirts interiores. O Cal\u00f3 devia lavar a roupa onde suja a minha honra.\r\nEnfim. Tolero.\r\nPor enquanto, c\u00e1 em casa, ainda n\u00e3o faltou com dinheiro. Assim que recebe vai de imediato pagar a conta da mercearia. Minha amiga, homem n\u00e3o \u00e9 de se fiar, e o \u00abamanh\u00e3 dif\u00edcil que se avizinha\u00bb pode bem chegar como uma forte rajada de vento. Por isso o pouco dinheiro que sobra n\u00e3o pode ir para propinas de estudante.\r\nTu como andas de namoros? Ainda com o taxista ou j\u00e1 o despachaste?\r\nEspero que gostes do vestido que te envio, fui eu que o fiz. \u00abDesigned by Aurora\u00bb, quem sabe um dia! Por ora, \u00e9 mais um sonho que fica na gaveta. Junto aos outros. Todos carcomidos pelas tra\u00e7as deste meu quotidiano.\r\n\u00abComo nuvens pelo c\u00e9u\/Passam os sonhos por mim\u00bb, escreveu o poeta.\r\nA minha vida ir\u00e1 melhorar. Tenho a certeza. Foi s\u00f3 um desabafo.\r\nN\u00e3o sei se j\u00e1 sabes, mas a Viviane regressou a Luanda. Aguentou aqui um ano. Diz-me que, para acordar \u00e0s quatro da manh\u00e3, passar frio, limpar a porcaria dos outros e ser mal paga, prefere voltar para a poeira. Parece que tem uma ideia genial para um neg\u00f3cio.\r\nD\u00e1 not\u00edcias.\r\n\r\nUm forte abra\u00e7o desta tua amiga que muito te estima,\r\nAurora Oliveira\r\n\r\nP. S.: Esperava escrever-te esta carta com maior anteced\u00eancia. Desculpa-me. Sei que sim, que estou por ti desculpada. N\u00e3o tive vagar para o fazer antes.\r\n\r\nMira Loures, domingo, 22 de Agosto de 1993\r\n\r\nQuerida mana,\r\n\r\nDaqui a quinze dias, celebrar\u00e1s o teu anivers\u00e1rio.\r\nJunto a esta carta, segue um outro envelope. Abre-o, apenas, depois de apagares as tuas cinquenta e cinco velas.\r\nDecantei a saudade para que n\u00e3o chore a escrever-te estas palavras. O teu colo de irm\u00e3 mais velha faz-me muita falta. Quando os nossos pais se foram, tomaste o seu lugar. Eras t\u00e3o nova. Tanto do que abdicaste por mim e pelo L\u00e9u. Que nunca te tragamos tristezas.\r\nComo tens passado? A perna est\u00e1 melhor?\r\nEsta carta, os medicamentos e os cremes que pediste seguem com a Paula hospedeira, amiga da minha vizinha do lado, a dona Bia. A Paula \u00e9 porreira. Disponibilizou-se logo para, sempre que necess\u00e1rio, passar a levantar a medica\u00e7\u00e3o. Em conversa, descobrimos que \u00e9 prima do alfaiate Pereira, o que trabalhava na Casa York. O mundo \u00e9 mesmo pequeno.\r\nSei-te apoquentada com a minha separa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 porque estares assim. O Cal\u00f3 e eu and\u00e1vamo-nos a arrastar. Karlene, minha irm\u00e3, chegou a um ponto que j\u00e1 n\u00e3o dava mais.\r\nTolerava as desculpas para dormir fora de casa. Verdade seja dita, que a mim tanto me dava. Os problemas reais come\u00e7aram quando os \u00absupostos\u00bb atrasos de pagamento do sal\u00e1rio semanal passaram a ser recorrentes. Escrevi \u00absupostos\u00bb porque vim a descobrir que era dinheiro que gastava na farra e a comprar material para remodelar a casa da s\u00e3o-tomense que amantizou.\r\nIsso n\u00e3o lhe podia admitir: tirar do conforto do nosso filho. Viv\u00edamos aqui \u201c\u00f3 tio, \u00f3 tio\u201d, porque n\u00e3o havia dinheiro para remendar o telhado e a canaliza\u00e7\u00e3o.\r\nJ\u00e1 era piada no bairro. Ao passar, calavam-se, para depois, atr\u00e1s de mim, recome\u00e7arem a cochichar.\r\nQuem me abriu os olhos foi a dona Bia. \u00c9 gente s\u00e9ria, devota a Deus. Alertou-me.\r\nFui, literalmente, apanhar o Cal\u00f3 com a m\u00e3o na massa (de cimento) na casa da outra.\r\nJ\u00e1 n\u00e3o o deixei regressar. Foi o melhor que fiz: p\u00f4-lo na rua.\r\nSe ele, agora, se queixa aos seus parentes na banda, minha irm\u00e3 responde s\u00f3: \u00abTivesse ju\u00edzo.\u00bb\r\nDando cr\u00e9dito a quem a ele tem direito: at\u00e9 agora, o Cal\u00f3 continua a ser um bom pai. Aos domingos, leva o Zequinha a passear e ajuda nas despesas. Ainda no outro dia, comprou um par de t\u00e9nis pretos para o filho. N\u00e3o \u00e9 como tantos outros pais que desaparecem.\r\nO mi\u00fado sente a sua falta. \u00c9 normal. Ser\u00e1 assim at\u00e9 que se habitue \u00e0 aus\u00eancia do pai. Habituamo-nos a tudo.\r\nAgora dorme comigo e, \u00e0 noite, n\u00e3o larga o macaco rosa que o pai lhe ofereceu. Eu tento compensar no que posso: dando mais amor e passando todo o tempo livre que consigo com ele. O teu sobrinho \u00e9 um \u00f3timo menino. Na escola, continua a tirar boas notas e prefere os livros \u00e0s ruas do bairro.\r\nA semana passada, o Cal\u00f3 disse-me estar a considerar ir trabalhar para a Holanda. Muitos trabalhadores das obras t\u00eam para l\u00e1 emigrado. Parece que a vida, por l\u00e1, corre melhor do que aqui. Ganham bem mais, t\u00eam contrato de trabalho e conseguem ter os pap\u00e9is em dia.\r\nPara dizer a verdade, senti que me pedia opini\u00e3o ou mesmo autoriza\u00e7\u00e3o, pois deixou-se estar em sil\u00eancio, com o olhar preso ao ch\u00e3o. Pedi-lhe que n\u00e3o se esquecesse do filho. N\u00e3o me competia opinar mais sobre a sua vida. Em seguida, p\u00f4s-se a falar sem parar.\r\nQuerida irm\u00e3, comigo e com o Zequinha, n\u00e3o tens com o que te preocupar. \u00c9 como sempre disseste: \u00abEm casa de mulher pobre n\u00e3o se passa fome, nem se vive na merda.\u00bb Bons h\u00e1bitos, os que nos transmitistes. Dou sempre um jeito.\r\nA dona Bia tem sido de grande ajuda. Sempre que preciso trabalhar horas extras, fica com o Zequinha.\r\nOs vizinhos do bairro s\u00e3o a fam\u00edlia que tenho aqui. Desde que estou sozinha, muito me t\u00eam apoiado. A minha patroa, tamb\u00e9m. N\u00e3o h\u00e1 sexta-feira que n\u00e3o me avie com \u00abmimos para o seu menino\u00bb e rezas aos c\u00e9us. Coloca tanta coisa dentro da minha carteira que, j\u00e1 por duas vezes, as al\u00e7as rebentaram. \u00c9 uma carteira grande, d\u00e1-me muito jeito. J\u00e1 n\u00e3o aguentava andar com sacos e saquinhos. Por pouco n\u00e3o a estraguei completamente. Cometi o erro de a limpar com lix\u00edvia, e o couro, que era branco, amarelou.\r\nDevagar, devagarinho, planeio come\u00e7ar a melhorar a nossa casa. Fui aumentada. A custo, que a filha da dona Isabel \u00e9 sovina, n\u00e3o sendo ela quem me paga o ordenado.\r\nN\u00e3o te preocupes connosco. Estamos bem. Podemos sonhar. N\u00e3o temos muita coisa, mas n\u00e3o nos falta sa\u00fade, e \u00e9 nossa a melhor vista sobre Loures. Um horizonte sem fim, com colinas verdejantes. Aqui e ali, terrenos cheios de \u00e1rvores de frutos e urbaniza\u00e7\u00f5es a salpicarem a terra.\r\nEm breve, terei duas terras\u2026\r\nO advogado acha que, no m\u00e1ximo at\u00e9 ao final do ano, terei a nacionalidade portuguesa. Depois, com a mesma certid\u00e3o de nascimento do bisav\u00f4 Oliveira, podemos come\u00e7ar a tratar da tua nacionalidade e da do L\u00e9u. O Zequinha, apesar de aqui ter nascido, n\u00e3o \u00e9 portugu\u00eas. O Dr. On\u00e9simo explicou-me ser o sangue mais forte que o solo, e que o melhor mesmo \u00e9 quando ambos se misturam na na\u00e7\u00e3o. Disse-lhe que, dentro de Portugal, existe uma \u00c1frica, existem negros portugueses.\r\nSenti-me embara\u00e7ada, achei que n\u00e3o devia ter feito aquela afirma\u00e7\u00e3o.\r\nSem ar de censura, perguntou-me se estaria dispon\u00edvel para trabalhar como rececionista ou secret\u00e1ria. Havia reparado na qualidade das minhas cartas a ele dirigidas. Perguntou-me o que tinha estudado. Surpreendeu-se por eu ter um semestre completo de Direito.\r\nAguardo, mas sem ilus\u00f5es.\r\nO mano L\u00e9u escreveu-me. Pergunta-me se o Fidel pode vir e ficar comigo. \u00c9 \u00f3bvio que a porta da minha casa est\u00e1 aberta ao meu sobrinho. Estando ele em Angola, mais dia, menos dia, ser\u00e1 recrutado para as For\u00e7as Armadas. \u00c9 melhor que venha o quanto antes. Sen\u00e3o depois n\u00e3o consegue sair do pa\u00eds. O que achas? Se concordares, avancem j\u00e1 com os preparativos, mas avisa o L\u00e9u que deve enviar um dinheiro. Aqui, eu darei um jeito com tudo o resto.\r\nFalando ainda da nossa terra\u2026\r\nCont\u00e1vamos todos com a paz. Por quantos anos mais os chefes ir\u00e3o continuar \u00e0s turras? Estive com a irm\u00e3 da dona Alberta da Vila Alice. Contou-me que perdeu a pouca fam\u00edlia que tinha no Huambo. Os que haviam sobrevivido \u00e0 Guerra dos 55 dias n\u00e3o resistiram \u00e0 caminhada at\u00e9 Benguela. Um horror.\r\nPor isso, n\u00e3o te preocupes, minha irm\u00e3. Aqui estamos melhor.\r\nO p\u00e9 de abacate pegou muito bem. Plantei-o perto da figueira e protegido do vento.\r\nVais adorar a surpresa que o Zequinha e eu te enviamos.\r\nLembra-te de que te amo muito e est\u00e1s sempre comigo no meu cora\u00e7\u00e3o.\r\nAguardo not\u00edcias.\r\n\r\nUm abra\u00e7o apertado, que te rodeie com o nosso amor.\r\nAurora\r\n\r\nLisboa, sexta-feira, 26 de setembro de 1997\r\n\r\nCamba Viviane!\r\n\r\nFeliz anivers\u00e1rio.\r\nOs parab\u00e9ns seguem atrasados, mas tenho a certeza de que ser\u00e3o recebidos com alegria.\r\nComo est\u00e1s? As filhotas? Os neg\u00f3cios? S\u00e3o muitas perguntas, eu sei. A culpa \u00e9 tua, que nunca mais deste not\u00edcias. Agora \u00e9s V.I.P.\r\nA vida floresce. Com alguns espinhos, mas poucos.\r\nVamos \u00e0s novidades:\r\nComecei a trabalhar num escrit\u00f3rio de advogados, como rececionista. N\u00e3o que tenha abandonado a dona Isabel. Foi sempre t\u00e3o boa para mim. Um drama quando lhe disse que ia parar de fazer limpezas.\r\nL\u00e1 me convenceu a fazer umas horas tr\u00eas vezes por semana. O dinheiro extra tamb\u00e9m ajuda.\r\nA tua ex-patroa continua insuport\u00e1vel. Ainda hoje, n\u00e3o entendo como o ventre da dona Isabel gerou aquele diabinho.\r\nDepois destes anos todos, finge n\u00e3o saber o meu nome. Se n\u00e3o fosse pelo dinheiro e pela velha, j\u00e1 tinha deixado aquela casa. Continua a referir-se a mim como \u00aba coisa\u00bb. Oi\u00e7o-a enquanto fala com a dona Isabel, que lhe responde \u00e0 altura: \u00abA coisa tem nome. Chama-se Aurora. Repita: Aurora. Grande coisa \u00e9 que voc\u00ea me saiu.\u00bb\r\nA pedante ainda atreve-se a responder alto para que eu a oi\u00e7a: \u00ab\u00d3 m\u00e3e! Elas parecem-me todas iguais.\u00bb\r\nRecuso-me a mostrar-lhe os dentes. Apetece-me responder-lhe, mas calo o bico. Quem precisa cala.\r\nNo outro dia, foi muito engra\u00e7ado. A filha l\u00e1 a conseguiu convencer a desfazer-se das rendas, das revistas e outras tralhas que est\u00e3o no quartinho. Estive quase um s\u00e1bado inteiro para cima e para baixo a carregar sacos para o lixo, e a dona Isabel sempre pendurada \u00e0 janela. Perguntei-lhe a raz\u00e3o, ao que me respondeu: \u00abEst\u00e1s a esvaziar-me a casa. N\u00e3o quero que a vizinhan\u00e7a pense que eu morri.\u00bb\r\n\r\nEstou com namorado. O Caetano \u00e9 mais novo. N\u00e3o me perguntes a diferen\u00e7a de idades, porque n\u00e3o digo. Aconteceu sem que previsse. Ele \u00e9 daqui do bairro e, quando andava \u00e0 procura de algu\u00e9m para remodelar a casa ele foi-me recomendado pela dona Bia.\r\n\u00c9 bastante habilidoso com as m\u00e3os. Quando vir\u00e1s a Portugal?\r\nN\u00e3o reconhecer\u00e1s a minha casa. O Caetano, substituiu o oleado castanho que tapava o ch\u00e3o, por tijoleira branca. A cozinha agora est\u00e1 forrada com elegantes azulejos brancos e azuis. A canaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 nova e o telhado est\u00e1 arranjado. Fez tudo com as sobras de material de uma obra em que trabalhava em Sintra. Um luxo.\r\nDa primeira vez que o Caetano foi l\u00e1 a casa tirar as medidas, demorou-se desnecessariamente. Ia tirando as medidas, tamb\u00e9m a mim, confessou mais tarde. Ele \u00e9 muito divertido. Leva-me v\u00e1rias vezes a dan\u00e7ar a Lisboa, prepara o melhor mufete que j\u00e1 comi e conhece muitas can\u00e7\u00f5es bonitas.\r\nO Zequinha desconhece a nossa rela\u00e7\u00e3o sentimental. Acha que \u00e9 apenas um amigo da m\u00e3e. \u00c9 melhor continuar assim at\u00e9 ter algumas certezas mais e, qui\u00e7\u00e1 se o caso se tornar s\u00e9rio, envolvo o Zequinha. Por agora \u00e9 namorico.\r\n\r\nOlhando para tr\u00e1s, sou obrigada a reconhecer o quanto falhei no casamento com o Cal\u00f3. Toda a situa\u00e7\u00e3o retirou-me vigor. Andava exausta, ao espelho n\u00e3o reconhecia aquela mulher de len\u00e7o na cabe\u00e7a, olhar vazio e l\u00e1bios secos. N\u00e3o era eu mesma.\r\nTudo me incomodava. At\u00e9 o vento. O vento parecia n\u00e3o parar de assobiar. Seguia-me de dia e de noite, mesmo quando dormia sonhava com ele.\r\nFiz tantos sacrif\u00edcios. Vivia num teatro de sombras. Sa\u00eda de casa para ir trabalhar com as luzes dos candeeiros das ruas ainda acesas. As portas das casas, uma a uma a abrirem-se e a fecharem-se, e n\u00f3s a arrastarmos os p\u00e9s e o pouco de vida, ladeira a baixo, at\u00e9 \u00e0 paragem do autocarro, com os sacos nas m\u00e3os e os olhos semicerrados. Sem deles precisarmos, porque as pernas j\u00e1 conheciam o nosso caminho e os gatos tamb\u00e9m. Eramos tantas e t\u00e3o sozinhas. Ali, a aguardar o autocarro vazio, que se encheria paragem a paragem de gente como n\u00f3s.\r\nAka!\r\nGra\u00e7as a Deus que j\u00e1 passou.\r\nAt\u00e9 um carrito j\u00e1 consegui comprar.\r\nA minha preocupa\u00e7\u00e3o agora \u00e9 o Fidel. Meu sobrinho, filho do meu irm\u00e3o L\u00e9u.\r\nEst\u00e1 c\u00e1 h\u00e1 dois anos, ilegal, e tudo o que consegue s\u00e3o trabalhos prec\u00e1rios.\r\nPassa o tempo todo nas ruas do bairro. Dia e noite. Ele e os outros mi\u00fados est\u00e3o num ciclo vicioso de onde n\u00e3o conseguem sair. N\u00e3o trabalham porque n\u00e3o t\u00eam pap\u00e9is e n\u00e3o t\u00eam pap\u00e9is porque n\u00e3o lhes d\u00e3o um contrato de trabalho. Depois, como sempre, disse a dona Isabel: \u00abA vossa cor n\u00e3o ajuda.\u00bb Fazer mais o qu\u00ea, ent\u00e3o?\r\nA nossa rela\u00e7\u00e3o a cada dia que passa deteriora-se. N\u00e3o sou sua m\u00e3e, mas sou tia e ele vive na minha casa.\r\nO Fidel n\u00e3o respeita regras b\u00e1sicas. Como n\u00e3o lhe custa a ganhar n\u00e3o lhe custa a gastar. No Ver\u00e3o dorme com a ventoinha ligada e tem por h\u00e1bito deixar as luzes acesas, mesmo n\u00e3o estando em casa. N\u00e3o adianta eu at\u00e9 j\u00e1 ter colocado um papel colado ao interruptor para que ele apague a luz antes de sair de casa. O que mais me irrita \u00e9 entrar em casa com os chinelos com que anda na rua. Enfim, habituado a caxicos.\r\n\r\nUm beijo muito grande desta tua amiga,\r\nAurora.\r\n\r\nP. S.: A Ti Olga do Rossio, aquela onde \u00edamos comprar cola e gengibre, envia-te cumprimentos. Est\u00e1 cada vez mais gorda.\r\n\r\nDe: Aurora Oliveira &lt;auroraoli@sapo.pt&gt;\r\nAssunto: RE: Fidel\r\nPara: L\u00e9u &lt;leonardooliveira@gmail.com&gt;\r\nData: 23 setembro 2001 10:45:29 GMT\r\n\r\nQuerido irm\u00e3o,\r\n\r\nEspero que tenhas tido um feliz anivers\u00e1rio.\r\nVolto-te a reencaminhar o meu email (v\u00ea abaixo) porque, n\u00e3o tendo recebido resposta tua, nada me garante que o tenhas visto.\r\nPor aqui, vamos andado. Como se consegue, Deus quer e a vida permite.\r\nIrei escrev\u00ea-lo sem rodeios, porque uma resolu\u00e7\u00e3o urgente se exige: o teu filho ou ir\u00e1 preso ou aparecer\u00e1 morto.\r\nN\u00e3o quero essa responsabilidade.\r\nOntem, a pol\u00edcia veio bater-me \u00e0 porta. Andavam \u00e0 procura do Fidel. Acompanhei-o \u00e0 esquadra.\r\nN\u00e3o me parece que ande metido em esquemas il\u00edcitos, mas \u00e9 certo que sabe o suficiente para arranjar problemas.\r\nO bairro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que era. Veio para c\u00e1 muita gente nova. Ultimamente, at\u00e9 sai tiroteio e a pol\u00edcia anda sempre por c\u00e1. Para teres uma ideia, ando com tanto medo que, para nossa seguran\u00e7a, tenho sempre os estores fechados.\r\nH\u00e1 boatos de que o novo presidente da c\u00e2mara ir\u00e1 come\u00e7ar a demoli\u00e7\u00e3o do bairro e entregar-nos casa. N\u00e3o vou esperar. Sei que estas coisas demoram tempo. J\u00e1 estou efetiva e vou entrar com um pedido de empr\u00e9stimo habita\u00e7\u00e3o. A casa do bairro posso sempre alugar.\r\nTudo demora o seu tempo. At\u00e9 l\u00e1, sugiro que encontres uma solu\u00e7\u00e3o para o teu filho. O Fidel n\u00e3o pode continuar aqui no bairro.\r\nPede ao Cal\u00f3 que receba o afilhado em Roterd\u00e3o. Ser\u00e1 por um per\u00edodo limitado.\r\n\u00c9 o melhor para todos.\r\nAguardo not\u00edcias.\r\n\r\nUm beijo grande da mana,\r\nAurora\r\n\r\nDe: Aurora Oliveira &lt;auroraoli@sapo.pt&gt;\r\nAssunto: Feliz anivers\u00e1rio\r\nPara: M\u00e1rcia &lt;marcia01tavares@gmail.com&gt;\r\nDate: 1 setembro 2002\r\n\r\nOl\u00e1, Doutora!\r\n\r\nFeliz anivers\u00e1rio.\r\nVotos de muita sa\u00fade, paz e alegria.\r\nLi a tua tese de doutoramento e est\u00e1s de parab\u00e9ns.\r\nTenho uma not\u00edcia que te ir\u00e1 deixar feliz: este m\u00eas, recome\u00e7o o meu curso de Direito.\r\nNa quinta-feira, estive na secretaria da faculdade, a finalizar a papelada. Quando sa\u00ed, come\u00e7ou a chover torrencialmente. Com o vento, o chap\u00e9u-de-chuva revirou-se e fiquei toda molhada.\r\nPensei, imediatamente, ser aquele um mau press\u00e1gio. Parei, por um segundo, nas escadas. Deixei-me a sentir o frio, o vento e a chuva. A todos eles me tinha habituado e tamb\u00e9m \u00e0 felicidade.\r\n\r\nBeijinhos,\r\nAurora[\/vc_column_text][\/vc_tta_section][vc_tta_section title=&#8221;Zugzwang&#8221; tab_id=&#8221;1578821465906-be376d9c-aa10&#8243;][vc_column_text]Como de costume, Ndunduma marcou o nosso encontro no cal\u00e7ad\u00e3o da Costa da Caparica, entre a praia do C-D-S e a praia do Marcelino tamb\u00e9m conhecida como a praia da Bola de N\u00edvea, junto ao concorrido Caf\u00e9 do Mar, ponto de encontro para surfistas e outros ca\u00e7adores de ondas de toda esp\u00e9cie vindos dos quatro cantos da regi\u00e3o da grande Lisboa. Eu, pontual como sempre e vindo da margem norte, cheguei mais cedo. Pousei a mala entre as minhas pernas e de costas voltadas para o mar esperei que ele aparecesse.\r\n\r\nN\u00e3o demorou! Roupas largas, Nike Air Force 1 imaculadamente brancos nos p\u00e9s, dreadlocks atados e ca\u00eddos at\u00e9 meio das costas, qual rapper orgulhoso por se identificar e o reconhecerem como tal. Vi-o ao longe, a atravessar\u00a0 sem pressa o parque de estacionamento em frente daquele que j\u00e1 foi o Bairro da Mata, um ajuntamento de casas de constru\u00e7\u00e3o improvisada e algumas dezenas de barracas que mal resistiam \u00e0s rajadas de vento que assolavam a Costa quando o Inverno se apresentava mais rigoroso.\r\n\r\nDe onde venho, condi\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas como um leito de cheias que durante o tempo que vivi em Mira Loures nunca amea\u00e7ou alagar ao ponto de temermos nascer ali um estu\u00e1rio,\u00a0 atra\u00edram os mesmos bulldozers que a press\u00e3o tur\u00edstica chamar\u00e1 anos antes para arrasar o que existia do bairro da Mata em que Ndunduma se mudar\u00e1 quando chegamos os dois a Portugal. Muitos dos moradores, ao contr\u00e1rio dos meus antigos vizinhos, principalmente os que se fixaram ali a mais de quatro d\u00e9cadas, deixar o topo daquele morro que de bonito s\u00f3 tinha mesmo o horizonte, a ampla vista sobre Loures, a vertical e vasta selva de pedra que \u00e9 a cidade de Santo Ant\u00f3nio dos Cavaleiros e toda a v\u00e1rzea agr\u00edcola cortada por auto estradas, era o que poder\u00edamos chamar duma trag\u00e9dia.\r\n\r\nJ\u00e1 os antigos caparinquenses, apesar de terem sido despejados e realojados em paralepipedos de bet\u00e3o nos arredores do Feij\u00f3, reconheciam encolhendo os ombros, que a Costa est\u00e1 melhor comparativamente \u00e0 \u00e9poca em que aqui viviam. \u201cEst\u00e1 um bonito gr\u00e3o de Miami\u201d \u2013 confessaram-me, quando se cruzavam comigo a caminho do mar da Costa ou nas avenidas do Centro Comercial do Colombo. Curiosamente, ainda identifico-lhes no passo demorado todo um gingado sincopado, inclinado ligeiramente para estibordo, de quem j\u00e1 viveu junto ao mar. Pergunto-me se tamb\u00e9m reconhecem em mim o mesmo gingado, j\u00e1 que tive a Praia Morena como uma extens\u00e3o do p\u00e1tio da escola e passei praticamente toda a inf\u00e2ncia com os tornozelos enfiados\u00a0 no mar de Ombaka.\r\n\r\nE foi com essa ginga que ele subiu ao cal\u00e7ad\u00e3o, dirigindo-se em minha dire\u00e7\u00e3o e trazendo um tabuleiro de xadrez debaixo do bra\u00e7o, como era rotina aos Domingos desde que chegamos de Benguela e manteve, mesmo vivendo agora fora da Costa. Se n\u00e3o o conhecesse diria que aquele volume que trazia continha cartas mar\u00edtimas, porque olhava para o atl\u00e2ntico com a serenidade de um navegador, com o respeito de um advers\u00e1rio e a cumplicidade de um amante; diria at\u00e9 que tinha o olhar dos velhos pescadores da Ba\u00eda Farta, quando se quedavam junto \u00e0 \u00e1gua e \u00e0s nuvens antes de zarparem para dentro do azul cobalto do golfo de Benguela. E n\u00e3o obstante, nunca o vi mergulhar no mar da Caparica. Diria at\u00e9 que nunca chegou a aprender a nadar.\r\n\r\nSentou-se no mesmo banco de sempre, abriu o nosso tabuleiro de xadrez que viajou conosco desde Benguela, arrumou as pe\u00e7as apressadamente e, n\u00e3o fora o facto de eu estar ali, deixar-se-ia ficar a observar as pessoas na praia, entregues \u00e0s atividades costumeiras de quem tem a areia e o sol e todo o mar. Come\u00e7ou pelas pe\u00e7as brancas, e antes de passar para as pretas, disse-lhe. \u201cEsta noite regresso para Angola\u201d Ele olhou para mim e para a mala que tinha entre as pernas. Deve ter se perguntado porque que n\u00e3o o avisei e quando come\u00e7ou a enfileirar os pe\u00f5es pretos quebrou o sil\u00eancio com a quest\u00e3o que sabia que lhe era mais importante. \u201cOnde arranjaste o dinheiro?\u201d. Respondi-lhe que me havia sido emprestado quando na verdade, roubei-o, aproveitei um momento de distra\u00e7\u00e3o quando a evacua\u00e7\u00e3o coletiva se iniciara em Mira Loures e por ser fim do m\u00eas, sabia que o tio Sikas, meu vizinho, estaria cachudo.\r\n\r\nSikas era gajo fixe, n\u00e3o era parente de ningu\u00e9m que eu conhecesse mais todos o chamavam de tio porque quando pegava empreitadas grande, nos dava o toque para fazer uns biscates de pintura, sempre que essas fezadas surgissem, chama o Ndunduma para fazer um kumbu sujo, at\u00e9 que as rimas passagem a dar lucro. Desde que come\u00e7ou a levar a coisa mais a s\u00e9rio j\u00e1 l\u00e1 vai uma d\u00e9cada, nunca grandes quantias a circularem nos bolsos fundos das suas baggy jeans. E n\u00e3o por falta de talento, m\u00fasica n\u00e3o d\u00e1 dinheiro e ele pr\u00f3prio sabe, tanto que para segurar as pontas, ele n\u00e3o se importava de me ajudar a paiar na Costa em troca de uma percentagem, uns sabonetes de chamon que comprava em Santo Ant\u00f3nio dos Cavaleiros.\r\n\r\nAs pessoas que passam intrigadas com aquele quadro (um rapper, preto, sentado junto a um tabuleiro de xadrez aberto, numa praia), perguntavam se sabia jogar, ao que ele respondia sempre afirmativamente, com um sorriso. Esse gesto faz com que o transeunte se sinta convidado e se sente, desafiando-o para uma partida. Passei longas tardes naquele cal\u00e7ad\u00e3o, a v\u00ea-lo jogar como se lhe tivesse baixado o esp\u00edrito do mestre cubano Jos\u00e9 Ra\u00fal Capablanca, com algumas dezenas de turistas que passaram pela vila durante aquele m\u00eas de Agosto. Ningu\u00e9m o conseguia bater; tal como eu, todas as pessoas que o desafiaram perderam repetidamente e de forma um tanto ou quanto humilhante. Ndunduma n\u00e3o gostava de praia, mas estar de frente ao mar, era o mais pr\u00f3ximo que poder\u00edamos estar de Benguela e o lucro que faz\u00edamos com chamon, basicamente servia para refei\u00e7\u00f5es, transporte e vestir. Nenhum de n\u00f3s tinha a disciplina para movimentar droga suficiente para pagar o nosso regresso para angola.\r\n\r\nA \u00faltima vez que vi Ndunduma na \u00e1gua, foi no tanque reservat\u00f3rio que t\u00ednhamos no quintal para cobrir as falhas de abastecimento quando havia as sabotagens na barragem do Bi\u00f3pio no tempo da guerra civil. Ndunduma e eu, encontramo-nos todos os dias no muro do quintal de minha casa, na esquina entre a Rua\u00a0 Pedro Nolasco Pereira de Andrade e a Avenida Aires de Almeida Santos, o kota que escreveu o Meu Amor da Rua Onze, o primeiro poema que memorizei na ponta da l\u00edngua. Cham\u00e1vamos a\u00a0\u00a0aquele cruzamento, a nossa esquina e a raz\u00e3o pela qual a declaramos nossa rep\u00fablica, prendia-se com o facto de, durante todo o dia, cair ali a sombra de uma ac\u00e1cia majestosa, transformando aquele lugar no mais fresco da nossa rua e o \u00fanico onde, sem muito esfor\u00e7o, se podia cheirar ou sonhar-cheirar as ondas da Praia Morena.\r\n\r\nO epis\u00f3dio do tanque est\u00e1 ainda presente, porque no cacimbo anterior a aquela data, n\u00e3o arredamos p\u00e9 da nossa esquina, disputando ali mesmo naquela cal\u00e7ada, intensos campeonatos de futebol de caricas, impulsionados pela vit\u00f3ria da Argentina de Maradona no Mundial-M\u00e9xico-86. E um ano depois, estaria a passar as tardes a rondar o port\u00e3o da Kalila, a dona do meu primeiro beijo que me inspirou a memorizar o Meu amor da Rua Onze e outros versos da antologia Poemas Angolanos que juntamente com os vinis que trouxe de Angola, me salvaram de morrer de saudade nas noites frias e agonizantes no alto do morro sobre o Talude Militar a que denominavam de Bairro Mira Loures.\r\n\r\nN\u00e3o sei de quem ter\u00e1 sido a ideia, mas a falta de interesse para o jogo de caricas e bolas de gude naquele ano, fez com que rum\u00e1ssemos \u00e0s instala\u00e7\u00f5es desportivas do 1.\u00ba de Maio, com a inten\u00e7\u00e3o de nos inscrevermos no voleibol, no futebol de sal\u00e3o, no karat\u00e9 ou, na \u00faltima das hip\u00f3teses, na gin\u00e1stica que tinha o acr\u00e9scimo de ser frequentado pelas melhores mboas da cidade foi l\u00e1 que vi a Kalila pela primeira vez. Corpo \u00e1gil, olhos amendoados e um sorriso que revelava dentes e gengivas numa combina\u00e7\u00e3o tron\u00e7ante que nos deixa desarmados. Ela tinha os seios maiores que as mi\u00fadas da idade dela, que chamavam a aten\u00e7\u00e3o dos rapazes do \u00faltimo ano, que j\u00e1 fumavam e iam para as aulas s\u00f3 com um caderno e uma esferogr\u00e1fica ao contr\u00e1rio de n\u00f3s que carregavam mochilas que pesavam o mesmo que 5 quilos de fuba. Quando ela passava, Ndunduma nunca assoviou e eu t\u00e3o pouco mas sempre que passava pela nossa esquina curvava o pesco\u00e7o do mesmo jeito para lhe tirar as medidas. N\u00e3o foram poucas as vezes que ela me visitou nos sonhos, fazendo-me acordar com pau duro. At\u00e9 hoje, quando preciso de varrer um pungo r\u00e1pido, basta-me fechar os olhos e imaginar aqueles seios.\r\n\r\nNdunduma e eu, passamos aquela\u00a0tarde no 1\u00ba de Maio\u00a0a assistir a uma aula de cada modalidade, mas nenhuma nos convenceu; eram demasiado organizadas para o nosso gosto. Divert\u00edamo-nos mais com as nossas peladas de bola de saco na rua ou a fazer corridas de de pneu em volta do quarteir\u00e3o, ou\u00a0 a jogar basquetebol em tabelas improvisadas quando um dos vizinhos com parentes em Portugal, aparecia com uma spalding novinha, at\u00e9 esta ser roubada e voltarmos as nossas bolas de saco. Decepcionados por n\u00e3o encontrarmos nenhuma actividade desportiva excitante, decidimos voltar para a nossa esquina, a fim de n\u00e3o perdermos as quitandeiras, que, no final da tarde vinda da esta\u00e7\u00e3o de comboios, passariam por n\u00f3s carregadas de cana de a\u00e7\u00facar, a caminho do Mercado da Caponte. Por\u00e9m, j\u00e1 na sa\u00edda do 1.\u00ba de Maio, avistamos uma sala que, quase vazia e a meia luz, exibia nas suas mesas enfileiradas dezenas de tabuleiros. Nunca t\u00ednhamos visto tantos tabuleiros juntos e a solenidade do conjunto agu\u00e7ou a nossa curiosidade; que jogo era aquele, cujo tabuleiro lembrava o que era usada no joga de damas mas cuja forma e ordem das pe\u00e7as eram diferentes? O instrutor convidou-nos a entrar e a aprender as regras do jogo. Ao fim de algumas horas e com a promessa de que regressariamos, foi-nos autorizado levar um tabuleiro conosco.\r\n\r\nN\u00e3o demorou para que a nossa esquina se travassem torneios com a intensidade de um Karpov vs Kasparov com direito a claque a apostas,\u00a0 contagiando quase todos os que por n\u00f3s passavam. Foi assim que Kalila, num daqueles dias, atra\u00edda pela multid\u00e3o que se juntar\u00e1 a volta do nosso tabuleiro decidiu ficar e ver-me jogar. N\u00e3o queria que me visse perder mas n\u00e3o queria deixar passar a oportunidade de lhe dirigir palavra. E quando Ndunduma que na altura estava longe de ser a vers\u00e3o angolana do Capablanca disse \u201cXeque mate\u201d suspirei de al\u00edvio. Perdi aquele jogo mas ganhei um encontro para o dia seguinte no port\u00e3o da casa dela, na hora da novela, quando toda popula\u00e7\u00e3o adulta da cidade teria os olhos postos no ecr\u00e3 para assistirem mais um epis\u00f3dio do Cambalacho.\r\n\r\nEnquanto Ndunduma, na qualidade de guardi\u00e3o do nosso taboleiro, dormia com rainhas e cavalos negros, para ele as pe\u00e7as favoritas do jogo ao ponto de um dos cavalos ter desaparecido sem deixar rasto. Em substitui\u00e7\u00e3o colocamos um soldado de chumbo. Meu interesse no jogo, passou para segundo plano, estava mais focado em\u00a0aperfei\u00e7oar o meu dikelengo na tentativa de dominar a arte do chacho para as minhas\u00a0 investidas noturnas ao port\u00e3o da Kalila. Ela ouvi-me sempre muito atentamente, sorrindo quando uma frase, demasiado adulta para a minha idade soava como se n\u00e3o pertencesse a minha boca. As minhas m\u00e3os ficam suadas s\u00f3 de pensar na quantidade de linhas foleiras que lhe disse. Mas na altura aqueles sorrisos n\u00e3o me pareciam pedidos para parar, muito pelo contr\u00e1rio, me davam mais corda e coragem para primeiro buscar os l\u00e1bios dela e ao fim de algumas semanas, quando, Nan\u00e1 o personagem interpretada por Fernanda Montenegro corria para p\u00f4r a m\u00e3o no ursinho de pel\u00facia que escondia a corrente de ouro que lhe traria riqueza, as minhas m\u00e3os j\u00e1 se perdiam debaixo da blusa de Kalila, buscando os bot\u00f5es que formavam os seus mamilos.\r\n\r\nNo dia em que tentei tocar-lhes com a l\u00edngua, ela puxou o meu rosto, mordeu o l\u00f3bulo da orelha e colocou a l\u00edngua dentro do meu ouvido. Pela primeira vez, desconsegui esconder a minha ere\u00e7\u00e3o. Ela olhou nos meus olhos e com aquelas gengivas e dentes cintilantes, me ofereceu o seu sorriso de tro\u00e7a e anunciou que ter\u00edamos que parar com os nossos encontros. A novela havia terminado e at\u00e9 os ser\u00f5es da fam\u00edlia voltarem a ser ocupados com outro programa, ter\u00edamos apenas o dia o que significava o fim do nosso romance, pois at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o nos t\u00ednhamos assumido como damos com direito a andar de m\u00e3o dada a vista de todos. Ainda tentei pausar\u00a0no 1\u00ba de Maio\u00a0para lhe mostrar que tinha as qualidade necess\u00e1rias para ser promovido a garino oficial mas ela friamente, apontou que a minha presen\u00e7a come\u00e7ava a dar bandeira diante das amigas da gin\u00e1stica.\r\n\r\nNa noite anterior a partida para Lisboa, n\u00e3o consegui pregar o olho. Tinha que me despedir da Kalila, e num ato impulsivo, foi rondar o port\u00e3o da casa dela. Fiz o sinal que hav\u00edamos combinado para anunciar a minha a minha presen\u00e7a. Ela apareceu poucos minutos depois, pegou na minha m\u00e3o e puxou-me, convidando para caminhar ao lado dela. Sem destino, demos uma volta ao quarteir\u00e3o. Kalila, riu das minhas hist\u00f3rias, fez-me perguntas sobre o que contava encontrar em Lisboa e do que sentiria mais falta em Benguela, senti a vontade de apontar para ela mas o medo de arruinar aquele momento, segurou-me. Aquela era a primeira vez que revelavamos as nossas expectativas e ansiedades. Ela n\u00e3o gostava especialmente de gin\u00e1stica, mas ia porque as amigas frequentavam. Nos prometemos escrever e enviar fotografias, coisa que cheguei a fazer n\u00e3o por ter me faltado vontade. N\u00e3o saberia como enviar enviar-lhe poemas e outras foleirices que\u00a0 denunciassem que passado esses anos todos cont\u00ednuo panco por ela.\r\n\r\nQuando nos aproximamos novamente do port\u00e3o, perguntava-me qual seria a melhor forma de nos despedir-me. Um longo abra\u00e7o, um linguado, os dois? Optei por estender-lhe o livro de Poemas Angolanos mas ela recusou, apontado que tinha um exemplar igual em casa. Fiquei fraco. Ela deve ter reparado que eu procurava no ch\u00e3o um buraco para me enfiar quando ela pegou na minha m\u00e3o e disse. \u201cVem comigo mas n\u00e3o fa\u00e7as barulho\u201d, Por instantes, fiquei sem saber o que significava aquele convite, mas ela abriu o port\u00e3o e puxou-me para dentro, segui obediente e mudo at\u00e9 o fundo do quintal da sua casa, entre as pitangueiras e uma parede de samambaias, fora do alcance da luz que irradiava desde a marquise. Ela surpreendeu-me com um beijou o primeiro que n\u00e3o nasceu de iniciativa minha. Senti o seu corpo colar-se ao meu e de repente, tinha a m\u00e3o dela dentro dos meus cal\u00e7\u00f5es. N\u00e3o ofereci-lhe resist\u00eancia.\r\n\r\nVai acontecer, pensei para mim. N\u00e3o era daquela maneira que tinha imaginado que seria a minha primeira vez, todos os cen\u00e1rios que construir\u00e1 at\u00e9 ent\u00e3o tinham-na como co-protagonista, mas sempre entre quatro paredes e com uma cama presente, num dia em que em que ningu\u00e9m estaria em sua casa, j\u00e1 que na minha seria imposs\u00edvel pois h\u00e1 sempre gente \u00e0 volta e a minha imagina\u00e7\u00e3o e carteira n\u00e3o permitia ir al\u00e9m dessas possibilidades. Aquele fundo de quintal foi uma surpresa aterradora, e se algu\u00e9m nos apanhasse ali? Meus joelhos tremiam de excita\u00e7\u00e3o e medo. Kalila parecia segura, n\u00e3o a vi em momento nenhum desviar o olhar em dire\u00e7\u00e3o a porta da marquise, ao contr\u00e1rio de mim que os tinha os olhos esbugalhados, ela tinha os seus semicerrados e soltar\u00e1 uma vogal continua numa leve, quase inaud\u00edvel melodia de prazer.\r\n\r\nE quando abriu os olhos, sem proferir nenhuma palavra, somente com os gestos, indicou-me o lugar onde dever\u00edamos nos deitar, um pequeno luando feito de folha de palmeira, certamente utilizado para dormir sob a sombra das pitangueiras.\r\n\r\nEla voltou a atacar o meu ouvido, mordeu-o com mais for\u00e7a e fez deslizar a l\u00edngua pelo meu pesco\u00e7o, pelas duas pevides de goiaba que tenho a marcar o lugar dos meus mamilos. E quanto ela iniciou a descida final atrav\u00e9s do meu estomago, temia que a minha respira\u00e7\u00e3o ofegante como uma animal ferido, nos denunciasse. Ela colou os dedos nos meus l\u00e1bios impedindo-me que inalasse todo o oxigenio do mundo. Quando fecho os olhos ainda sinto o cheiro do \u00f3leo mupeke nos seus cabelos. Aquele cheiro\u00a0 extra\u00eddo dos frutos da \u00e1rvore Ximenia Americana que cresce na regi\u00e3o do Namibe, vendido pelas mulheres mumuilas, que silenciosas e altivas, nuas das cintura para cima, com um pano trazido amarrado \u00e0 cintura nunca cobrindo mais do que metade das coxas percorriam as ruas de Benguela ir\u00e1 acompanhar-me at\u00e9 o fim dos meus dias. At\u00e9 porque antes de Kalila entrar na minha vida, os del\u00edrios sexuais volta e meia inclu\u00edam as mo\u00e7as solteiras, com os seus peitos a mostra adornados apenas com colares de missangas e pulseiras equilibrando na cabe\u00e7a os litros de \u201comulela woyo mpeke\u201d, nome dado, na l\u00edngua do povo Kuvale e que a minha primeira amante assim como todas as mulheres a minha volta usavam para cuidar o cabelo crespo.\r\n\r\nKalila desceu a roupa que cobria a p\u00e9lvis e at\u00e9 meio dos meus joelhos. Ela manteve a sua roupa no corpo. Levou a m\u00e3o at\u00e9 a boca, umedeceu os dedos com saliva e com pulso firme desenhando um movimento suave, sem tirar os olhos dos meus, deliciou-se vendo o meu corpo contorcer-se de prazer e quando senti o calor da sua boca derreter a ponta da minha pila at\u00e9 esta desaparecer, o \u00fanico gesto que me foi poss\u00edvel para n\u00e3o gritar e causar um sobressalto ao membros da fam\u00edlia na sala de estar, foi esticar os bra\u00e7os e enterrar os dedos na terra e apertando-a na m\u00e3o para que n\u00e3o me fugisse o ch\u00e3o. Quando finalmente ela me devolveu os sentidos e os meus m\u00fasculos voltaram a relaxar senti na minha m\u00e3o um pequeno objecto duro e familiar. O cavalo negro que fora substitu\u00eddo pelo soldado de chumbo.[\/vc_column_text][\/vc_tta_section][vc_tta_section title=&#8221;&#8220;o que acontece em certas demoli\u00e7\u00f5es&#8220;&#8221; tab_id=&#8221;1578821576502-03711bfa-4b45&#8243;][vc_column_text]&#8221;o que acontece em certas demoli\u00e7\u00f5es&#8221;\r\n\r\n1. (&#8220;tenho vindo a fazer a volta&#8221;)\r\nultimamente investigo passos de dan\u00e7a que nunca mais tinha dan\u00e7ado.\r\na terapeuta disse-me que pode ser bom (para voltar a fotografar) redescobrir coisas \u00edntimas que nada t\u00eam a ver com o acto de fotografar. &#8220;nada&#8221; seria uma exagero. mas creio que entendi. n\u00e3o devem ser manifesta\u00e7\u00f5es directas que me levem a fotografar, de imediato; e n\u00e3o devem ser coisas que alimentem esta limita\u00e7\u00e3o dolorosa que me assiste.\r\nquero fotografar. \u00e9 isto precisamente que n\u00e3o consigo explicar. querer, no sentido de haver desejo, sim.\r\nmas \u00e9 como se para fotografar, eu tivesse que cortar o cabelo. \u00e9 s\u00f3 um exemplo. ainda bem que a terapeuta n\u00e3o me julga pelas maluquices que digo. ali\u00e1s, tenta convencer-me que n\u00e3o s\u00e3o maluquices.\r\ncontudo, algumas das fotos que mostrei levaram-na a um sil\u00eancio radical.\r\no que me perturbou. mas isso n\u00e3o verbalizei.\r\n\r\n2.(&#8220;a estrutura da ternura&#8221;)\r\nhoje vi no meio de tantos patos, um cisne.\r\nisso comentei com a terapeuta antes de tentar ir \u00e0 dan\u00e7a.\r\na terapeuta perguntou como tinha sido o reencontro com a dan\u00e7a. e se j\u00e1 tinha sido.\r\ncreio que por vezes, sobretudo quase sempre, tenho muita dificuldade em falar do que n\u00e3o sei. ou que n\u00e3o sei explicar. n\u00e3o \u00e9 a dan\u00e7a, quis dizer; apeteceu-me dizer. mas n\u00e3o soube dizer. \u00e9 o modo de l\u00e1 chegar.\r\n&#8220;sim, concordo&#8221;, disse a terapeuta.\r\na terapeuta \u00e9 muito bonita. n\u00e3o \u00e9 uma fase da terapia. \u00e9 mesmo bonita. vejo (ou quero ver&#8230;) tanta do\u00e7ura nos seus olhos, mas sobretudo nos seus p\u00e9s. n\u00e3o posso evitar e penso: &#8220;deve ser uma excelente dan\u00e7arina&#8221;.\r\nao contr\u00e1rio de mim.\r\nmas isso n\u00e3o digo.\r\n\r\n3. (&#8220;a necessidade do trabalho&#8221;)\r\nrepito algumas vezes que me faz falta fotografar. a terapeuta faz perguntas, d\u00e1 a entender que seria importante eu falar mais sobre isso.\r\na import\u00e2ncia de fotografar. n\u00e3o sei se &#8216;tenho que&#8217; falar sobre isso abertamente. n\u00e3o quando j\u00e1 tive que exteriorizar essa falta. \u00e9 diferente de saber explicar o porqu\u00ea. ou at\u00e9 de explicar por que tenho a necessidade de fotografar.\r\n&#8220;trabalho ou prazer&#8230;?&#8221;\r\n&#8220;deixe-me dar um exemplo. fotografia, vida, dan\u00e7a: \u00e9 a surpresa&#8230;&#8221;\r\n&#8220;n\u00e3o sei se entendi&#8221;\r\n&#8220;\u00e9 a surpresa que me fala, que me move. descobrir e fotografar. pressentir e revelar.&#8221;\r\n&#8220;e o exemplo?&#8221;\r\n&#8220;era um sapato&#8221;\r\n&#8220;seu?&#8221;\r\n&#8220;n\u00e3o. um sapato que fotografei. melhor dizendo, n\u00e3o sei se fui eu que fotografei. lembro-me de ter revelado essa foto&#8230;&#8221;\r\n&#8220;foi uma surpresa?&#8221;\r\n&#8220;sim&#8221;\r\n&#8220;o sapato em si?&#8221;\r\n&#8220;n\u00e3o. o que o sapato dizia&#8230;&#8221;\r\n\r\n4.(&#8220;turismo militar&#8221;)\r\nhouve em determinadas guerras, por algum tempo, e quando era poss\u00edvel, e onde houvesse gente nisso interessada, o costume de se fazer turismo dentro da pr\u00f3pria guerra.\r\nn\u00e3o sei se chamaram a isso turismo militar. pode ser que sim. o nome, neste caso, n\u00e3o interessa.\r\n&#8220;isso faz parte do seu trabalho?&#8221;\r\nao que eu sorri.\r\n&#8220;o mundo faz parte do meu trabalho.&#8221;\r\n&#8220;claro&#8221;, disse a terapeuta. &#8220;tem toda a raz\u00e3o.&#8221;\r\n\r\n5. (&#8220;o que acontece ao perder-me nos voos&#8221;)\r\nn\u00e3o perco voos. perco-me nos voos.\r\nisso \u00e9 tamb\u00e9m muito dif\u00edcil de explicar. \u00e9 no voo, onde nada acontece, nesse c\u00e9u, que me ocorrem as fotos que n\u00e3o posso tirar.\r\n&#8220;de lugares que n\u00e3o existem?&#8221;\r\n&#8220;de lugares onde, nesse instante, eu n\u00e3o estou.&#8221;\r\nvoar, digamos, n\u00e3o \u00e9 humano. n\u00f3s andamos, a cada voo, a imitar coisas n\u00e3o humanas.\r\n&#8220;um dia pode dar mau resultado&#8230;&#8221;\r\n&#8220;um acidente?&#8221;\r\n&#8220;ou pior: uma revela\u00e7\u00e3o inesperada&#8221;\r\n&#8220;quer dar um exemplo?&#8221;\r\n&#8220;sabe o que estava escrito no sapato azul que fotografei?&#8221;\r\n&#8220;s\u00f3 saberei se me disser&#8221;, disse a terapeuta com um ar neutro que me incomoda.\r\n&#8220;you and me&#8221;\r\n&#8220;era isso que estava escrito?&#8221;\r\n&#8220;sim&#8221;\r\n&#8220;para onde a levou essa frase?&#8221;\r\n&#8220;para uma exposi\u00e7\u00e3o. algumas ideias. a pr\u00f3pria dan\u00e7a. tudo isso tem que ver com o medo. os medos&#8230;&#8221;\r\n&#8220;o que vai fazer com isso?&#8221;\r\n&#8220;vou preparar vinte e um temas para uma exposi\u00e7\u00e3o. nomes isolados, frases que me acompanham. ser\u00e1 uma pequena grande celebra\u00e7\u00e3o. sobretudo h\u00e1 de fazer-me bem.&#8221;\r\n&#8220;por qu\u00ea?&#8221;\r\n&#8220;porque decidi que o farei sem julgamentos.&#8221;\r\na terapeuta pareceu sorrir, mas tentou n\u00e3o faz\u00ea-lo.\r\n\r\n6. (&#8220;o c\u00f3digo postal da estrada vazia&#8221;)\r\no endere\u00e7o onde haveria a dan\u00e7a parece uma estrada vazia.\r\nconfesso que estou cansada de dizer &#8220;parece que&#8221;. \u00e9 nitidamente um medo de assumir e de dizer as coisas. vou recome\u00e7ar:\r\no endere\u00e7o do lugar onde eu iria dan\u00e7ar \u00e9 uma estrada vazia. n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 uma casa, um galp\u00e3o, algo que abrigue um grupo de dan\u00e7a.\r\nmas, logo no in\u00edcio, h\u00e1 uma placa com um c\u00f3digo postal. mesmo a estrada vazia tem um c\u00f3digo postal. fico assim com menos d\u00favidas sobre a exist\u00eancia da rua. continuo com d\u00favidas quanto \u00e0 exist\u00eancia do lugar de dan\u00e7ar.\r\nmas \u00e9 \u00f3bvio: h\u00e1 sempre muitos lugares de dan\u00e7ar. muitas ruas, galp\u00f5es, casas de dan\u00e7ar. h\u00e1 tamb\u00e9m o lugar de dentro. onde tamb\u00e9m se dan\u00e7a.\r\nisto n\u00e3o consegui dizer \u00e0 terapeuta: \u00e9 por dentro que n\u00e3o tenho conseguido dan\u00e7ar.\r\nse dan\u00e7ar por dentro fotografo melhor por fora?\r\nse fotografar por dentro&#8230; saberei dan\u00e7ar por fora?\r\n\r\n7. (&#8220;novo ataque no centro do meu peito&#8221;)\r\nsobre isto gostaria de poder falar \u00e0 terapeuta.\r\nde algum modo associo os ataques ao meu peito ao n\u00e3o conseguir fotografar.\r\nencontrei uma boneca de trapos que me pediu para ser fotografada. pedir tamb\u00e9m \u00e9 uma coisa de dentro. dentro dela. dentro de mim.\r\n&#8220;no fundo devo eu ter pedido \u00e0 boneca de trapo para fotograf\u00e1-la&#8230;&#8221;\r\n&#8220;no entanto nem a boneca falou consigo, nem voc\u00ea falou com a boneca&#8230; h\u00e1 algo nesse processo que seria importante que visse. e assumisse.&#8221;\r\n&#8220;eu quis fotografar&#8230;&#8221;\r\n&#8220;sim. voc\u00ea quis fotografar.&#8221;\r\nconsegui falar da boneca de trapo, mas n\u00e3o pude dizer o modo como n\u00e3o a fotografei. o in\u00edcio j\u00e1 se dera. a vontade, a m\u00e3o, o momento, at\u00e9 a luz. mas um forte ataque ao centro do meu peito n\u00e3o me deixa nem sequer ficar em p\u00e9. ou caminhar. ou pensar. ou agir. nem agir instintivamente.\r\n&#8220;se tivesse que fotografar esse ataque&#8230;. como seria a fotografia?&#8221;, imaginei que a terapeuta me fazia essa pergunta.\r\ne devagar, entre hesita\u00e7\u00f5es por dentro, entre choro e inquieta\u00e7\u00e3o, nas poucas pausas que a respira\u00e7\u00e3o me cedeu, imaginei que eu poria a quest\u00e3o de outro modo:\r\n&#8220;se eu pudesse fotografar esse ataque, destrui-lo-ia&#8230; queim\u00e1-lo-ia em vez de o fotografar.&#8221;\r\n&#8220;muito bem. hoje ficamos por aqui.&#8221;\r\n\r\n8. (&#8220;demoli\u00e7\u00f5es de bairros e de pessoas&#8221;)\r\nnem sempre fotografei mas sempre me interessei por demoli\u00e7\u00f5es. portos. cidades. bairros.\r\nmas o que me atrai s\u00e3o as demoli\u00e7\u00f5es de pessoas. intriga-me como se fala de demoli\u00e7\u00f5es sem referir, tantas vezes, as pessoas. muitas vezes at\u00e9 lembram-se de referir os animais, as \u00e1rvores. isso est\u00e1 muito bem.\r\nmas e as pessoas demolidas?\r\numa pessoa demolida ou em demoli\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 que se sente mais atra\u00edda pela fotografia, pela dan\u00e7a, pela demoli\u00e7\u00e3o, do que as pessoas que n\u00e3o est\u00e3o em demoli\u00e7\u00e3o?\r\n&#8220;qual \u00e9 a sua opini\u00e3o?&#8221;, perguntou a terapeuta.\r\nvoltei a ver os seus p\u00e9s. as sand\u00e1lias delicadas. um anel no dedo. certamente ela n\u00e3o cr\u00ea que ningu\u00e9m nota o anel no dedo do p\u00e9.\r\n&#8220;eu penso que posso planificar uma exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica. tamb\u00e9m posso planificar a demoli\u00e7\u00e3o do meu peito. cessaria assim a possibilidade de ataques.&#8221;\r\n&#8220;bem como o pr\u00f3prio peito&#8230;&#8221;, disse a terapeuta, e descruzou a perna que tinha o p\u00e9 com o anel no dedo.\r\n\r\n9. (&#8220;doei um bolo pequeno demais&#8221;)\r\ntenho vindo a fazer as anota\u00e7\u00f5es que a terapeuta sugeriu.\r\nuso as que posso nas sess\u00f5es, uso outras para o meu dia a dia. uso outras para a exposi\u00e7\u00e3o que um dia farei.\r\nquando voltar a fotografar.\r\nquando puder dan\u00e7ar dentro ou fora de mim.\r\ngosto da ideia de serem pequenos cap\u00edtulos que chegam da vida ou dos sonhos ou de mim ou dos outros ou das dores ou de fotos que ainda n\u00e3o fiz ou de m\u00fasicas que se apresentam como reflexo de algo ou como lembran\u00e7as que distor\u00e7o ou como t\u00edtulos para poemas que nunca escrevi ou como fragmentos de coisas min\u00fasculas mas important\u00edssimas que fazem parte daquilo que tamb\u00e9m sou.\r\nde certo modo, desconfio, mas ainda n\u00e3o me consigo dizer: acho que \u00e9 uma esp\u00e9cie de dan\u00e7a comigo.\r\nanotei o t\u00edtulo &#8216;doei um bolo pequeno demais&#8217; por causa de um sonho: era eu a ir a um lugar onde se doavam coisas e havia uma crian\u00e7a com o peito em demoli\u00e7\u00e3o ent\u00e3o no lugar de um brinquedo eu levei um bolo feito por mim que n\u00e3o sei fazer bolos. a senhora que me recebeu comentou de imediato que o bolo era pequeno demais e quase desatei a chorar mas vi que a crian\u00e7a olhou o bolo e achou que era o presente ideal para aquele momento.\r\nmesmo no sonho, mesmo que tenha sido apenas um sonho: o meu bolo pequeno demais travava o processo de demoli\u00e7\u00e3o dentro daquela crian\u00e7a.\r\n\r\n10. (&#8220;acabei por doar imagens&#8221;)\r\nnum outro sonho, eu voltava a esse lugar de doa\u00e7\u00f5es. estranho nome, estranha palavra, estranhas ac\u00e7\u00f5es. mas l\u00e1 voltei.\r\nl\u00e1 voltei a encontrar os que d\u00e3o as coisas que j\u00e1 n\u00e3o precisam e que por vezes v\u00e3o cheias de pouco-amor por j\u00e1 n\u00e3o servirem.\r\nfui l\u00e1 doar imagens que eram importantes para mim. e at\u00e9 valiosas do ponto de vista comercial. creio que a minha agente n\u00e3o gostar\u00e1 nada de saber disso.\r\n&#8220;e sentiu-se bem?&#8221;, perguntou a terapeuta; mas n\u00e3o tinha, nesse dia, o anel no dedo do p\u00e9.\r\n&#8220;senti que essa doa\u00e7\u00e3o travava um mil\u00edmetro o processo de demoli\u00e7\u00e3o do meu peito.&#8221;\r\n\r\n11. (&#8220;o processo de n\u00e3o tatuagem&#8221;)\r\nnunca quis fazer uma tatuagem, mas n\u00e3o era por causa das transfus\u00f5es de sangue.\r\nera pelo arrependimento.\r\n&#8220;que arrependimento?&#8221;\r\no de ter essa fotografia impressa na pele e n\u00e3o poder mudar as fotografias expostas no meu corpo.\r\n\r\n12. (&#8220;diretrizes para o planeamento de uma demoli\u00e7\u00e3o&#8221;)\r\ndepois de visitar aquela institui\u00e7\u00e3o, mais \u00e0 noitinha, permiti-me chorar.\r\n&#8220;fez-lhe bem?&#8221;\r\ncreio que sim. gosto desse choro que pode vir a ser \u00fatil. que me fa\u00e7a sentir melhor. que me limpe de algo. que me deixe num outro lugar.\r\n&#8220;o choro \u00e9 uma travessia&#8230;&#8221;, disse eu \u00e0 terapeuta.\r\ndepois da travessia, quase sempre, o que nos acontece \u00e9 estar num outro lugar.\r\ncheguei a casa e permiti-me chorar porque n\u00e3o tinha como inventar, para mim, uma explica\u00e7\u00e3o que me atenuasse a dor.\r\n&#8220;qual dor?&#8221;\r\na que me d\u00f3i quando vejo crian\u00e7as com o peito em demoli\u00e7\u00e3o. chorei tamb\u00e9m por mim: eu j\u00e1 n\u00e3o sou crian\u00e7a e ainda tenho o peito em demoli\u00e7\u00e3o.\r\n&#8220;existem outros caminhos?&#8221;\r\na demoli\u00e7\u00e3o sem planeamento. a demoli\u00e7\u00e3o com planeamento. o que se constr\u00f3i depois da demoli\u00e7\u00e3o. se nada se constr\u00f3i depois da demoli\u00e7\u00e3o.\r\n&#8220;agora refere-se \u00e0 demoli\u00e7\u00e3o dos bairros?&#8221;, perguntou a terapeuta.\r\n&#8220;n\u00e3o. refiro-me ainda \u00e0 demoli\u00e7\u00e3o de pessoas.&#8221;\r\n&#8220;no geral&#8230;?&#8221;\r\n&#8220;\u00e0s vezes o geral \u00e9 um modo de falar de mim. confesso que muitas vezes planejo a demoli\u00e7\u00e3o do meu peito e em simult\u00e2neo sinto que gostaria de n\u00e3o ter que o demolir.&#8221;\r\n\r\n13. (&#8220;havia pele na fotografia extinta&#8221;)\r\npoucos assin\u00e1mos o documento. muitos assinaram o outro documento.\r\n&#8220;desculpe, a que documentos se refere?&#8221;\r\no documento que tinha poucas assinaturas autorizava.\r\no documento que tinha muitas assinaturas n\u00e3o autorizava.\r\n&#8220;era a autoriza\u00e7\u00e3o formal para uma demoli\u00e7\u00e3o?&#8221; a terapeuta tentou que eu explicitasse.\r\nmas eu n\u00e3o queria ser t\u00e3o expl\u00edcita.\r\n&#8220;era justamente a autoriza\u00e7\u00e3o informal para a destrui\u00e7\u00e3o de um arquivo fotogr\u00e1fico.&#8221;\r\n\r\n14. (&#8220;fot\u00f3grafo luta para que o autorizem a destruir fotos do seu passado&#8221;)\r\nsegundo o fot\u00f3grafo, que queria muito n\u00e3o ter a obriga\u00e7\u00e3o de explicar tanta coisa sobre um determinado processo de demoli\u00e7\u00e3o dentro de si, pretendia que lhe permitissem, judicialmente, destruir um arquivo que foi criado, mantido, inventado, fotografado por si.\r\nentendia que a destrui\u00e7\u00e3o dependia de uma decis\u00e3o judicial.\r\nmas alegava tamb\u00e9m que a destrui\u00e7\u00e3o deveria, isso sim, depender de uma decis\u00e3o pessoal e humana. sua.\r\neu assinei o documento com poucas assinaturas, o que autorizava a destrui\u00e7\u00e3o do arquivo deste fot\u00f3grafo porque, segundo ele, era esta a sua vontade humana actual; e o arquivo, ainda que fotogr\u00e1fico, continha uma camada de pele com recorda\u00e7\u00f5es que ele j\u00e1 n\u00e3o pretendia deixar inscritas no mundo.\r\n\r\n15. (&#8220;sete exposi\u00e7\u00f5es sobre o fim do mundo j\u00e1 em fins de fevereiro&#8221;)\r\nfoi bonita a dan\u00e7a.\r\n&#8220;dan\u00e7ou?&#8221;, perguntou a terapeuta.\r\n&#8220;n\u00e3o. apenas fui ver dan\u00e7ar.&#8221;\r\nera uma provoca\u00e7\u00e3o e resultou. algu\u00e9m marcou para o dia trinta de fevereiro uma s\u00e9rie de exposi\u00e7\u00f5es, em dan\u00e7a, sobre o fim do mundo. e usaram fotos minhas.\r\n&#8220;sentiu-se bem com o uso das suas fotos?&#8221;\r\n&#8220;sim, senti-me bem. justamente por ter acontecido a exposi\u00e7\u00e3o no dia trinta de fevereiro. achei apropriado.&#8221;\r\n&#8220;e que dan\u00e7as viu?&#8221;\r\n&#8220;dan\u00e7as penduradas em pessoas. foi na rua. no dia vinte e oito.&#8221;\r\n\r\n16. (&#8220;etnografia dos bairros invis\u00edveis&#8221;)\r\nos passos que n\u00e3o tinha dan\u00e7ado \u00e9 um modo de dizer e de tentar fotografar as fotografias ou instantes ou pessoas ou bairros ou demoli\u00e7\u00f5es ou peitos que ainda n\u00e3o fotografei.\r\no modo de tentar come\u00e7ar a dan\u00e7ar, dentro ou fora de mim, \u00e9 o modo de regressar \u00e0 fotografia.\r\nseria tamb\u00e9m o modo de entender a raz\u00e3o de n\u00e3o conseguir fotografar.\r\n&#8220;consegui fotografar um cisne no meio de tantos patos&#8230;&#8221;\r\n&#8220;j\u00e1 revelou essa fotografia?&#8221;, perguntou a terapeuta.\r\n&#8220;n\u00e3o. n\u00e3o foi com a m\u00e1quina de fotografar. fotografei apenas com o peito.&#8221;\r\nn\u00e3o creio, anotei no ponto dezasseis do meu bloco de apontamentos, que os bairros invis\u00edveis sejam invis\u00edveis.\r\n\r\n17. (&#8220;onde ficar&#8221;)\r\numa das fotografias que n\u00e3o chegou a ser vista na exposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aconteceu no dia trinta de fevereiro tinha um t\u00edtulo que poderia ser uma frase minha ou parte de um pensamento que me faria escrever sobre outras coisas:\r\n&#8216;onde ficar nos melhores bairros demolidos sem ter de l\u00e1 ficar&#8217;.\r\n\r\n18. (&#8220;por baixo das demoli\u00e7\u00f5es&#8221;)\r\nh\u00e1 uma coisa que me tem despertado a curiosidade para voltar a fotografar.\r\n&#8220;est\u00e1 relacionado com a dan\u00e7a?&#8221;, perguntou a terapeuta.\r\n&#8220;talvez tudo esteja relacionado com a dan\u00e7a&#8230;&#8221;, deu-me vontade de sorrir com o que eu pr\u00f3pria diria depois: &#8220;at\u00e9 a Terra dan\u00e7a. tudo \u00e9 movimento. ou pausa. ou grito. ou sil\u00eancio.&#8221;\r\n&#8220;quando \u00e9 que grita?&#8221;, a terapeuta conseguiu surpreender-me.\r\na quest\u00e3o n\u00e3o era o quando. era o como.\r\ntenho estado a gritar em sil\u00eancio. por vezes gritava ao fotografar. por vezes, numa discuss\u00e3o, tamb\u00e9m chegava a gritar. ao espelho, gritei algumas vezes mas fechava os olhos com medo de ouvir todo o grito.\r\nultimamente, grito para dentro.\r\n&#8220;acha que isso pode ser um dos modos de demolir o seu peito?&#8221;\r\n\r\n19. (&#8220;recolhi objetos das pessoas que viveram aqui&#8221;)\r\ndescobri um modo de come\u00e7ar a tentar dan\u00e7ar.\r\n&#8220;\u00e9 um lugar de dan\u00e7a?&#8221;, perguntou a terapeuta.\r\n\u00e9 apenas um modo. os objectos que me atraem, que recolho, que me chamam, que me falam, aos quais eu posso falar com do\u00e7ura ou fotografia, esses objectos mais cedo ou mais tarde creio que me podem fazer dan\u00e7ar.\r\n&#8220;e a m\u00fasica?&#8221;\r\ncom ou sem m\u00fasica.\r\na m\u00fasica por vezes s\u00e3o as est\u00f3rias ou as vidas ou as anota\u00e7\u00f5es ou as coisas escondidas no peito das pessoas que viveram aqui.\r\n&#8220;aqui&#8230; onde?&#8221;\r\n&#8220;dentro ou fora de mim.&#8221;\r\n\r\n20. (&#8220;um quest\u00e3o de dentro&#8221;)\r\nno ponto vinte anotei algo que tinha que ver com a terapeuta.\r\nno dia seguinte consegui falar sobre isso.\r\n&#8220;se eu fizesse uma exposi\u00e7\u00e3o&#8230; poderia contar com a sua presen\u00e7a&#8230;?&#8221;, olhei para baixo, embora a terapeuta tenha esperado que eu voltasse a olhar para ela para me dizer o que disse:\r\n&#8220;seria a trinta de fevereiro?&#8221;\r\nsorrimos.\r\n&#8220;n\u00e3o. uma exposi\u00e7\u00e3o com fotos reveladas e, digamos, com um acesso concreto a ela. eu poderia contar com a sua presen\u00e7a?&#8221;\r\na terapeuta esperou que olhasse para ela.\r\n&#8220;o importante, de verdade, \u00e9 que voc\u00ea esteja l\u00e1.&#8221;\r\n\r\n21. (&#8220;estes objetos levo para o meu peito&#8221;)\r\nultimamente investigo os primeiros passos de dan\u00e7a que me apareceram depois das visitas aos bairros, \u00e0s pessoas, aos lugares de dentro e de fora. tamb\u00e9m visitei objectos e sensa\u00e7\u00f5es.\r\ninaugurei a exposi\u00e7\u00e3o num dia qualquer a meio do m\u00eas, n\u00e3o me lembro do n\u00famero ou do nome desse dia.\r\ndan\u00e7o devagarinho. pressinto uma n\u00e3o demoli\u00e7\u00e3o.\r\ncom restos de coisas que reconheci como &#8216;coisas delicadas&#8217;, inaugurei a exposi\u00e7\u00e3o dentro do meu peito.[\/vc_column_text][\/vc_tta_section][vc_tta_section title=&#8221;Desmanchando os prazeres &#8211; Manuela Ribeiro Sanches&#8221; tab_id=&#8221;1581508456535-35050547-4fb6&#8243;][vc_column_text]<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Manuela Ribeiro Sanches<\/span><\/span>\r\n\r\n\u201c<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><span lang=\"pt-PT\">\u00c9 assim que, de certo modo, o autor surge, finalmente, como um solit\u00e1rio. Um insatisfeito, n\u00e3o um l\u00edder. N\u00e3o um fundador, mas um desmancha-prazeres. E, se quisermos imagin\u00e1-lo em si mesmo na solid\u00e3o do seu of\u00edcio e das suas inten\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o vemos um trapeiro, cedo na madrugada, recolhendo com o seu bast\u00e3o trapos de fala e farrapos de l\u00edngua para os lan\u00e7ar, resmung\u00e3o e obstinado, um pouco inebriado, no seu carreto, n\u00e3o deixando, de vez em quando, de fazer esvoa\u00e7ar, trocista, na brisa matinal, um ou outro peda\u00e7o dessa chita desbotada de \u2018humanidade,\u2019 \u2018contempla\u00e7\u00e3o,\u2019 \u2018imers\u00e3o.\u2019 Um trapeiro, cedo, na madrugada do dia da revolu\u00e7\u00e3o.\u201d Walter Benjamin.<\/span><\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote1sym\" name=\"sdendnote1anc\">i<\/a><\/span><\/span><\/span><\/sup>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Dez anos. Dez anos que vieram depositar-se sobre um texto escrito em torno de alguns trabalhos de M\u00f3nica de Miranda,<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote2sym\" name=\"sdendnote2anc\">ii<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> onde se abordava o modo como, na Europa, mais precisamente em Portugal, na \u00e1rea metropolitana de Lisboa, se reproduziam as mesmas fronteiras, e delineavam os mesmos limites que a Uni\u00e3o Europeia vinha, ent\u00e3o, impondo e continua, inexoravelmente, a impor. Fronteiras que o trabalho <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><i>Underconstruction <\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">interrogava e reelaborava, introduzindo novas dimens\u00f5es inesperadas nas abordagens habituais aos chamados \u2018bairros problem\u00e1ticos.\u2019<\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Abordagens que replicam fronteiras resultantes de pol\u00edticas e de mentalidades herdadas de velhos e novos colonialismos que, em v\u00e1rios contextos, mais ou menos restritos, dos sociais aos acad\u00e9micos, insistimos em condenar desde o s\u00e9culo passado, para os vermos ressurgir, agora mais amea\u00e7adores do que antes, num mundo cada vez mais desordenado por grandes interesses e pequenos tiranos, t\u00e3o irrespons\u00e1veis quanto ignorantes, alimentando formas de xenofobia e de racismo pr\u00f3prios de nacionalismos crescentemente definidos como puros, \u00e9tnicos, absolutamente iguais a si mesmos.<\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> As mensagens da hibridez que a teoria p\u00f3s-colonial n\u00e3o se cansou de proclamar \u2013 apropriadas, por vezes, de forma excessivamente ing\u00e9nua ou otimista, quando n\u00e3o seguindo negligentemente mais uma voga, a ponto de se terem tornado quase desinteressantemente hegem\u00f3nicas em alguns discursos acad\u00e9micos e art\u00edsticos \u2013 tamb\u00e9m em Portugal \u2013 revelaram-se pouco eficazes, porque indiferentes, a maior parte das vezes, \u00e0s desigualdades econ\u00f3micas que a crise econ\u00f3mico-financeira deste s\u00e9culo viria a refor\u00e7ar. Desigualdades agravadas pela diferen\u00e7a da cor da pele ou da origem, sendo os diferentes imigrados, e seus descendentes, ainda considerados ou como cidad\u00e3os de segunda ou como intrusos que, cada vez mais, h\u00e1 menos que tolerar do que evitar, quando n\u00e3o rejeitar. <\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> Com efeito, o s\u00e9culo XXI parece comprovar que a ideia de uma educa\u00e7\u00e3o do g\u00e9nero humano que o projeto iluminista antecipara era apenas isso, uma ideia, um sonho, que a realidade crescentemente racista e nacionalista vem desmentir a cada dia que passa, nomeadamente em Portugal. Com efeito, se as reivindica\u00e7\u00f5es de afrodescendentes ou de ciganos portugueses se tornam crescentemente aud\u00edveis na esfera p\u00fablica, elas desencadeiam uma viol\u00eancia que p\u00f5e a nu os limites do consenso de um pa\u00eds de brandos costumes e de benignidade lusotropical herdado do velho Estado novo, consenso que nem a Revolu\u00e7\u00e3o descolonizadora de Abril viria a abalar, as fronteiras f\u00edsicas e mentais, sempre presentes, &#8211; embora silenciosas. S\u00e3o estas fronteiras que se tornam, agora, amea\u00e7adoramente cada vez mais aud\u00edveis, n\u00e3o s\u00f3 nas redes sociais, mas tamb\u00e9m no emergir de uma extrema-direita abertamente racista no parlamento portugu\u00eas, secundada por fazedores de opini\u00e3o prim\u00e1ria nos media, cuja popularidade crescente s\u00f3 poder\u00e1 ser explicada pelo assentimento de quem os consome e aplaude. Surge quase inofensivo o clamor e as <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><i>fake news<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> que rebentaram, em 2005, em torno do c\u00e9lebre Arrast\u00e3o na praia de Carcavelos,<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote3sym\" name=\"sdendnote3anc\">iii<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> quando comparados com a viol\u00eancia medi\u00e1tica com que foi abordada a \u2018invas\u00e3o\u2019 do centro da Lisboa dita multicultural e cosmopolita, quando jovens portugueses negros desceram at\u00e9 a\u00ed para se manifestar contra a viol\u00eancia injustificada da pol\u00edcia no bairro da Jamaica no Seixal, que redundou em novas agress\u00f5es,<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote4sym\" name=\"sdendnote4anc\">iv<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> mais uma vez injustificadas, viol\u00eancia que, agora recrudesce em novos incidentes que d\u00e3o origem a novos protestos,<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote5sym\" name=\"sdendnote5anc\">v<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> bem como a novas manifesta\u00e7\u00f5es de racismo,<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote6sym\" name=\"sdendnote6anc\">vi<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> ou ainda a declara\u00e7\u00f5es preocupantes<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote7sym\" name=\"sdendnote7anc\">vii<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> por parte de quem deveria zelar pela tranquilidade p\u00fablica.<\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> Simb\u00f3lico \u00e9 o facto de existirem espa\u00e7os, desde os de lazer aos de conv\u00edvio cosmopolita, que parecem continuar vedados a esses \u2018cidad\u00e3os de segunda,\u2019 que clamam cada vez mais pelos seus direitos e a sua perten\u00e7a, na sua diferen\u00e7a, a um Portugal que se quer cada vez menos diverso. <\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> A gentrifica\u00e7\u00e3o acelerada da capital, transformando a cidade num <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><i>resort<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> para europeus de um Norte da Europa mais abastado do que o seu Sul, varrido este por uma austeridade destruidora, vai tamb\u00e9m afastando, quando n\u00e3o expulsando, os seus \u2018ind\u00edgenas,\u2019 porque demasiado velhos ou demasiado pobres, para os novos bairros que surgiram na senda da destrui\u00e7\u00e3o que M\u00f3nica de Miranda registou nas suas fotografias e imagens dez anos atr\u00e1s. O que n\u00e3o impede que os enclaves menos nobres da encosta oriental da antiga Lisboa, n\u00e3o vejam a continua\u00e7\u00e3o da fixa\u00e7\u00e3o de imigrantes, agora maioritariamente do Bangla Desh e do Nepal, hesitando esses lugares entre um enobrecimento para turista ver, que as autoridades gostariam de apressar, e a insist\u00eancia desses rec\u00e9m-chegados em se apropriar de espa\u00e7os abandonados pelos menos afortunados, colorindo, de forma inesperada, a cidade, sem que os problemas da exclus\u00e3o e do silenciamento \u2013 desde os econ\u00f3micos aos psicol\u00f3gicos \u2013 se deixem de fazer sentir, ignorados, tamb\u00e9m sempre, pelos poucos que t\u00eam acesso garantido a espa\u00e7os p\u00fablicos e medi\u00e1ticos. <\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> Mas fora destas quest\u00f5es mais gerais, a que h\u00e1 muito os cientistas sociais se t\u00eam vindo, de modo mais ou menos etnogr\u00e1fico, a dedicar, que resta, finalmente, das pequenas est\u00f3rias a que esses contextos socioecon\u00f3micos \u2013 tamb\u00e9m eles resultado de pol\u00edticas que as determinam \u2013 tamb\u00e9m d\u00e3o lugar?<\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Ora, \u00e9 precisamente no ponto em que essas duas realidades, a pessoal, das est\u00f3rias, e a p\u00fablica, das pol\u00edticas, se cruzam, ponto em que o quotidiano dos indiv\u00edduos que habitam as cidades e as grandes decis\u00f5es governamentais sobre urbanismo se intersectam, que o trabalho de M\u00f3nica de Miranda se vem instalar \u2013 mais uma vez \u2013, decorrida uma d\u00e9cada, a fim de tornar mais aud\u00edveis e vis\u00edveis as vidas daqueles que s\u00e3o constante, reiteradamente, subalternizados.<\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Regressando sempre \u00e0 ideia de migra\u00e7\u00e3o como fen\u00f3meno social e categoria pol\u00edtica e te\u00f3rica, M\u00f3nica de Miranda revisita temas e trabalhos anteriores em torno desses processos de exclus\u00e3o, marcados por fronteiras que a antiga estrada militar fortificou, desde finais do s\u00e9culo XIX, em tempo de inven\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es nacionais<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote8sym\" name=\"sdendnote8anc\">viii<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">, com os seus hinos, monumentos e homogeneiza\u00e7\u00e3o de um passado, que sempre se caraterizou pela diversidade, para se deter no outro lado do progresso, que esse s\u00e9culo de otimismo voluntarista quis materializar, mas que j\u00e1 o s\u00e9culo XX desmentira.<\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Ru\u00ednas a recordar cidades destru\u00eddas por guerras persistem \u2013 antes, seria a B\u00f3snia, numa antiga Jugosl\u00e1via dividida por lutas tribais, antecipando os purismos \u00e9tnicos que agora alastram por toda a Europa e mundo; agora poderia ser Alepo ou outras localidades esventradas por conflitos assentes, tamb\u00e9m, em ideologias religiosas, que interesses geoestrat\u00e9gicos da nova desordem mundial aproveitam, manipulam, em proveito pr\u00f3prio. <\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Lugares devastados pelo progresso desigual que deixa um rasto de ru\u00ednas que a c\u00e2mara fixa sem comentar. <\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Mas h\u00e1 tamb\u00e9m objetos quotidianos, desde cassetes de v\u00eddeo a brinquedos, passando por certid\u00f5es de nascimento, procura\u00e7\u00f5es ou reda\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas sobre o vestido azul com que sonhou \u2013 e encontrou \u2013, entre muitos outros artefactos, como sapatos, pe\u00e7as v\u00e1rias de vestu\u00e1rio, artigos de limpeza, manuais de economia pol\u00edtica, fragmentos de azulejos, discos vinil, CDs, bobines e cassetes, que, nas fotografias de M\u00f3nica de Miranda, surgem destacados, isolados, do seu contexto, finalmente arquivados, para narrarem, de forma t\u00e3o eloquente quanto enigm\u00e1tica, est\u00f3rias de vida an\u00f3nimas, mas plenas de particularidades. <\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Vest\u00edgios, que, com as suas est\u00f3rias silenciosas, M\u00f3nica de Miranda se recusa tanto a narrar como a ignorar, a esquecer, criando a possibilidade de imaginarmos a complexidade desses passados, que a artista, com a sua objetiva, escava, tal arque\u00f3loga desses n\u00e3o-lugares abandonados pelo chamado progresso, buscando nesses detritos biografias de indiv\u00edduos interrompidas pela moderniza\u00e7\u00e3o. <\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Tal trapeiro que sai de madrugada (Benjamin)<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote9sym\" name=\"sdendnote9anc\">ix<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">, atento aos vest\u00edgios, aos pequenos nadas, que preencheram o quotidiano daqueles que, desalojados, os tiveram de deixar para tr\u00e1s, na pressa da partida ou apanhados de surpresa por essa onda de progresso, a c\u00e2mara colige, sem ordem nem hierarquia, esses objetos, essa desola\u00e7\u00e3o que, em tempos, foi o lugar de encontro poss\u00edvel com os s\u00edtios de onde se veio e aqueles a que n\u00e3o querem que se perten\u00e7a, mas a que ligam novos afetos, experi\u00eancias, numa pluralidade de hist\u00f3rias, de origens e de ra\u00edzes espalhadas atrav\u00e9s de m\u00faltiplas rotas entre lugares. <\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">M\u00f3nica de Miranda n\u00e3o tenta decifrar ou impor um sentido, em suma narrar esses contos de Lisboa, quando regista testemunhos de tr\u00e2nsitos entre, e a perten\u00e7a a, m\u00faltiplos lugares, colecionando sons e imagens,<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote10sym\" name=\"sdendnote10anc\">x<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> que arquiva, aleatoriamente, sem que, por um momento, incorra na tenta\u00e7\u00e3o de lhes sobrepor uma qualquer voz autoral, atenta \u00e0s narrativas que evocam sonhos e expetativas, a maior parte das vezes frustrados, dessas vidas em tr\u00e2nsito f\u00edsico e emocional entre Lisboa e a Praia ou Luanda, Portugal e Cabo Verde ou Angola, a Europa e a \u00c1frica.<\/span><\/span>\r\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">***<\/span><\/span><\/p>\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Walter Benjamin escreveu, a partir de Marcel Proust, que a recorda\u00e7\u00e3o reifica o passado, enquanto que a mem\u00f3ria, a involunt\u00e1ria, na sua arbitrariedade, \u00e9 capaz de guardar a experi\u00eancia.<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote11sym\" name=\"sdendnote11anc\">xi<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> Pois \u201c[a mem\u00f3ria] \u00e9 um meio de aproxima\u00e7\u00e3o ao vivido, como a terra \u00e9 o meio sob o qual as antigas cidades se encontram soterradas.\u201d Por isso, \u201caquele que pretende aproximar-se do seu passado soterrado tem de comportar-se com um homem que escava. Sobretudo, n\u00e3o deve recear regressar constantemente ao mesmo conte\u00fado \u2013 espalh\u00e1-lo como se espalha terra, revolv\u00ea-lo como se revolve o solo.\u201d<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote12sym\" name=\"sdendnote12anc\">xii<\/a><\/span><\/span><\/sup>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Ora, o arquivo que M\u00f3nica de Miranda vem construindo obsessivamente, revolvendo o solo do passado e os seus vest\u00edgios presentes, nada possui de autorit\u00e1rio, antes se aproxima do gesto do colecionador benjaminiano, arbitr\u00e1rio e compulsivo,<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote13sym\" name=\"sdendnote13anc\">xiii<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> que, por isso mesmo, se escusa e escapa a qualquer impulso sistematizador, permitindo que a perplexidade e a interroga\u00e7\u00e3o venham depositar-se sobre essas imagens, com tudo aquilo que podemos \u2013 e, sobretudo, n\u00e3o podemos vir a \u2013 saber sobre esses lisboetas de corpo e a tempo inteiros \u2013 invis\u00edveis e madrugadores, como o trapeiro<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote14sym\" name=\"sdendnote14anc\">xiv<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> \u2013, sem os quais o resort tur\u00edstico em que Lisboa se transformou n\u00e3o conseguiria sequer funcionar. Arquivo, pois, menos para recordar, do que para conservar \u2013 na sua incompletude, tanto mais eloquente, porque concreta \u2013 fragmentos de passados e presentes que insistimos em n\u00e3o (querer) ver ou ouvir. <\/span><\/span>\r\n\r\n<span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">O que estes contos de Lisboa oferecem \u00e9, assim, menos uma hist\u00f3ria coerente do que um convite a que se aprenda a disponibilidade para decifrar estes vest\u00edgios, fragmentos de experi\u00eancias \u00fanicas, mem\u00f3rias de vidas e tamb\u00e9m de uma cidade. Imagens, objetos encontrados ao acaso, pois \u201cao colecionador acontecem as coisas, ele n\u00e3o as escolhe,\u201d<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote15sym\" name=\"sdendnote15anc\">xv<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> objetos que, no seu despojo, v\u00eam interromper a hist\u00f3ria hegem\u00f3nica, que s\u00f3 conhece a consagra\u00e7\u00e3o un\u00edvoca, banalizadora, de atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas, que nem todos podem partilhar. S\u00e3o esses outros passados que, despojados da sua aura,<\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><a class=\"sdendnoteanc\" href=\"#sdendnote16sym\" name=\"sdendnote16anc\">xvi<\/a><\/span><\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> s\u00e3o, contudo, resgatados pelo olhar e pela aten\u00e7\u00e3o da c\u00e2mara da artista. Sem que este olhar se transforme em programa de den\u00fancia pol\u00edtica ou panfleto social, desmanchando t\u00e3o s\u00f3, mas n\u00e3o menos convincentemente, os prazeres e as malhas tecidas pelas narrativas duma sociedade que gosta de se ver como tolerante e cosmopolita, ignorando muitos dos que, h\u00e1 muito, a constroem. Diariamente. <\/span><\/span>\r\n<div id=\"sdendnote1\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote1anc\" name=\"sdendnote1sym\">i<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">Walter Benjamin, \u201eEin Au\u00dfenseiter macht sich bemerkbar,\u201c in <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\"><i>Gesammelte Schriften<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">. Band III: Kritiken und Rezensionen, Hrsg. von Hella Tiedemann-Bartels, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1991, pp. 219-225, aquii<\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\"><i>. <\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">p. 225.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote2\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote2anc\" name=\"sdendnote2sym\">ii<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Manuela Ribeiro Sanches<\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><b>, <\/b><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">\u201c<\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">Lisboa p\u00f3s-colonial e outras fortalezas na modernidade<\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">,\u201d in M\u00f3nica de Miranda e Paul Goodwin, Lisboa: Direc\u00e7\u00e3o-Geral das Artes, 2009, pp. 26-28.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote3\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote3anc\" name=\"sdendnote3sym\">iii<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">Diana Andringa, <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"><i>Era uma vez um arrast\u00e3o.<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\"> 2005. In: <\/span><\/span><span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.dailymotion.com\/video\/xe4px\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">https:\/\/www.dailymotion.com\/video\/xe4px<\/span><\/a><\/u><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">. Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote4\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote4anc\" name=\"sdendnote4sym\">iv<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2019\/01\/21\/sociedade\/noticia\/tensao-baixa-lisboa-apos-protesto-moradores-bairro-jamaica-1858814\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">https:\/\/www.publico.pt\/2019\/01\/21\/sociedade\/noticia\/tensao-baixa-lisboa-apos-protesto-moradores-bairro-jamaica-1858814<\/span><\/a><\/u><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">. Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote5\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote5anc\" name=\"sdendnote5sym\">v<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/pais\/psp-e-movimentos-antirracistas-voltam-a-medir-forcas-na-avenida-11772803.html\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">https:\/\/www.dn.pt\/pais\/psp-e-movimentos-antirracistas-voltam-a-medir-forcas-na-avenida-11772803.html<\/span><\/a><\/u><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">. Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote6\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote6anc\" name=\"sdendnote6sym\">vi<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/02\/03\/sociedade\/noticia\/claudia-simoes-entrou-urgencias-face-deformada-hematomas-extensos-relatorio-1902741\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">https:\/\/www.publico.pt\/2020\/02\/03\/sociedade\/noticia\/claudia-simoes-entrou-urgencias-face-deformada-hematomas-extensos-relatorio-1902741<\/span><\/a><\/u><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">. Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote7\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote7anc\" name=\"sdendnote7sym\">vii<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/02\/03\/sociedade\/noticia\/novo-diretor-psp-nao-viu-qualquer-infraccao-video-detencao-claudia-simoes-1902758\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">https:\/\/www.publico.pt\/2020\/02\/03\/sociedade\/noticia\/novo-diretor-psp-nao-viu-qualquer-infraccao-video-detencao-claudia-simoes-1902758<\/span><\/a><\/u><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"pt-PT\">. <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"en-US\">Consultado em 10 de fevereiro de 2020.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote8\">\r\n\r\n<a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote8anc\" name=\"sdendnote8sym\">viii<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">\u0002<\/span><\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><span lang=\"en-US\">Eric Hobsbawn, Terence O: Ranger, <\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><span lang=\"en-US\"><i>The Invention of Tradition<\/i><\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><span lang=\"en-US\">, <\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Cambridge [Cambridgeshire]; New York: Cambridge University Press, 1983.<\/span><\/span><\/span>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote9\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote9anc\" name=\"sdendnote9sym\">ix<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">Walter Benjamin, \u201eEin Au\u00dfenseiter macht sich bemerkbar,\u201c in <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\"><i>op. cit.<\/i><\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote10\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote10anc\" name=\"sdendnote10sym\">x<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"> https:\/\/postarchive.org\/wp2024\/arquivo\/<\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote11\">\r\n\r\n<a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote11anc\" name=\"sdendnote11sym\">xi<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">\u0002<\/span><\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><span lang=\"de-DE\">Idem, \u201eCharles Baudelaire, Ein Lyriker im Zeitalter des Hochkapitalismus,\u201c in <\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><span lang=\"de-DE\"><i>Gesammelte Schriften<\/i><\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><span lang=\"de-DE\">. Bd. I, 2. Abhandlungen. Hrsg. von Rolf Tiedemann und Hermann <\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Schweppenh\u00e4user<\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><span lang=\"de-DE\">, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1991, pp. 509-90, aqui, pp. 610-11.<\/span><\/span><\/span>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote12\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote12anc\" name=\"sdendnote12sym\">xii<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">Idem, \u201eDenkbilder\u201c, in <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\"><i>Gesammelte Schriften<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">. Band IV.1, Kleine Prosa. Baudelaire \u00dcbertragungen. Hrsg. Tilmann Rexroth, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1991, pp. 305-438, aqui, p. 401.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote13\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote13anc\" name=\"sdendnote13sym\">xiii<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">Idem, \u201cDer Sammler\u201c, in <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\"><i>Gesammelte Schriften<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">. Band V.I, Das Passagenwerk. Hrsg. Rolf Tiedemann, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1991, pp. 269-280.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote14\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote14anc\" name=\"sdendnote14sym\">xiv<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">Walter Benjamin, \u201eEin Au\u00dfenseiter macht sich bemerkbar,\u201c in <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\"><i>op. cit. <\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">p. 225.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote15\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote15anc\" name=\"sdendnote15sym\">xv<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">Idem, \u201eDer Sammler\u201c, in <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\"><i>op.cit<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">, p. 272.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n<div id=\"sdendnote16\">\r\n<p class=\"sdendnote\"><a class=\"sdendnotesym\" href=\"#sdendnote16anc\" name=\"sdendnote16sym\">xvi<\/a><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">\u0002<\/span><\/sup> <span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">Idem, \u201cCharles Baudelaire, Ein Lyriker im Zeitalter des Hochkapitalismus,\u201c in <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\"><i>op. cit.<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span lang=\"de-DE\">, p. 646.<\/span><\/span><\/p>\r\n\r\n<\/div>\r\n[\/vc_column_text][\/vc_tta_section][vc_tta_section title=&#8221;No museu do meu passado&#8221; tab_id=&#8221;1591646937475-c8c630cb-8d8f&#8221;][vc_column_text]<strong>No museu do meu passado<\/strong>\r\n\r\nraquellima, 04\/05\/2020\r\n\r\n&nbsp;\r\n\r\nJ\u00e1 n\u00e3o me recordo ao certo da minha miss\u00e3o naquele bairro, mas a minha exist\u00eancia ali respondia a algum prop\u00f3sito, talvez at\u00e9 profissional. Ao mesmo tempo, a familiaridade do lugar era imensa e sentia-me em casa. A certa altura, estavam crian\u00e7as a jogar \u00e0 bola. Crian\u00e7as negras, descal\u00e7as e felizes. Produziam, enquanto jogavam, aquele ru\u00eddo impercet\u00edvel entre conversas, gritos e gargalhadas. Tentei ladear o campo enquanto atravessava para n\u00e3o distrair a anima\u00e7\u00e3o do jogo, e quando vi uma proje\u00e7\u00e3o direta de luz solar na fachada de um pr\u00e9dio pensei \u201c\u00e9 a\u00ed que me vou sentar\u201d.\r\n\r\nN\u00e3o era apenas a fachada de um pr\u00e9dio, era uma esp\u00e9cie de canto. Um lado do pr\u00e9dio com uma pequena profundidade para me permitir sentar no ch\u00e3o e ficar cercada por tr\u00eas paredes, apenas com a vista frontal recortada por duas linhas verticais. Eu continuava a observar as crian\u00e7as enquanto desfrutava do sol na cara, atrav\u00e9s de um recorte dos seus movimentos quando cruzavam o meu horizonte.\r\n\r\nMais tarde compreendi que outras crian\u00e7as brincavam \u00e0s escondidas e isso despertou em mim a sensa\u00e7\u00e3o de fazer parte do jogo j\u00e1 que, desde aquele canto, tamb\u00e9m estava escondida. E foi essa sensa\u00e7\u00e3o v\u00edvida e confort\u00e1vel de ser crian\u00e7a que desencadeou a viagem at\u00e9 ao museu do meu passado.\r\n\r\nFiquei pequena de novo. Virei crian\u00e7a. E gradualmente aquele lugar tornou-se cada vez mais reconhec\u00edvel: era a nossa antiga casa na Quinta da Serra, mas emparedada e transformada em museu. N\u00f3s er\u00e1mos duas crian\u00e7as &#8211; talvez irm\u00e3s, n\u00e3o estou certa &#8211; e est\u00e1vamos a ser guiadas por algu\u00e9m nessa visita. Talvez fosse a nossa m\u00e3e, mas tamb\u00e9m n\u00e3o tenho a certeza, apenas a sensa\u00e7\u00e3o de uma presen\u00e7a maternal, adulta, familiar e protetora que nos levava a esse passado, a reconhecer o local onde t\u00ednhamos vivido parte da nossa inf\u00e2ncia, quando ao mesmo tempo j\u00e1 n\u00e3o habit\u00e1vamos aquela casa h\u00e1 muito tempo. Coisas de sonhos&#8230;\r\n\r\n\u00cdamos relatando, freneticamente, \u00e0 nossa \u201cm\u00e3e\u201d o qu\u00e3o bem conhec\u00edamos os cantos daquele lugar. Lembro-me de subir tr\u00eas degraus que davam para uma porta interditada e dizer \u201cSim! N\u00f3s sub\u00edamos e entr\u00e1vamos por aqui!\u201d. Estava a ser surpreendente revisitar esse nosso lugar, desengavetar est\u00edmulos, gestos e mem\u00f3rias.\r\n\r\nAt\u00e9 que repar\u00e1mos que n\u00e3o \u00e9ramos as \u00fanicas pessoas no espa\u00e7o. Aquele momento j\u00e1 n\u00e3o era uma explora\u00e7\u00e3o \u00edntima de um s\u00edtio que nos pertenceu ou ao qual pertencemos, mas sim um museu com vitrines, mesas de exposi\u00e7\u00e3o e pessoas a circular pela divis\u00e3o onde est\u00e1vamos. No centro daquele p\u00e1tio museol\u00f3gico, escancarado a c\u00e9u aberto, estava uma mesa enorme com um tampo de vidro que descrevia a hist\u00f3ria do lugar. Por perto, circulava um guia que ia explicando a alguns visitantes, de forma indistinta, a biografia das pe\u00e7as. Foi muito assustador compreender que a nossa vida privada e infantil se tinha transformado num museu, ainda mais sabendo o que tinha acontecido naquela casa, com aquela vassoura cor de rosa&#8230;\r\n\r\nAproximei-me, timidamente, da mesa. A \u201cm\u00e3e\u201d que nos guiava tentava acompanhar-nos com o seu corpo presente. Tentava mediar o que v\u00edamos. E qual foi o meu espanto quando vi que existiam mais vidas do que a nossa vida naquele museu. At\u00e9 uma maquete em madeira de um barco enorme dentro do expositor, porque aparentemente tinham descoberto o original enterrado naquela localiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o compreendi exatamente essa parte da narrativa, mas era a que mais merecia destaque no que se queria contar com aquela exposi\u00e7\u00e3o. Era algo maior que tornava o espa\u00e7o digno de ser apresentado a um p\u00fablico.\r\n\r\nAinda assim, eu continuava curiosa e ansiosa para saber se a nossa vassoura cor de rosa tinha sido considerada na exposi\u00e7\u00e3o, numa mistura de vontade de reconhecimento da sua import\u00e2ncia e receio da explana\u00e7\u00e3o do seu significado. E foi ent\u00e3o que a \u201cm\u00e3e\u201d apontou para a fotografia, reservada a um canto da mesa, sem moldura, triste&#8230; catalogada seriamente com legendas e explica\u00e7\u00f5es, mas como uma mera curiosidade, um detalhe, at\u00e9 certo ponto insignificante, perante a grandeza do evento. Eu fiz quest\u00e3o de transgredir as regras do museu e agarrar na foto, observ\u00e1-la bem de perto, em todo o seu esplendor.\r\n\r\n&nbsp;\r\n\r\nAcordei desse sonho a chorar compulsivamente. Dos choros mais honestos que j\u00e1 solucei. Mas curto, como sempre. Rapidamente recalcado e oprimido quando come\u00e7a a fluir autonomamente. Ao contr\u00e1rio de todas as outras vezes em que interrompi o meu choro, desta vez deu para sentir a densidade que ele carrega no meu peito. Deu para visualizar a bola imensa que sobe lentamente enchendo o meu t\u00f3rax, a caminho da garganta. Como o p\u00e1ssaro azul de Bukowski ou como a minha vassoura cor de rosa&#8230; seja como for eu engoli, rapidamente, essa subida. Mas desta vez com a certeza de que algo existe e ter\u00e1 de sair mais tarde ou mais cedo e que, enquanto estiver l\u00e1\/c\u00e1 dentro vai sempre pesar, e far\u00e1 sempre estragos. E talvez o maior estrago seja essa hesita\u00e7\u00e3o entre escrever l\u00e1 ou c\u00e1, a minha constante compulsividade em exteriorizar-me, viver fora do meu corpo, ou fora das minhas emo\u00e7\u00f5es mais profundas.\r\n\r\nN\u00e3o \u00e9 por acaso que chamei a este caderno \u201clivro dos sonhos ou da auto psican\u00e1lise\u201d, porque existem sonhos que s\u00f3 podem ser arquitetados para nos ajudar a compreender quem somos e onde estamos.\r\n\r\nE talvez o museu represente a hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia, sem tempo e espa\u00e7o lineares, apenas um museu amorfo onde todos os instantes se encontram. Gosto de acreditar que sim, que seja essa a met\u00e1fora por detr\u00e1s do meu sonho, enquanto volto a chorar, desta vez desmesuradamente. Choro porque as recorda\u00e7\u00f5es em torno da vassoura cor de rosa dizem-me que n\u00e3o tive uma inf\u00e2ncia simples e sinto-me culpada at\u00e9 hoje pelas trag\u00e9dias que n\u00e3o cometi. Choro porque essa crian\u00e7a nunca se curou, nunca se sentiu amada e nunca soube reconhecer o amor. Sempre acreditou que o amor se encontrava nos outros e na forma como observam e visitam a sua casa, o seu museu. Mas nunca soube se amar. Nunca deixou de ser uma bola densa que sobe pelo peito at\u00e9 \u00e0 garganta do mundo. Uma vassoura cor de rosa que tenta limpar a poeira e a sujidade pelo caminho.\r\n\r\nN\u00e3o sei porqu\u00ea que este sonho s\u00f3 chega agora. Talvez finalmente esteja a aprender a amar-me.\r\n\r\nFinalmente.\r\n\r\nCheguei.[\/vc_column_text][\/vc_tta_section][\/vc_tta_tour][\/vc_column][\/vc_row]\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mam\u00e3 Morte \u2013 Djaimilia Pereira de Almeida Mam\u00e3 morte, estou aqui, cantou Cruzado em Kimbundu, passando a porta de casa. 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